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Notícias


 Sessão Cultural - 8 Maio 2012

 


                                                                                                               Tiago Alves

 

O Presidente da Academia de Marinha deu notícia do falecimento, ocorrido em Março, do académico Romano Caldeira Câmara, membro efectivo da Classe de Artes, Letras e Ciências.
Lembrando que a sua primeira comunicação, “Correio Marítimo Português”, fora apresentada ainda no tempo do Centro de Estudos de Marinha, o Almirante Vieira Matias referiu também os excepcionais conhecimentos do Dr. Caldeira Câmara como especialista de Filatelia Temática Naval. Em sua memória foi guardado um minuto de silêncio.
O Presidente Vieira Matias anunciou ainda que, na sessão de 19 de Junho, terá lugar a cerimónia de assinatura do documento de cedência dos direitos de edição em língua portuguesa do livro Brown Waters of Africa, do académico John Cann.
Dando início ao ciclo “Os Portugueses na Ínsulíndia”, foi apresentada pelo académico Luís Semedo de Matos a comunicação “As rotas da Insulíndia sulcadas pelos portugueses (séculos XVI e XVII)”.
A fim de contextualizar a sua intervenção, o orador começou por falar dos primórdios da chegada dos Portugueses à Índia, referindo-se ao apontamento de Álvaro Velho do Barreiro no Roteiro de Viagem de Vasco da Gama, em que diz “...e há uma ilha que chamam Malaca donde vem o cravo a esta cidade”, na qual salienta a sua importância no comércio das especiarias. Bem informado do valor estratégico daquela praça, D. Manuel enviou expedições para negociar directamente com o Sultão o estabelecimento de relações comerciais pacíficas. No entanto seria pela força, em 1511, que Afonso de Albuquerque, na sequência da tomada de Goa no ano anterior, veio a tomar Malaca, explicou o conferencista. Em 1512, e não tendo ali encontrado os comerciantes chineses com os quais esperava fazer negócio, António Abreu larga de Malaca e inicia a que seria a primeira das expedições comerciais dos Portugueses na Insulíndia. Esta viagem fora precedida pelo envio de um junco armado por um grande mercador local, Nina Chatu, e o antigo feitor Rui de Araújo, com a missão de informar quem eram os novos senhores do comércio na região, e dos seus intentos de comerciar pacificamente.

 


                                         Tiago Alves



O Cte. Semedo de Matos prosseguiu a sua exposição explicando como se desenvolveram, e porquê, as rotas mais importantes do comércio da Insulíndia, nomeadamente com as Molucas e os Ilhéus de Banda, o único centro de produção de três das mais apreciadas especiarias que a Europa e a Ásia consumiam: o cravo, a noz e as maças. Com um bom conhecimento das rotas e do regime dos ventos, de regularidade pendular, Malaca conseguiu assim tirar grande proveito da sua posição central nas trocas comerciais entre o Coromandel, o Guzarate e Bengala, que produziam panos de algodão, o Pegu, Java e Sião, produtores de arroz, a China, origem dos apreciados produtos de luxo como as sedas e as porcelanas, e o já referido centro de produção das especiarias. A estas rotas acresciam ainda as de Sunda, pela pimenta, e de Timor, pelo sândalo.
Na parte final da sua exposição, o orador falou ainda da rota mais curta para as Molucas, via costa setentrional do Bornéu, mas que não se revelou lucrativa, bem como da desejada ligação directa com o Celeste Império, que acabaria por ser concretizada por Jorge Álvares em 1513.
O debate, bastante participado, foi revelador do elevado interesse suscitado pela apresentação da primeira conferência do ciclo dedicado à presença dos Portugueses na Ínsulíndia.
 

 

 

 

Sessão Cultural - 24 Abril 2012

 


                                                                                                            Tiago Alves



Intitulada “Almirante Ernesto de Vasconcelos (1852-1930): marinheiro, geógrafo, diplomata e Secretário Perpétuo da Sociedade de Geografia de Lisboa”, a conferência do dia foi apresentada pelo académico Luís Aires-Barros.
Salientando a circunstância do biografado ter ingressado na Escola Naval com apenas doze anos de idade, o orador começou por se referir ao percurso escolar do jovem Ernesto de Vasconcelos, que foi promovido a Guarda-Marinha aos 23 anos e mais tarde se especializou como Engenheiro Hidrógrafo. Da sua longa e multifacetada carreira, o Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa sublinhou assim a vertente do geógrafo, cujo primeiro trabalho constituiu no levantamento das Barras do Tejo e do Guadiana. Depois de coordenar o levantamento hidrográfico da Foz do Zaire, em Angola, que lhe deu renome nas áreas da cartografia e da geografia, Ernesto de Vasconcelos é nomeado para várias comissões de delimitação de fronteiras em Angola, Timor e Macau.

 


                                                           Tiago Alves

 

Especial detalhe foi dado pelo orador ao relevante papel que desempenhou nas negociações relativas à Questão do Barotze , território situado no sudeste de Angola, do qual uma parte significativa seria atribuída a Portugal, em detrimento das pretensões britânicas.
O Prof. Aires-Barros falou ainda da carreira política de deputado às Cortes, de cuja Câmara chegou a ser Vice-presidente, de chefe de gabinetes ministeriais, bem como da presidência de diversas comissões de nomeação governamental. Foi também docente da Escola Naval e da recém-fundada Escola Colonial, que começara por funcionar nas instalações e sob a orientação da Sociedade de Geografia de Lisboa, da qual veio a ser Secretário Perpétuo.
A terminar uma interessante apresentação, acompanhada com mapas dos territórios onde a acção de Ernesto de Vasconcelos mais se fez sentir, com consequências até aos nossos dias, o conferencista expressou a sua incapacidade de fazer justiça às elevadas qualidades pessoais, intelectuais e profissionais do eminente Almirante, tal foi a abrangência da sua obra, que inclui uma bibliografia de mais de meia centena de títulos.
No debate que se seguiu, de entre as informações que complementaram o que fora dito na apresentação, destaca-se a curiosidade de ter Ernesto de Vasconcelos sido convidado a dar o seu contributo para a prestigiada Enciclopédia Britânica.

 

 

Visita aos achados arqueológicos da Praça D. Luís 


                                                                                                              
Três dezenas de membros da Academia efectuaram, na tarde de 24 de Abril, uma visita guiada ao local dos trabalhos arqueológicos que decorrem na Praça de D. Luís, a ocidente do Mercado da Ribeira.
Ciceroneados pelo Dr. Alexandre Sarrazola, que coordena as diferentes equipas no local, tiveram oportunidade de ver o que resta de uma estrutura de finais do século XVI, com cerca de 300 metros quadrados, que terá servido de estaleiro de reparação naval e de rampa de lançamento de embarcações.
De entre as interessantes informações aduzidas pelo Dr. Sarrazola, que respondeu esclarecidamente às muitas perguntas que lhe foram sendo colocadas, salienta-se a curiosidade de o madeirame da camada mais funda da estrutura ser composto por peças de navio reaproveitadas.

 

 


 

Sessão Cultural - 17 Abril 2012

 


                                                                                                            Tiago Alves

 

A conferência do dia, intitulada “O Imaginário e os Descobrimentos”, foi apresentada pelo académico Martim Corte-Real de Albuquerque.
O orador começou por abordar o imaginário geográfico da forma do mundo, desde a sua representação por Anaximandro, Hecateu de Mileto, Eratóstenes, Ptolomeu e Pomponio Mela, entre outros autores da Antiguidade Clássica Grega e Romana, até às representações medievais mais significativas anteriores aos Descobrimentos. Referiu as viagens imaginárias descritas na Ilíada e na Odisseia, bem como as que foram narradas por Heródoto, Políbio e, mais tarde, por autores romanos.
Falou também das viagens fantásticas ligadas às hagiografias, referindo as “ilhas fabulosas”, como a Atlântida, e destacou a importância dos textos de Marco Polo.
Um outro imaginário associado às viagens, explicou o Prof. Martim de Albuquerque, era o conjunto de seres lendários e maravilhosos que povoavam as paragens visitadas, e cuja iconografia ilustrava os mapas e os textos. Como exemplos apontou os Faunos, os Acéfalos, os Andróginos, os Esquiápodes, e muitos outros, mostrando as gravuras em que foram representados. Falou também do bestiário medieval e dos seus animais mitológicos e exóticos, como o centauro, a sereia, o dragão, o grifo e outros.

 


                                                     Tiago Alves


Já no período da Expansão Portuguesa, abordou esta temática nas obras de Duarte Pacheco Pereira – Esmeraldo de Situ Orbis, Pêro de Magalhães Gândavo – História da Província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, e Luís Fróis – História do Japão. Falou ainda de alguns autores estrangeiros que também escreveram acerca de um imaginário tornado real nas suas visões, como Hans Staden, André de Thévet, Jean de Léry, Pigafetta, Linschoten, Valignano e Colombo, descrevendo naquelas paragens quer um paraíso, quer um seu oposto contranatura – onde até existe o canibalismo.
A concluir, o académico Martim de Albuquerque salientou a enorme contribuição dos Descobrimentos para o conhecimento científico em todas as suas vertentes, substituindo um imaginário milenar por uma realidade não menos espantosa.
O período de debate foi particularmente fecundo, pois deu oportunidade ao eminente jurista de se referir ao Jusnaturalismo, teoria a cuja luz os povos do Novo Mundo acabaram por ver protegidos os seus direitos mais elementares, tentando pôr cobro aos abusos que sobre eles vinham sendo praticados. A este propósito sublinhou o papel de Bartolomé de las Casas, Francisco Suárez, Luis de Molina, António Vieira e mesmo o famoso Directório para os Índios – lei josefina que protegia os Índios do Grão-Pará e Maranhão.

 

                      

 

Sessão Cultural - 10 Abril 2012

 


                                                                                                               Tiago Alves


O Presidente Vieira Matias informou ter sido recentemente lançado o livro The miracle of «Restoration», 1627-1668, sexto volume da colecção Portuguese Sea Battles, do Comandante Armando Saturnino Monteiro.
O Almirante salientou a importância “deste extraordinário trabalho”, felicitando o Autor e agradecendo-lhe o que tem feito para divulgar a nossa História Marítima.

 


Apresentada pelo Vice-almirante João Manuel Lopes Pires Neves, a conferência do dia intitulava-se “Os meios da Estratégia e a Marinha – Uma perspectiva contemporânea”.
“A razão de ser da Armada na defesa do país deve estar sempre presente no espírito dos que detêm a governação”, começou por dizer o conferencista, citando o Vice-almirante Botelho de Sousa num escrito de 1940.

 


                                            Tiago Alves


O académico Pires Neves explicou que o seu propósito era relacionar os temas das intervenções usualmente feitas na Academia “com a problemática da economia, da eficiência e da eficácia”, desenvolvendo e aprofundando o tema “segundo uma perspectiva de estratégia estrutural e genética e, até mesmo, de gestão e […] de fortalecimento do próprio “Potencial Estratégico da Marinha”. Prosseguiu salientando que a “metodologia mais adequada […] será considerar as Forças Armadas e a Marinha como um sistema que, como qualquer organismo vivo, foi criado para a prossecução de uma determinada finalidade e por isso incumbido de uma ‘Missão’”. Falou do ambiente estratégico, do país e das políticas públicas, da missão das Forças Armadas e da Marinha, da organização estruturada e do sistema de forças naval, e de recursos humanos – salientando ser a carreira “espaço e plataforma de exercício de capacidades e factor de motivação”. “A motivação do pessoal tem aqui, neste preciso contexto da satisfação, um papel importantíssimo a desempenhar”, frisou o Almirante.
A respeito da formação, disse que a Marinha a considerou sempre “como um factor estratégico da sua política de gestão”.
Nas notas finais sublinhou que, apesar de todo o passado recente “ter sido muito marcado por uma vontade política de modernização das Forças Armadas, também o foi […] de “menos forças melhores forças”, de “redimensionamento militar” e de “redução de custos” e em que o envelope financeiro […] nunca deixou de ser limitado ou até mesmo insuficiente”.
No debate que se seguiu, a nota dominante foi o sentimento generalizado de que os decisores políticos têm sido incapazes de reajustar o dimensionamento das Forças Armadas aos verdadeiros interesses do nosso país.

A comunicação pode ser lida na íntegra em “Textos de Conferências”

 

Sessão Cultural - 27 Março 2012

 


                                                                                                              Tiago Alves

A conferência do dia, intitulada “As quatro sub-regiões geopolíticas emergentes no Atlântico Sul”, foi apresentada pelo Prof. Doutor Armando Marques Guedes.
O orador começou por abordar a importância do Atlântico Sul para as trocas comerciais, iniciadas no século XVI por Portugueses e Espanhóis, bem como para o tráfico de escravos a partir de meados do século seguinte. Já no nosso tempo, o Atlântico Sul adquiriu maior protagonismo por diversos motivos, tais como o segundo conflito mundial, o ter sido alternativa à rota do Suez na sequência da Guerra dos Seis Dias, a ocorrência da Guerra das Falklands ou o facto de por ele passarem, cada vez mais, as rotas do narcotráfico internacional.
No lado positivo, falou designadamente das plataformas offshore, das imensas reservas de krill e do enorme potencial a ser explorado em tão vasto oceano.

 


                                         Tiago Alves


O Prof. Marques Guedes analisou também os principais focos de problemas na zona e os conflitos que daí poderão advir, destacando a instabilidade na Venezuela, no Haiti e na Nigéria. A propósito desta, referiu as acções criminosas do grupo terrorista Boko Haram, seita muçulmana que se opõe ao sistema de governo secular de inspiração ocidental e pretende impor no país a lei da Sharia.
Falou dos exercícios aeronavais conjuntos envolvendo a generalidade dos países da América do Sul e forças francesas e norte-americanas, e também da novidade da presença naval de países como a Rússia e a China – que assim mostram a importância que atribuem a uma área essencial para o desenvolvimento do comércio mundial. Relembrou ainda o papel que a Nato tem vindo a desempenhar desde a sua primeira participação em exercícios com forças africanas, em 2006.
Para além de referir a reactivação da IV Esquadra norte-americana – facto que não é alheio à dependência dos EUA relativamente ao petróleo nigeriano e angolano, mostrou como os mais importantes países da América do Sul e de África, com interesses na região, reequiparam as suas forças aéreas e navais.
Ao longo da uma detalhada exposição, em que foi esquematizando o que considera serem as quatro sub-regiões geopolíticas emergentes, o Prof. Marques Guedes abordou ainda assuntos tão diversos como a importância da Antárctida, o alargamento do Canal do Panamá ou a próxima abertura das passagens árcticas do Noroeste e da Rota do Norte – e as implicações que terão para o espaço geopolítico do Atlântico Sul.

 


Caça Skyhawk aterrando no porta-aviões São Paulo da Marinha do Brasil

 

Sessão Cultural - 20 Março 2012

 


                                                                                                               Tiago Alves


No início da sessão teve lugar uma breve cerimónia de entrega de Diplomas aos novos académicos correspondentes, eleitos na última Assembleia de Académicos.
A encerrar o ciclo O Poder Naval na II Guerra Mundial, foi apresentada pelo Académico Fernando Melo Gomes a comunicação “Conceitos e tecnologias das operações navais. Da II Guerra Mundial aos nossos dias”.
O orador começou por mostrar como a II Guerra Mundial foi pródiga em inovações tecnológicas, “num tempo em que se sabia que a transformação de uma capacidade de combate podia ter um forte impacto no desfecho da guerra”.
O plano da Alemanha de construir até 1944 uma grande esquadra de superfície, pondo fim à sua inferioridade numérica em forças navais, foi cancelado em Setembro de 1939, por motivo da antecipação da guerra, disse o Almirante Melo Gomes. O conceito estratégico naval alemão passou então a ser o de cortar as linhas de comunicação marítima que abasteciam o Reino Unido de matérias vitais e negar-lhe o uso do mar. Para tal recorreram à arma submarina, mas em vez dos cem submarinos que pretendiam ter em missão no Atlântico, nos primeiros dez meses da guerra apenas conseguiram ter 12 unidades, acrescentou.
O Reino Unido dispunha de uma grande esquadra, da qual dependia para o seu abastecimento, na medida em que, antes da guerra, importava 2/3 dos produtos alimentares de que carecia.

 


                                              Tiago Alves


No início do conflito, graças à sua superioridade tecnológica e operacional, e perante uma deficiente organização dos escoltas dos porta-aviões ingleses, a Marinha alemã pôde torpedear o Ark Royal e afundar o Courageous, levando Winston Churchill, então primeiro Lorde do Almirantado, a ordenar o afastamento dos porta-aviões das missões de combate aos submarinos alemães, substituindo-os por grupos de navios, denominados Hunter Killer, cuja missão era procurar e destruir os submarinos no imenso Oceano Atlântico, em vez de escoltarem comboios de navios mercantes.
O orador referiu detalhadamente as mudanças de conceitos e as inovações tecnológicas que foram sucedendo ao longo do conflito, como o desenvolvimento do radar e do sonar, da aviação e dos mísseis, entre outros, analisando, com esclarecedores dados estatísticos, o seu impacto no desenrolar das operações navais e no transporte marítimo das mercadorias. A concluir a breve análise da II Guerra Mundial, disse que “a bomba atómica fora a grande transformação militar da guerra” e que os Estados Unidos passaram a ser a superpotência.
Prosseguiu fazendo o mesmo tipo de análise relativamente às transformações militares ocorridas no pós-guerra e nas guerras que se seguiram, como a da Coreia, a dos Seis Dias, o conflito das Ilhas Falkland e as duas Guerras do Golfo, sem esquecer a Guerra Fria, falando da contenção, vigilância e espionagem, da dissuasão militar e da superioridade da informação.

 


Desenvolveu os conceitos que governam o uso do Poder Naval e Marítimo, como a batalha naval decisiva, as operações de dissuasão estratégica, de controlo e interdição de um espaço marítimo e de negação do uso do mar. Falou também de Battlespace Dominant Knowledge, da Esquadra em potência, da projecção de poder sobre terra e das operações de segurança marítima, nomeadamente.
Sobre as operações navais e a “Revolução nos Assuntos Militares”, ou RMA, o Almirante Melo Gomes abordou questões como a importância do decisor político nas iniciativas de paz e de guerra, o actual papel das Forças Armadas nas sociedades modernas, a superioridade da informação, a nova geração de armas e as novas forças, conceitos e tácticas. A este propósito falou da sua experiência pessoal, salientando, entre outras, as dificuldades de lidar com o volume de informação, o “tempo operacional intensíssimo”, o pouco tempo para reflectir, os media, ou a incerteza no teatro de operações.
A terminar, o orador disse que “a guerra moderna é a guerra de sempre… por outros meios”, e que “Portugal pode desinvestir, adaptar, modernizar ou transformar as suas Forças Armadas, mas não pode dispensar uma marinha à medida dos seus interesses”.
Antes de encerrar a sessão, o Presidente Vieira Matias salientou a importância das diversas temáticas afloradas pelo Almirante Melo Gomes, expressando o desejo de que possam incentivar novos estudos e reflexões, e dar origem à apresentação de comunicações de igual interesse.

 

Sessão Cultural - 13 Março 2012

 


                                                                                                               Tiago Alves

O Académico Vasco Gil Soares Mantas apresentou a comunicação “Uma epopeia naval germânica: a Operação Aníbal”, na segunda sessão do ciclo O Poder Naval na II Guerra Mundial.
O desconhecimento do grande público, sobretudo em Portugal, relativamente aos dramáticos acontecimentos ocorridos no Leste do Império Alemão nos meses finais da Segunda Guerra Mundial, em boa parte resulta, disse o orador, da circunstância da história ter sido escrita pelos vencedores, sendo óbvio que uma análise imparcial obriga a considerar a documentação disponível nos diferentes campos em confronto, o que foi recentemente tornado possível com o começo da abertura de parte dos arquivos, designadamente soviéticos.
Com esta apresentação visou divulgar o essencial de uma das mais importantes operações navais do conflito, disse, e que consistiu na evacuação das populações dos territórios do norte do III Reich situados a oriente do Rio Oder, principalmente da Prússia, Silésia e Pomerânia.
Acompanhando com fotos a sua interessante exposição, o Prof. Gil Mantas falou de alguns dos protagonistas, como o Grande-Almirante Karl Dönitz, e dos principais navios e portos do Báltico envolvidos naquele dramático esforço de salvamento humanitário, face ao generalizado temor de represálias e barbaridades de toda a ordem que se receava viessem a ser cometidas pelas forças militares soviéticas, como na realidade veio a suceder.

 


                                             Tiago Alves

No balanço final a Marinha alemã foi bem sucedida nesta operação, que envolveu mais de mil meios navais, na medida em que conseguiu evacuar cerca de dois milhões de alemães, mas a factura em vidas humanas foi pesadíssima. Para além do caso mais conhecido do Wilhelm Gustloff, cujo afundamento por um submarino soviético da Frota da Bandeira Vermelha causou para cima de 9 mil vítimas, na sua maioria mulheres e crianças, diversos outros navios de grande porte foram afundados ou destruídos, quer pela marinha russa quer por bombardeamentos aliados, numa lógica de vingança e ódio a que nem os navios-hospital escaparam.
No debate que se seguiu, o Académico Cyrne de Castro revelou, a título de curiosidade, que antes da guerra um seu avô fora médico de um dos navios referidos pelo conferencista, o Cap Arcona. Tragicamente, depois de ser bombardeado por aviões da Royal Air Force no dia anterior à capitulação da Alemanha, o Cap Arcona seria o túmulo de cerca de cinco mil pessoas, das quais mais de quatro mil, ironicamente, eram prisioneiros aliados de campos de concentração nazis.


 

O Wilhelm Gustloff

                                                                                                




 Sessão Cultural - 6 Março 2012

 


Nesta sessão foi apresentada a comunicação “A Guerra e o Poder Naval”, pelo Académico Emérito António José Telo. Tal como informou o Presidente Vieira Matias, tratou-se da primeira palestra de um novo ciclo, intitulado “O Poder Naval na II Guerra Mundial”, a decorrer ao longo de Março.
O orador começou por explicar que, na elaboração dos estudos comparativos que iria apresentar, considerara os somatórios das tonelagens dos principais navios – couraçados, porta-aviões, incluindo os de escolta, cruzadores, destroyers, escoltas, torpedeiros e submarinos.

 


Dispondo de um poder naval que equivalia, em 1939, a pouco mais de metade do dos países aliados, o Eixo prosseguiu uma estratégia naval de contestação da hegemonia do inimigo, disse o Prof. António Telo, mas a partir de 1942 não conseguiu evitar um rápido declínio. No final da guerra tinha apenas 12% do poder naval aliado, tendo este crescido ao longo do conflito.
Tal como nas guerras napoleónicas, acrescentou, a Grã-Bretanha destrói o poder naval de amigos e inimigos para criar a sua hegemonia absoluta, mas os EUA fizeram o mesmo na 2ª Guerra Mundial e passaram a ter a hegemonia naval que até então, e desde há muito, era da Royal Navy.
Analisou as perdas e os aumentos aos efectivos das armadas dos principais países beligerantes, por tipo de navio, bem como a alteração da importância de cada um destes ao longo do conflito. Evidenciou assim o que se passou com os couraçados, que eram a medida do poder naval em 1939 e no final do conflito estavam remetidos para um papel auxiliar na esquadra, e em contraponto o que sucedeu com o porta-aviões, dado que o poder aéreo emergiu como a principal componente do poder naval. Entre outras novidades técnicas referiu as capacidades de comando e controlo, a electrónica e as armas inteligentes.
Nas conclusões com que terminou a sua exposição, além de mostrar a ligação íntima entre poder naval e poder industrial, o orador referiu que venceram as nações que conseguiram manter abertas as vias marítimas essenciais à passagem dos recursos de que careciam para o seu esforço de guerra.

Fotografias de Tiago Alves



 

Sessão Solene - 28 Fevereiro 2012

 

Em 28 de Fevereiro decorreu na Academia de Marinha uma Sessão Solene, presidida pelo Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, em que foi entregue o Prémio «Almirante Sarmento Rodrigues»/2011 e feito o elogio de três novos Membros Honorários.

 


Depois de agradecer a presença do Almirante CEMA, o Presidente Vieira Matias saudou os familiares do Almirante Sarmento Rodrigues e os novos Membros Honorários, os Comandantes Serra Brandão e Saturnino Monteiro, informando que não podendo estar presente o Académico Veríssimo Serrão, lhe fizera oportunamente a entrega do diploma na sua residência.
O Almirante Vieira Matias disse que o Júri decidira por unanimidade atribuir o Prémio à obra, já editada, «Embarcações que tiveram berço na Laguna – Arquitectura Naval Lagunar», do Eng. Senos da Fonseca. Fazendo uma breve apresentação do livro, o Presidente disse, em determinado passo, que o autor “centra o seu trabalho no estudo das cinco embarcações denominadas: Mercantel, Ílhava, Moliceiro, Barco do Mar e Varino”, e que, para cada uma delas “foi feito um interessante levantamento histórico de origens, evolução, características náuticas, decorativas”, designadamente. Terminou com felicitações ao autor “por este magnífico trabalho”, e expressou o desejo de que outros se sigam.
O Presidente agradeceu aos Académicos Maria do Rosário Themudo Barata, João Abel da Fonseca e José Cyrne de Castro, a disponibilidade em fazerem os elogios dos três novos Membros Honorários, que preencheria a segunda parte da sessão.
Aos três Académicos laureados, que felicitou efusivamente, disse o Almirante Vieira Matias que a Academia de Marinha se sentia “muito honrada” em poder contar com a sua “dignificante colaboração”.
A terminar as suas palavras, o Presidente expressou “uma última palavra de agradecimento aos membros do júri do Prémio “Almirante Sarmento Rodrigues”/2011.

 


Seguiu-se uma breve cerimónia em que a Senhora D. Maria Isabel Gomes Mota entregou o Prémio «Almirante Sarmento Rodrigues»/2011 ao Engenheiro Senos da Fonseca. Pedindo para usar da palavra, o autor premiado falou da sua ligação ao mar desde os tempos da meninice, do tempo em que foi oficial da Reserva Naval, recordando com saudade a camaradagem e o carácter dos oficiais com os quais teve o gosto de prestar serviço, e rendeu homenagem ao patrono do Prémio com que honrosamente se sentiu distinguido. Prosseguiu falando com orgulho da sua terra, Ílhavo, dos seus heróis e das suas gentes, e por fim da sua obra, da qual este livro é o sétimo publicado. A terminar, o Eng. Senos da Fonseca disse que guardaria para sempre o valor imaterial do prémio, mas destinava o valor material do mesmo a uma instituição de benemerência, como pratica com os proventos das suas publicações.

   



A segunda parte da sessão começou com a entrega, pelo Almirante CEMA, dos diplomas aos Membros Honorários.
Ao fazer o elogio público do Membro Honorário Joaquim Veríssimo Serrão, a Académica Maria do Rosário Themudo Barata começou por recordar que lhe coubera em 1995 “a honra de saudar o Digníssimo Mestre […] na sessão de lançamento, na Academia das Ciências de Lisboa, do livro Amar, Sentir e Viver a História, que o Curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa lhe dedicara por motivo da sua jubilação universitária. Ao longo de uma visita pelo percurso biobibliográfico do Académico, para além de enunciar as suas inúmeras e prestimosas intervenções nas actividades da Academia de Marinha, referiu que “as recordações adquirem nova e mais profunda sensibilidade. Mais marcantes se evidenciam certas características da personalidade intelectual e humana do Homenageado: a dádiva e o entusiasmo na docência, o universitário pioneiro e timoneiro nos caminhos da historiografia que teve a coragem de abrir e de estimular os

 

 

mais jovens a percorrer, o historiador prolífico e escrupuloso, o Português de inquebrantável amor à sua Pátria e às suas gentes”.
No elogio público ao Membro Honorário Eduardo Henrique Serra Brandão, o Académico João Abel da Fonseca disse que o seu trabalho fora facilitado pelo facto de, em 28 de Agosto de 1970, o então académico recipiendário o ter já recebido da parte do Presidente Sarmento Rodrigues, pelo que lhe bastava “juntar breves apontamentos que acrescem à glória do nosso Confrade, já então conquistada”. Sublinhou o seu importante contributo na Academia, traduzido em cerca de quatro dezenas de intervenções de elevado interesse, bem como as suas qualidades de professor, reconhecidas pela “excepcional distinção de, em vida, ter sido dado o seu nome a uma sala de aulas da Escola Naval”. A melhor prova do reconhecimento

 

 

das qualidades do Professor, acrescentou, é a saudação comovida de muitos dos seus antigos alunos, que o apresentam aos filhos como “um dos melhores professores que tive”. A propósito da personalidade do Comandante Serra Brandão, disse que “teve a arte de não se tornar estátua, de resistir delicadamente a todas as consagrações e nunca se ter deixado academizar, porque jamais confundiu erudição com sabedoria”. “Já nada mais tenho para lhe dizer”, disse a terminar, “senão o de ser intérprete de um sentimento que proclamamos em uníssono: Gostamos muito de si!”
O terceiro e último elogio público, ao Membro Honorário Armando Saturnino Monteiro, foi feito pelo Académico José Cyrne de Castro. Começando pela atribuição em 1943 do Prémio Fiel Stockler, no final do 1º ano da Escola Naval, seguiu a evolução de uma carreira militar brilhante, na qual as suas excepcionais qualidades de organizador e pedagogo, rapidamente percepcionadas pela hierarquia, foram colocadas ao serviço das mais complexas e exigentes missões. A este propósito salientou, nomeadamente, a elaboração do Livro do Grumete e do Livro do Monitor, e a organização do grande desfile militar na Avenida da Liberdade, com 3800 homens das marinhas de 14 países, aquando das Comemorações

 

 

Henriquinas de 1960. A Academia de Marinha deve-lhe, disse, a estruturação e organização da História da Marinha Portuguesa (1139-1974), a cuja Comissão Científica presidiu durante quatros anos, período em que foram publicados ou preparados os quatro primeiros volumes. Destacou, entre outras, a sua obra monumental, de consagração, Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, em 8 volumes, agora traduzida para inglês, “trabalho este que constitui uma referência irrecusável nos estudos navais e históricos”. “O Senhor Comandante acreditou no Futuro, serviu a Armada e continua a servi-la nesta Academia. A sua pessoa e exemplo merecem amizade, respeito e admiração”.
A encerrar a sessão, muito aplaudida nas diversas fases e intervenções pela assistência – na qual se encontrava uma grande delegação de Ílhavo, o Presidente Vieira Matias renovou os seus agradecimentos ao Almirante CEMA e a todos os intervenientes e participantes.

Fotografias de Ana Nunes

 

 

Sessão Cultural - 14 Fevereiro 2012

 

 

A conferência do dia, intitulada “D. Dinis – o Pai da Pátria”, foi apresentada pelo académico João Abel da Fonseca, Secretário da Classe de História Marítima, a propósito das comemorações dos 750 anos do nascimento do monarca.
Dada a circunstância de se dever ao Rei «Lavrador» a criação do Almirantado, começou o orador por dedicar a sua apresentação “a todos os Almirantes de Portugal”, na pessoa do Presidente da Academia de Marinha. Contudo, entendeu não poder deixar de associar uma co-dedicatória à memória de quem “pela vez primeira, na nossa Academia, se referiu a D. Dinis”, o académico Nuno Valdez dos Santos.
Ao iniciar a sua comunicação, precisou o significado do título simbólico de Pai da Pátria, o Pater Patriae da Roma Antiga.
Depois de salientar a importância de D. Dinis na construção do nosso imaginário colectivo, declamou Camões, Pessoa e o Rei «Trovador», neste caso lendo a cantiga de amor que dedicou à Rainha Santa Isabel.
Prosseguiu com a relação circunstanciada das mais significativas obras da Historiografia dionisina, bem como os eventos já realizados no âmbito das comemorações em curso.

 

 

Na segunda parte o Dr. João Abel da Fonseca debruçou-se sobre algumas das iniciativas do monarca, tais como a fundação da Universidade, o Tratado de Alcanises, a extinção da Ordem dos Templários, a criação da Ordem de Cristo, a autonomização da Ordem de Santiago em relação ao mestrado castelhano e os Regimentos dos Tabeliães e dos Escrivães, estabelecendo o Português como língua oficial. Referiu ainda a introdução do sistema monetário, a celebração do primeiro tratado de comércio, o desenvolvimento das feiras francas, a criação da primeira mutualidade, o incentivo da exploração mineira, a construção do primeiro cais acostável do porto de Lisboa, as tercenas e o apoio à criação de confrarias e irmandades, nomeadamente de marítimos. 
Antes de terminar, o conferencista falou também da figura física do monarca - designadamente o facto de ser ruivo, talvez herança do seu 5º avô Frederico Barba-Ruiva, do seu especial gosto pela caça, do seu parentesco próximo com os mais importantes monarcas europeus, da referência que lhe é feita por Dante Alighieri na Divina Comédia e ter na sua descendência um Papa, Bento XIII.
A terminar, leu um trecho da Crónica de D. Dinis, de Duarte Nunes do Lião, que o apelida O Pai da Pátria, assim justificando o título da sua comunicação.
No debate subsequente, entre outros esclarecimentos, o académico João Abel da Fonseca teve o ensejo de explicar que, ao contrário do mito, não foi D. Dinis quem ordenou o plantio do pinhal de Leiria.

Fotografias de Ana Nunes

 

 

Sessão Cultural - 7 Fevereiro 2012

 



Recordando que no dia seguinte se completaria o 50º aniversário do Navio Escola Sagres ao serviço da Armada, o Presidente Vieira Matias felicitou a guarnição, em nome da Academia de Marinha e nas pessoas de dois dos seus antigos comandantes, os académicos Castanho Paes e Malhão Pereira, presentes na assistência.
Intitulada “Fernão Gomes da Mina, Mercador e Conselheiro de Monarcas”, a conferência do dia foi apresentada pelo académico Aurélio de Araújo Oliveira.

 



Apesar de serem parcos os dados documentais sobre a personagem a que o título alude, sabe-se da sua forte ligação aos negócios das ilhas e costas de África e a diversas acções políticas e militares, como as conquistas de Alcácer, Arzila e Tanger, disse o orador. Referiu a importância da sua presença na conquista de Anafé, actual Casablanca, por ser um refúgio da pirataria que prejudicava a navegação atlântica. Falou também dos significativos apoios financeiros que concedeu à Coroa e da extensão dos seus interesses comerciais aos eixos da Flandres e do Mediterrâneo. Pela sua pujança económica e pelas ligações a D. Afonso V e ao Príncipe D. João, Gomes da Mina foi, como bem explicou o Prof. Aurélio de Oliveira, uma personagem marcante e influente do seu tempo. Além de ter iniciado a estratégia de posse dos lugares atingidos pelos Portugueses, por meio da sinalização com padrões em madeira, teve um decisivo papel na reserva e preservação dos nossos espaços marítimos e “acabou por tomar em mãos praticamente toda a construção naval em Lisboa”, sublinhou o orador.
Feito Cavaleiro nos campos de África, pela sua participação com armas e dinheiro, Conselheiro Régio de Afonso V, D. João II e D. Manuel, e homem da nobreza do Reino, Fernão Gomes da Mina estará representado nos Painéis de S. Vicente de Fora, em posição de destaque, segundo crê o Prof. Aurélio de Oliveira, pelas razões que convictamente expôs na parte final da sua comunicação, apoiado no Cancioneiro Geral e na Ásia de João de Barros.

 

 

No debate que encerrou a sessão estabeleceu-se um interessante diálogo entre a assistência e o conferencista, o qual manifestou estar consciente das polémicas que a sua tese poderá desencadear entre a comunidade académica que se dedica a interpretar os discutidos Painéis de S. Vicente de Fora. 

 Fotografias de Ana Nunes

 

 





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