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Discurso do Almirante CEMA por ocasião da Tomada de posse do Conselho Académico da Academia de Marinha até ao final de 2009 
 
 

Discurso do Almirante CEMA por ocasião da Tomada de posse do Conselho Académico da Academia de Marinha até ao final de 2009

Ex.mo Senhor Vice-almirante VICE-CEMA
Ex.mo Senhor Almirante Vieira Matias e família
Ex.mo Senhor Almirante Vidal Abreu
Ex.mos Membros do Conselho Académico da Academia de Marinha
Ex.mos Senhores Oficiais Generais
Prezados Académicos
Distintos Convidados


É com prazer que presido à tomada de posse do Senhor Almirante Vieira Matias e dos titulares do Conselho Académico da Academia de Marinha, saudando cordialmente todos os presentes.


À primeira vista seria uma cerimónia como muitas outras na Marinha, no sentido em que se entrega a condução do navio a um novo timoneiro. Não é o caso, na medida em que o acto ganha especial solenidade em função da particularidade do momento e das características da "ponte" de um navio tão peculiar como a Academia, onde se juntam as capacidades e personalidades académicas, civis e militares, com uma brilhante inserção nos sectores científicos da nossa sociedade. Personalidades que fazem deste organismo o lugar privilegiado de ensaio e pesquisa da nossa história marítima e das técnicas que estiveram ao seu serviço, sem perder de vista a projecção no futuro das visões e ensinamentos que a história e a experiência nos proporcionam.

Além da face aparentemente dualista da sua composição, este momento reporta-se à posse de alguém muito especial, à frente de um órgão sui generis, porque único e de forte singularidade que lhe advém de uma natureza inigualável no nosso contexto cultural e naval.

De facto, a Academia de Marinha não é apenas mais um elemento da nossa malha orgânica, mas acima de tudo, uma estrutura de profundo significado para a nossa afirmação, pela visibilidade e notoriedade que consegue junto da sociedade civil e pelo valor e incentivo que a actividade que desenvolve e a investigação que difunde, promovem junto daqueles que em cada conjuntura decidem escolher e servir o país na Marinha.

É, igualmente, depositária da memória e dos genes que impregnam a herança recebida dos antecessores pelas gerações de cada época histórica, desde os primórdios em que o país ganhou relevância internacional, através da epopeia que os grandes navegadores protagonizaram. Essa memória e esse legado, mas também o valor da obra desenvolvida na correspondência com a qualificação e o prestígio dos académicos civis que integram a Academia, são traços determinantes do perfil que deve presidir, em qualquer época, à escolha do responsável pelos destinos da instituição.

Sabemos todos que as instituições, em geral, estiolam ou perduram pela capacidade adaptativa e de renovação. A Academia de Marinha, que não se exime a essa biologia institucional, passa hoje por um novo marco da sua existência, numa forçada renovação devida ao desaparecimento do seu anterior presidente, o Senhor Almirante Ferraz Sacchetti.

Compreenderão que a esta ilustre figura dedique umas breves palavras. Da lei da morte se libertou, desaparecendo do nosso convívio, mas a sua figura e obra continuam indelevelmente connosco, porque esse é o rasto que tomamos como referência de dedicação à causa pública e ao saber, num percurso de vida marcado pelos ditames da honra, lealdade e solidariedade. O seu desempenho em prol da actividade e prestígio da Academia de Marinha é sobejamente reconhecido, mas gostaria neste momento de expressar o meu sentimento de respeito e gratidão pela sua conduta irrepreensível, pelo seu labor, inteligência, correcção, bondade e sensatez, creditados a benefício da Marinha. Recordo-o, também, pelo seu sentido do humano, aristocrática afabilidade e serena atitude, que suave e naturalmente evidenciou ao longo de uma vida naval plena e longa, que tive privilégio de testemunhar.

Mas essa mesma vida é feita de partidas e de chegadas, como a da hora presente em que se procede à passagem do testemunho para um novo responsável pela próxima etapa institucional.

Agradeço à Assembleia de Académicos o sinal que deu através do critério com que manifestou a sua vontade e ao Senhor Almirante Vieira Matias pela disponibilidade e aptidão que se dispôs colocar ao serviço da Marinha, como o faz há quase cinco décadas, com renovado vigor intelectual. Que personalidade poderia reunir melhor os atributos e capacidades para o exercício de um cargo que a Marinha tanto valoriza? Desde que deixou o comando da Armada em 2002, tem prestado um inestimável serviço às suas causas mas também aos saberes e à investigação na área das ciências do mar, militares, da defesa e da cultura em geral, sendo de todos conhecida a sua inquebrantável cruzada em favor das potencialidades do mar e do hipercluster económico que ele pode oferecer ao desenvolvimento sustentável e modernidade do país.

Recordo a sua liderança da Marinha ao longo de cinco anos condicionada por dificuldades de desempenho operacional e de severos constrangimentos orçamentais, que a clarividência da sua acção e a indomável vontade de assegurar o futuro da esquadra, conseguiram superar, sem desvio do planeamento estratégico que possibilitou o lançamento dos alicerces e o racional dos novos programas de meios e de reequipamento naval.

Menciono a sua participação na Comissão Estratégica dos Oceanos, onde granjeou o respeito dos seus pares, pontificando na elaboração das propostas de linhas de acção visando o aproveitamento de uma riqueza esquecida e por explorar.

Sublinho as múltiplas intervenções, escritas e públicas, nos meios académicos e nos media, onde apostolou o valor, papel e contribuição do poder naval na acção externa do Estado prosseguindo dessa forma os objectivos e interesses nacionais.

Não esqueço a reputação que logrou nos meios universitários, nomeadamente nos Institutos de Defesa Nacional, de Estudos Superiores Militares e de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, onde vem exercendo actividade docente e de investigação. Sem referência não fica ainda a produção de textos publicados e a colaboração em trabalhos, versando assuntos e questões de ordem estratégica e de defesa.

Poderia ainda indicar outras provas da sua obra e respectivo valor científico, que integram o seu riquíssimo curriculum, mas julgo que nesta altura releva enaltecer o que são algumas das suas aptidões que o dotam especialmente para a condução dos destinos da Academia de Marinha. É conhecida a sua capacidade de organização, ímpeto realizador, perseverança e dinamismo, como não surpreende a sua propensão para gerir as diferentes sensibilidades que sempre povoam qualquer órgão de vocação académica e cultural, bem como para extrair o que de melhor os seus colaboradores têm para dar, numa completa identificação e conhecimento dos factores e variáveis em equação.

Estas são, em suma, as razões da confiança e da enorme expectativa com que vou apreciar e apoiar, senhor Almirante Vieira Matias, a acção da sua presidência e a actividade da Academia de Marinha, que não tenho dúvida, vai continuar a pautar o seu desempenho pela qualidade e interesse a que nos habituou. Também pela responsabilidade e competência dos seus académicos a quem, a Marinha e eu próprio, aqui e agora prestam a justa homenagem, na exacta dimensão da visibilidade e prestígio que por seu intermédio a Marinha acumula e a quem servem, de modo voluntário, sem cuidar de recompensa.

Senhor Almirante Vieira Matias, aceite as minhas felicitações pelo prestigiante cargo em que acaba de ser empossado e fique certo de toda a minha disponibilidade para lhe aliviar o encargo do seu exercício e o meu apoio para as suas iniciativas de abertura da Academia ao mundo exterior da ciência e da cultura, bem como de cooperação institucional com outros centros de estudo e investigação.


À Academia de Marinha e aos seus académicos dirijo uma última palavra que é de incentivo a que prossigam a vossa apreciada colaboração. Ficarei sempre reconhecido pela vossa desinteressada ajuda aos propósitos culturais da Marinha. Por isso e como disse o Almirante Sarmento Rodrigues, na qualidade de comandante do contratorpedeiro Lima: "... a todos saúdo fraternalmente. Aos que usam botões de âncora e àqueles que como nós andam nos nossos queridos navios".


 

 
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