Ex.mo Senhor Vice-almirante VICE-CEMA
Ex.mo Senhor Almirante Vieira Matias e família
Ex.mo Senhor Almirante Vidal Abreu
Ex.mos Membros do Conselho Académico da Academia de Marinha
Ex.mos Senhores Oficiais Generais
Prezados Académicos
Distintos Convidados
É com prazer que presido à tomada de posse do Senhor Almirante Vieira Matias e dos titulares do Conselho Académico da Academia de Marinha, saudando cordialmente todos os presentes.
À primeira vista seria uma cerimónia como muitas outras na Marinha, no sentido em que se entrega a condução do navio a um novo timoneiro. Não é o caso, na medida em que o acto ganha especial solenidade em função da particularidade do momento e das características da "ponte" de um navio tão peculiar como a Academia, onde se juntam as capacidades e personalidades académicas, civis e militares, com uma brilhante inserção nos sectores científicos da nossa sociedade. Personalidades que fazem deste organismo o lugar privilegiado de ensaio e pesquisa da nossa história marítima e das técnicas que estiveram ao seu serviço, sem perder de vista a projecção no futuro das visões e ensinamentos que a história e a experiência nos proporcionam.
Além da face aparentemente dualista da sua composição, este momento reporta-se à posse de alguém muito especial, à frente de um órgão sui generis, porque único e de forte singularidade que lhe advém de uma natureza inigualável no nosso contexto cultural e naval.
De facto, a Academia de Marinha não é apenas mais um elemento da nossa malha orgânica, mas acima de tudo, uma estrutura de profundo significado para a nossa afirmação, pela visibilidade e notoriedade que consegue junto da sociedade civil e pelo valor e incentivo que a actividade que desenvolve e a investigação que difunde, promovem junto daqueles que em cada conjuntura decidem escolher e servir o país na Marinha.
É, igualmente, depositária da memória e dos genes que impregnam a herança recebida dos antecessores pelas gerações de cada época histórica, desde os primórdios em que o país ganhou relevância internacional, através da epopeia que os grandes navegadores protagonizaram. Essa memória e esse legado, mas também o valor da obra desenvolvida na correspondência com a qualificação e o prestígio dos académicos civis que integram a Academia, são traços determinantes do perfil que deve presidir, em qualquer época, à escolha do responsável pelos destinos da instituição.
Sabemos todos que as instituições, em geral, estiolam ou perduram pela capacidade adaptativa e de renovação. A Academia de Marinha, que não se exime a essa biologia institucional, passa hoje por um novo marco da sua existência, numa forçada renovação devida ao desaparecimento do seu anterior presidente, o Senhor Almirante Ferraz Sacchetti.
Compreenderão que a esta ilustre figura dedique umas breves palavras. Da lei da morte se libertou, desaparecendo do nosso convívio, mas a sua figura e obra continuam indelevelmente connosco, porque esse é o rasto que tomamos como referência de dedicação à causa pública e ao saber, num percurso de vida marcado pelos ditames da honra, lealdade e solidariedade. O seu desempenho em prol da actividade e prestígio da Academia de Marinha é sobejamente reconhecido, mas gostaria neste momento de expressar o meu sentimento de respeito e gratidão pela sua conduta irrepreensível, pelo seu labor, inteligência, correcção, bondade e sensatez, creditados a benefício da Marinha. Recordo-o, também, pelo seu sentido do humano, aristocrática afabilidade e serena atitude, que suave e naturalmente evidenciou ao longo de uma vida naval plena e longa, que tive privilégio de testemunhar.
Mas essa mesma vida é feita de partidas e de chegadas, como a da hora presente em que se procede à passagem do testemunho para um novo responsável pela próxima etapa institucional.
Agradeço à Assembleia de Académicos o sinal que deu através do critério com que manifestou a sua vontade e ao Senhor Almirante Vieira Matias pela disponibilidade e aptidão que se dispôs colocar ao serviço da Marinha, como o faz há quase cinco décadas, com renovado vigor intelectual. Que personalidade poderia reunir melhor os atributos e capacidades para o exercício de um cargo que a Marinha tanto valoriza? Desde que deixou o comando da Armada em 2002, tem prestado um inestimável serviço às suas causas mas também aos saberes e à investigação na área das ciências do mar, militares, da defesa e da cultura em geral, sendo de todos conhecida a sua inquebrantável cruzada em favor das potencialidades do mar e do hipercluster económico que ele pode oferecer ao desenvolvimento sustentável e modernidade do país.
Recordo a sua liderança da Marinha ao longo de cinco anos condicionada por dificuldades de desempenho operacional e de severos constrangimentos orçamentais, que a clarividência da sua acção e a indomável vontade de assegurar o futuro da esquadra, conseguiram superar, sem desvio do planeamento estratégico que possibilitou o lançamento dos alicerces e o racional dos novos programas de meios e de reequipamento naval.
Menciono a sua participação na Comissão Estratégica dos Oceanos, onde granjeou o respeito dos seus pares, pontificando na elaboração das propostas de linhas de acção visando o aproveitamento de uma riqueza esquecida e por explorar.
Sublinho as múltiplas intervenções, escritas e públicas, nos meios académicos e nos media, onde apostolou o valor, papel e contribuição do poder naval na acção externa do Estado prosseguindo dessa forma os objectivos e interesses nacionais.
Não esqueço a reputação que logrou nos meios universitários, nomeadamente nos Institutos de Defesa Nacional, de Estudos Superiores Militares e de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, onde vem exercendo actividade docente e de investigação. Sem referência não fica ainda a produção de textos publicados e a colaboração em trabalhos, versando assuntos e questões de ordem estratégica e de defesa.
Poderia ainda indicar outras provas da sua obra e respectivo valor científico, que integram o seu riquíssimo curriculum, mas julgo que nesta altura releva enaltecer o que são algumas das suas aptidões que o dotam especialmente para a condução dos destinos da Academia de Marinha. É conhecida a sua capacidade de organização, ímpeto realizador, perseverança e dinamismo, como não surpreende a sua propensão para gerir as diferentes sensibilidades que sempre povoam qualquer órgão de vocação académica e cultural, bem como para extrair o que de melhor os seus colaboradores têm para dar, numa completa identificação e conhecimento dos factores e variáveis em equação.
Estas são, em suma, as razões da confiança e da enorme expectativa com que vou apreciar e apoiar, senhor Almirante Vieira Matias, a acção da sua presidência e a actividade da Academia de Marinha, que não tenho dúvida, vai continuar a pautar o seu desempenho pela qualidade e interesse a que nos habituou. Também pela responsabilidade e competência dos seus académicos a quem, a Marinha e eu próprio, aqui e agora prestam a justa homenagem, na exacta dimensão da visibilidade e prestígio que por seu intermédio a Marinha acumula e a quem servem, de modo voluntário, sem cuidar de recompensa.
Senhor Almirante Vieira Matias, aceite as minhas felicitações pelo prestigiante cargo em que acaba de ser empossado e fique certo de toda a minha disponibilidade para lhe aliviar o encargo do seu exercício e o meu apoio para as suas iniciativas de abertura da Academia ao mundo exterior da ciência e da cultura, bem como de cooperação institucional com outros centros de estudo e investigação.
À Academia de Marinha e aos seus académicos dirijo uma última palavra que é de incentivo a que prossigam a vossa apreciada colaboração. Ficarei sempre reconhecido pela vossa desinteressada ajuda aos propósitos culturais da Marinha. Por isso e como disse o Almirante Sarmento Rodrigues, na qualidade de comandante do contratorpedeiro Lima: "... a todos saúdo fraternalmente. Aos que usam botões de âncora e àqueles que como nós andam nos nossos queridos navios".