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A Banda da Armada e a Expo ‘98


Terminada a EXPO, confesso humildemente que fiquei Expo-dependente. Não a pontos de ter que fazer uma cura de substituição, mas suficientemente dependente para lhe sentir a falta.

Atenuada, é certo, por uma mitigada abertura a curto prazo, mas, de qualquer modo, distinta do que ali se viveu durante os pouco mais de quatro meses da sua existência oficial.

No último domingo em que esteve aberta (27 de Setembro se o meu calendário está correcto) o pretexto foi uma actuação da Banda da Armada, precisamente num dos melhores recintos “open air” do espaço dos Olivais: o Palco do Bojador.
Que melhor casamento que fazer ouvir a nossa Banda num espaço com tal nome, evocativo das epopeias levadas a cabo com cascas de noz sem ar condicionado, nem frigorífico, nem televisão.

 A primeira surpresa tive-a logo que, com a devida antecipação, me dirigi ao local do concerto para, aliviando os pés que já têm a minha idade, arranjar uma cadeira onde descansasse o corpo.

 Uma hora antes estava quase tudo ocupado.
E à medida que o tempo foi passando, as pessoas foram ocupando o espaço sentado e o que à volta permitia ver o que no palco se iria passar.

O concerto começou. De Banda inteira. Sem restrições de pessoal, sobrecarregado como se sabe, de outros concertos nesta época do ano.

 Sonora.
 Vibrante. Com um ar de simpatia que não era só da música. Era de todos os que a tocavam. Sorridentes, sem o ar de frete que, quantas vezes, vemos nos que estão fartos de repetir aquilo que fazem hoje, amanhã e sempre. Para quem conhece o espaço, sabe que este não é passível de recolhimento e silêncio.
 Mas ali, naquele momento, tudo isto existiu.

No passadiço elevado que acompanhava a praça, os músicos de outras andanças, acabados de render pelo turno seguinte, em vez de irem descansar ficaram a ouvir até ao fim o concerto da Banda da Armada.
 Cada número que acabava (e que esplêndida escolha de repertório) era um fervilhar de palmas e de gritos vitoriando a Marinha.

Para quem nela vive, foram momentos de alegria, satisfação e orgulho.
No termo da hora destinada à actuação, houve que contentar aquela mole imensa de gente (tudo o que o local comportava) com mais dois números não previstos. Foi a primeira vez que, na Expo, se viu um espectáculo não acabar à hora previamente marcada.

O abraço que poderia ser de circunstância, depois da função, não o foi.
Foi um abraço de alegria e de agradecimento por se ter ali elevado o nome da Marinha. Para os que ali estavam, assistindo a este momento musical, mais que as outras missões que a Marinha desempenha com sentido patriótico, entrou-lhes na alma as notas de música que os instrumentos verteram no ar e que os fizeram, mais uma vez, gostar da Marinha.

Disse alguém, nem me lembro quem foi e nem isso me interessa, que “a Marinha não gosta de gostar”. Daqui digo que, se isso for verdade, a Marinha tem que gostar de gostar. Tem de acarinhar sempre a sua Banda para que estes momentos não sejam fortuitos e ocasionais.

Salgado Soares
CMG FZ

REVISTA DA ARMADA
Nº315 – DEZEMBRO 1998

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