Uma das exigências daquela época prendia-se com os chamados navios de defesa da costa. Não sendo possível à maioria das nações adquirir modernas esquadras de combate, havia que construir navios de menor tonelagem que nos portos ou nas costas se opusessem às grandes unidades de combate. Esses navios foram pequenos couraçados poderosamente artilhados.
Tal exigência levou à aquisição da corveta couraçada Vasco da Gama que em 1876 veio reforçar a Armada, conjuntamente com mais seis navios de construção compósita (cavername metálico, casco de madeira, forro de cobre).
Até final da década foram ainda adquiridos mais alguns pequenos navios para o serviço de fiscalização de que se destaca, em 1878 o vapor Fulminante destinado à recém-criada (3 de maio de 1878) Escola de Torpedos e com que se iniciaram os lançamentos de torpedos em Portugal.
Em 1882, a Marinha recebe o primeiro navio torpedeiro (a que se seguiriam outros 3 passados 5 anos), as primeiras metralhadoras, os canhões de tiro rápido e as espingardas de repetição, marcando assim a adesão de Portugal às novas armas criadas naquele final de século. É uma época de evolução da Armada em que também se desenvolvem as construções de pequenos navios mistos para serviço no Ultramar.
É o período de iniciação da ocupação efetiva do litoral africano e o país precisa de mostrar a bandeira naqueles territórios que são também disputados pelas outras potências europeias. Portugal começa cedo esta política de ocupação efetiva e a Marinha é o grande meio para a sua concretização. Incapaz de garantir uma política de ocupação efetiva total, aposta-se numa estratégia de ocupação de pontos-chave como já se fizera com sucesso nos séculos XV e XVI. Estes pontos são os locais dos corredores de penetração para o interior como o Rio Zaire, o Rio Cunene, Lourenço Marques, a Beira, o Rio Zambeze e o Tungué.
No ano de 1882 é fundada a Empresa Nacional de Navegação, que se manteria em atividade até 1977 e criado o Sistema de Autoridade Marítima com a divisão do Continente em 3 Departamentos Marítimos, de que dependiam as Capitanias dos Portos, organização que, com as necessárias atualizações, ainda hoje se mantém em vigor.
Auge do período de renovação da Armada
Está-se no auge de um período de renovação da Armada que passa a dispor de uma frota de 68 navios embora de pequena dimensão, destinados essencialmente a estacionar em territórios ultramarinos. Continuava-se a não dispor de uma esquadra, e apenas a corveta couraçada "Vasco da Gama" e a corveta "Afonso de Albuquerque", que foi o primeiro navio da Armada a ter instalada iluminação elétrica, tinham algum valor militar. Em 1887 são recebidos os primeiros navios de casco de aço dando mais um salto tecnológico; eram mais leves, mais baratos, mais resistentes e melhor adaptados aos climas tropicais.
Segue-se o aumento ao efetivo de pequenas lanchas canhoneiras para utilização fluvial, que vão ser o elemento chave das operações da Armada e da penetração portuguesa em África.
Estas lanchas estiveram em todas as Campanhas Africanas de Ocupação e Pacificação de 1887 a 1908, atuando como apoio de fogo, base de operações de desembarque, transporte de pessoal e material, patrulhas fluviais, centros de comunicações e até servindo de hospital. São verdadeiros multiplicadores de força económicos e eficazes quando em apoio de colunas terrestres, na maioria constituídas por tropas de recrutamento local.
Como afirma o Professor António José Telo no seu volume da História da Marinha Portuguesa (1824-1974):
"É este o segredo do sucesso das campanhas de pacificação portuguesas em África, feitas com meios muito menores que os usados pelas restantes potências: a exploração da nova eficácia das pequenas unidades apoiadas pelos contingentes recrutados localmente".
As dificuldades de conservação, consequência das longas permanências em África, levam a que muitos navios não se mantenham nas melhores condições, mas as pequenas lanchas canhoneiras prosseguem, sem interrupção, o seu árduo trabalho nos rios de Angola, Moçambique e Guiné.
Foi assim que o Ultimato Inglês de 1890 veio encontrar a Marinha, o que levou à realização de uma grande subscrição nacional para a aquisição de navios para a Armada.
O brio Nacional, então ofendido, leva a uma alteração nos projetos de renovação da Armada que agora passam a dar prioridade aos navios para a defesa do Continente, mas, curiosamente, e devido aos problemas com as operações de pacificação em África é neste período (1891-96) que se constroem mais lanchas canhoneiras para utilização nos rios africanos.
A Marinha iniciou a sua atuação em África com o combate ao tráfico de escravos logo que este foi extinto em Portugal em 1876, obrigando a deslocar navios para vários pontos dos territórios africanos. Seguiram-se não só as campanhas de pacificação e as de manutenção de soberania face às ameaças das outras potências europeias como também, em simultâneo, a manutenção dos transportes marítimos garantidos deste 1871 pelos dois navios de transportes da Marinha - o África e o Índia.
Nas campanhas de África, as lanchas-canhoneiras, percorrem incessantemente os grandes rios dos antigos territórios africanos, enquanto oficiais como Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens ligam por terra as costas de Angola às de Moçambique e as forças de Marinha participaram nos combates em terra.
Há sempre que acorrer a situações de emergência quando surgem acontecimentos inopinados. Assim, a Marinha, além de garantir a presença em Angola e Moçambique, teve de enviar meios para acudir aos acontecimentos na Guiné e em São Tomé (1890), Timor (1889, 1893 e 1895) e Macau (1880, 1884). Em períodos de crise, como foi, por exemplo, o que seguiu ao Ultimato e durante a chamada Guerra dos Boers, as próprias Estações Navais de Angola e Moçambique têm de ser reforçadas com mais meios. Também ocorrências internacionais obrigavam ao desvio dos parcos meios; em 1893 deslocaram-se navios para proteger no Rio de Janeiro os residentes portugueses quando da revolta da esquadra brasileira; para Tânger foram enviados navios em 1881 e 1897 e até para o Sião, onde em 1890 foi necessário socorrer o cônsul e os comerciantes nacionais que ali se encontravam.
A Marinha representa, durante grande parte deste período, maior contingente militar europeu em África onde mantém, num esforço notável, mais de dois terços dos seus efetivos em pessoal e a quase totalidade dos navios operacionais. De salientar que os navios da Armada eram ainda utilizados no transporte da Família Real para cerimónias internacionais como as de 1886 em Inglaterra.
Também nesta época (1892) são entregues definitivamente à Marinha os Faróis e todo o sistema de sinalização da costa portuguesa.
II Revolução Industrial
O último quartel do século XIX é marcado quanto ao Poder Naval pelo arranque da 2ª Revolução Industrial, a qual disponibilizou os aços que permitem um progresso na construção naval e no armamento; os novos e mais potentes explosivos com menos fumo resultado da indústria química; a eletricidade aplicada aos navios que passam a montar geradores; a telegrafia sem fios que altera a operacionalidade dos meios navais; as máquinas de tríplice expansão e as turbinas; as novas armas, como torpedos, canhões de tiro rápido e de grande calibre. É uma revolução que se faz em 20 anos.