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Boca do Tigre (29 de Novembro de 1809 a 21 de Janeiro de 1810)


Durante o reinado do imperador Ch'ien Lung (1736-1795) tiveram lugar rebeliões em diversas regiões da China. Uma delas tinha como chefe Quan Apon Chay senhor de uma grande armada com que assolava as costas do império, assaltando as povoações ribeirinhas e capturando os navios de comércio. Dispondo de centenas de juncos bem armados, tripulados por vários milhares de marinheiros e soldados aguerridos, Quan Apon Chay derrotou estrondosamente sucessivas armadas imperiais enviadas contra ele, o que levou as cidades costeiras a pagar-lhe tributo para poderem conservar o seu comércio marítimo.

De início, Quan Apon Chay não interferiu com a navegação de Macau. Mais tarde, quando se sentiu suficientemente forte, começou a atacar também os navios portugueses, o que levou o Governador de Macau, em julho de 1793, a organizar uma pequena esquadra de três navios mercantes armados, que, a 6 de maio de 1807, nas proximidades de Macau, travou um renhido combate com uma armada de 50 juncos de Quan Apon que conseguiu afugentar.

Porém, pouco tempo depois, os piratas recobraram ânimo e voltaram a atacar os navios e as povoações ribeirinhas na área de Cantão. Uma armada imperial que teve a ousadia de sair para lhes dar combate foi novamente derrotada, tendo caído nas mãos dos piratas 20 juncos, 500 peças de artilharia e 8 000 prisioneiros! E os combates com os navios de guerra portugueses recomeçaram sendo os piratas batidos por diversas vezes.

Em finais de 1809, já refeito das perdas que sofrera nesses combates, Quan Apon Chay, estava de volta à região de Cantão. Assustados, os mandarins desta cidade mandaram pedir auxílio aos Portugueses de Macau. Respondendo ao pedido, o Governador decidiu organizar uma esquadra que ficou constituída por um brigue de guerra de 16 peças e 100 homens de guarnição e cinco navios mercantes armados, qualquer deles com um armamento e uma guarnição sensivelmente semelhantes aos do brigue. Para comandante da esquadra foi escolhido o capitão de artilharia José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa.

A 29 de novembro de 1809 a nossa esquadra deixou Macau com destino à foz do rio das Pérolas, a que os Chineses chamam «Boca do Tigre», a fim de se juntar a uma armada chinesa de 60 juncos imperiais que devia colaborar com ela. e que, pela mesma altura, deveria ter saído de Cantão. Mas, antes de os chineses terem aparecido, apareceram diversos juncos do Quan Apon Chay com os quais os nossos navios travaram combate, afundando uns, queimando outros e obrigando os restantes a fugir.

A 11 de dezembro foi Quan Apon Chay que veio, com toda a sua armada reunida, desafiar a nossa à vista de Macau. E nova batalha se desenrolou, nos moldes das anteriores, tendo os piratas perdido quinze juncos entre afundados e incendiados. Com os restantes navios muito destroçados, bateram em retirada e desapareceram.

Ao amanhecer do dia 21 de janeiro de 1810, encontrando-se a esquadra portuguesa ao largo da ilha de Lantau, surgiu mais uma vez a dar-lhe combate a armada de Quan Apon Chay na força de 300 juncos de guerra armados com 1 500 peças de artilharia e guarnecidos com cerca de 20 000 homens! Vinha esta armada dividida em seis esquadras, cada uma das quais tomou por alvo um navio português, tendo lugar mais uma batalha encarniçada em que os piratas foram decisivamente derrotados, sendo obrigados a refugiar-se num rio com pouca água onde os navios portugueses, por terem maior calado, não podiam entrar.

Decorridas cerca de duas semanas Quan Apon Chay mandou dizer a Alcoforado que estava disposto a negociar e que lhe pedia que o fosse visitar. Sem hesitar, Alcoforado meteu-se sozinho numa embarcação e foi pessoalmente ao junco do pirata que se encontrava rodeado por toda a sua armada! Quan Apon Chay ficou estarrecido perante tanta coragem e ao mesmo tempo lisonjeado pela confiança que o nosso comandante depositava nele. E como também era um homem corajoso e honrado, declarou a Alcoforado que considerando a forma como os Portugueses se tinham batido e a demonstração de confiança que lhe haviam feito, mudara de ideias e estava agora disposto a entrar em negociações de paz com o Imperador da China, desde que fossem mediadas pelo desembargador Arriaga, magistrado de Macau com grande prestígio entre os Chineses.

A 21 de fevereiro de 1810 firmou-se um tratado de paz, segundo o qual Quan Apon Chay se comprometia a entregar toda a sua armada e a reconhecer sem reticências a autoridade do Imperador. Em contrapartida, por sugestão de Arriaga, era aquele investido no cargo de almirante-mor da armada chinesa gozando de inúmeras regalias. Uma obra-prima de diplomacia oriental.

A 20 de abril teve lugar, em Cantão, a entrega formal das forças do Quan Apon Chay, num total de duzentos e oitenta navios, duas mil peças de artilharia e vinte e cinco a trinta mil homens.

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