
Em meados de dezembro de 1601 encontrava-se fundeada em Bantam, sob o comando de André Furtado de Mendonça, o capitão mais afamado do seu tempo, uma armada portuguesa constituída por seis galeões e doze navios de remo, acompanhados por duas ou três naus e dois juncos de mercadores. Bantam é um porto situado na costa norte da ilha de Java, nas proximidades do estreito de Sunda, que era, nessa altura, o ponto de chegada das naus holandesas que vinham da Europa e o ponto de partida das naus que regressavam. Era, portanto, o sítio ideal para destruir essas naus e assim arruinar as respetivas companhias e obrigá-las a desistir de navegar para o Oriente.
No dia 25 de dezembro, deu entrada no estreito de Sunda uma armada holandesa constituída por três naus e dois patachos (navios semelhantes às naus mas mais pequenos) que foram intercetados por dois galeões portugueses que ali se encontravam de vigia. Travou-se então um prolongado duelo de artilharia, com vantagem para os navios portugueses que iam arrastando os adversários para Bantam, onde se encontrava o grosso da nossa armada, que logo se fez ao mar. Face à superioridade numérica dos portugueses, o capitão-mor holandês decidiu voltar para trás. Porém, encontrando-se a barlavento e tendo-se apercebido que os pesados galeões portugueses eram incapazes de bolinar, acabou por fundear junto à costa a fim de reparar as avarias que tinha sofrido no combate de artilharia. Não tendo maneira de se aproximar dos navios holandeses, devido à falta de capacidade de bolina dos seus, André Furtado de Mendonça nada mais pôde fazer do que fundear também, a sota-vento do inimigo.
No dia 27 mandou os navios de remo atacar as naus holandesas. Foi um desastre. Recebidos com cerradas descargas de artilharia e mosquetaria, as galeotas, as fustas e os bantins portugueses ficaram com as guarnições dizimadas, acabando as primeiras por ser tomadas pelos holandeses. Na noite de 28 para 29 o ataque foi repetido, desta vez com brulotes (duas corocoras a arder), mas também sem qualquer efeito.
No dia 29 os navios holandeses fizeram-se ao mar, talvez na intenção de seguir para as Molucas. O mesmo fizeram os portugueses na esperança de os conseguirem forçar a um combate decisivo. Mas o vento caiu e ambas as armadas ficaram imobilizadas, fora do alcance de tiro, enquanto iam sendo arrastadas pela corrente para leste. Ao amanhecer do dia 30 o vento recomeçou a soprar moderado e todos os navios se puseram em movimento. Ingenuamente André Furtado mandou içar uma grande bandeira vermelha, desafiando os holandeses para um combate à abordagem! Mas o capitão-mor holandês não era propriamente um cavaleiro andante mas sim um marinheiro hábil e consciente dos interesses dos armadores por conta dos quais trabalhava. Tendo constatado que a armada portuguesa, arrastada pela corrente, já se encontrava francamente sota-venteada em relação a Bantam, meteu à força e foi fundear triunfalmente naquele porto, exatamente no mesmo local onde tinha estado fundeada a nossa armada, dando assim a entender aos Javos de que tinha sido ele o vencedor do confronto!
Compreendendo que com vento e corrente de oeste e com navios incapazes de bolinar não tinha a menor possibilidade de se aproximar dos navios holandeses, André Furtado de Mendonça, que era indubitavelmente um grande cavaleiro, no sentido medieval do termo, mas que não era um marinheiro, abandonou Bantam e dirigiu-se para as Molucas, deixando o campo livre aos holandeses para fazerem o seu negócio à vontade.
Nesta primeira batalha travada com os Holandeses ficou bem patente que os galeões e as naus portuguesas tinham menos velocidade e bolinavam menos que as ligeiras naus holandesas que, consequentemente podiam navegar impunemente para onde quisessem sem qualquer receio, uma vez que sabiam que, no caso de se defrontarem com navios portugueses em número superior, facilmente se poderiam escapar. Preocupados apenas em construir naus e galeões de grandes dimensões, com altos castelos, capazes de transportar muita carga e de terem vantagem no combate à abordagem, os Portugueses tinham-se deixado atrasar consideravelmente no domínio da construção naval em relação aos povos do Norte da Europa. E assim, quando foram obrigados a competir com eles, não só não dispunham de navios adequados como também, pior que isso, já tinham perdido a capacidade de inovação. Esta, e não qualquer outra, foi a principal causa da decadência da Marinha Portuguesa e de Portugal nos começos do século XVII.