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Discurso do Alm. CEMA por ocasião da entrega do Comando da Escola Naval 
07-02-2008 0:00 
 

Discurso do Alm. CEMA por ocasião da entrega do Comando da Escola Naval

Magnífico Reitor da Universidade Técnica de Lisboa;
Ilustres representantes de Departamentos Governamentais e Universidades;
Senhor Almirante Vice-CEMA, Senhores Almirantes antigos Chefes do Estado Maior da Armada, Senhores Generais e Almirantes;
Distintos convidados;
Senhores Comandantes, Senhores Professores;
Senhores Oficiais, Sargentos, Praças, Militarizados e Civis da Marinha;
Minhas Senhoras e meus Senhores.

Em primeiro lugar, quero agradecer pessoalmente a todos os que quiseram honrar-nos com a sua presença, em especial às entidades externas à Marinha, que fizeram questão de aqui estar hoje, testemunhando este importante acto de gestão a que tenho o gosto de presidir.

A entrega do Comando é uma cerimónia simbólica de passagem de testemunho que, sendo usual, não é por isso menos significativa, e constitui o momento apropriado para fazer o balanço dos objectivos atingidos, ou que as circunstâncias aconselharam a redefinir, e traçar metas para o futuro, de modo a que todos conheçam a rota que pretendemos seguir. É isso que me proponho fazer nos próximos dez minutos, começando por dirigir algumas palavras ao comandante cessante.

Senhor Almirante Saldanha Junceiro,
O despacho de concessão de medalha que acabámos de ouvir é revelador da forma como apreciei o seu desempenho ao leme desta instituição. A esmagadora maioria dos Cadetes em parada, só conheceu a Escola Naval sob o seu comando e, certamente, recordarão a sua capacidade de liderança e espírito de concretização, bem patentes nos resultados escolares obtidos e na obra que deixa feita. Muito obrigado, em nome da Marinha, pela sua dedicação e pelo seu excelente trabalho.

Feita esta menção, que é tanto obrigatória quanto agradável, permitam-me uma breve resenha histórica que faço, porque julgo que é imprescindível recordar o passado para podermos compreender o presente e, sobretudo, preparar o futuro.

A nossa Escola Naval tem as suas raízes no longínquo ano de 1559, com o estabelecimento da "Aula do Cosmógrafo Mor" por Pedro Nunes.

Já nessa altura, aquele ilustre cientista sentiu a necessidade de dotar os oficiais da Marinha com os conhecimentos técnicos e científicos que complementassem o saber das coisas do mar que aprendiam nos navios.

Dois séculos depois, por acção de Martinho de Melo e Castro, o Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, que procedeu, ao longo dos 25 anos em que se manteve na liderança dos destinos da Armada, a uma completa renovação da esquadra e à modernização da organização e das infra-estruturas de apoio, foi fundada a "Academia Real da Marinha", que tinha a seu cargo a formação dos oficiais da Armada e da Marinha Mercante e os Engenheiros do Exército. Esta instituição deu lugar à actual Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; e, logo a seguir, à "Academia Real dos Guardas Marinhas",muito justamente considerada a precursora da Escola Naval dos nossos dias, designação que adoptou desde 1845.

Foi na Academia Real que, pela primeira vez se organizou o ensino, da forma como hoje o conhecemos. Então, como hoje, estava em causa uma formação de base que permitisse aos novos oficiais conduzir os navios no mar em segurança, deixando a arte da guerra para aprendizagem posterior, ao longo da carreira. No essencial, é aquela a nobre missão que também hoje temos que cumprir.

São tradições de séculos que nos obrigam, que nos dão a certeza de estarmos no caminho certo e que não admitem pretensas soluções milagrosas, ainda que bem intencionadas mas estranhas à arte e ofício do mar. 

Senhor almirante Fragoso,
Ao escolhê-lo para desempenhar o cargo de Comandante da Escola Naval, fi-lo por saber que possui os conhecimentos, e as qualidades pessoais e profissionais imprescindíveis para desempenhar as altas funções em que ora fica investido.

Como disse, a Escola Naval tem por missão a formação dos oficiais da Marinha, aqui entendida como incluindo a parte que se justapõe ao ensino ministrado, para formar o cidadão, o militar e o marinheiro. É aqui que reside o cerne da sua actividade específica e insubstituível porque, como sabemos, não é possível incutir os genes de marinheiro por quem não o é! Por quem não conhece o mar, por quem não passou por dificuldades, por porcelas, enfrentou ventos contrários e mares alterosos e, também, apreciou os dias de bonança  aí ganhando, dia a dia,  hora a hora,  o direito de ser respeitado pelos que comanda.     

É por isso que rejeitamos, determinadamente, iniciativas que teimam em repetir o reconhecido erro da formação inicial conjunta, porque, como já se sabe, de nada nos serviria dispor de técnicos qualificados que não olhassem o mar como o seu elemento natural. Mas, também, seria pouco ter marinheiros que, na sua aprendizagem posterior, essa sim de adequado de carácter conjunto, não viessem a ombrear com os melhores nas áreas do conhecimento que são características da profissão militar. É no justo equilíbrio entre estas duas vertentes que poderemos afirmar a Marinha no seio da sociedade cada vez mais competitiva em que vivemos.

Senhor Almirante,
Conto com a sua capacidade esclarecimento e liderança para o conseguir!

Senhores Professores e Instrutores,
O trabalho desenvolvido nesta Escola tem sido profícuo e meritório. A Marinha depende de vós, para garantir o seu futuro, porque são as vossas mãos que moldam aqueles que um dia estarão à frente dos destinos desta grande instituição, a que orgulhosamente pertencemos e cuja história se confunde com a história de Portugal. Agradeço-vos o excelente trabalho e exorto-vos a prosseguir na rota traçada que é também a rota da modernidade que sempre foi nosso apanágio e que deu ao país tantos cidadãos, cientistas, heróis, homens de cultura, políticos e marinheiros de que os portugueses muito justamente se orgulham. Muitos recolheram imediatos louvores e aplausos, outros estiveram sempre à frente do seu tempo, ainda outros, nunca o compreenderam. Todos, mas todos, são dos nossos e assim continuará a ser, porque nossa cultura nunca foi nem nunca será, a da nevoeirenta unanimidade

Senhores Oficiais-Alunos, Cadetes e Alunos da ESTNA,
A Marinha está em profunda transformação. Já no fim deste ano receberemos a fragata "Bartolomeu Dias" e contamos receber, no próximo ano, os Patrulhas Oceânicos "Viana do Castelo" e "Figueira da Foz", e a fragata "D. Francisco de Almeida". No ano seguinte, virão os submarinos "Tridente" e "Arpão". Entretanto, estamos a trabalhar para dar sequência à celebração dos contratos relativos aos restantes Patrulhas Oceânicos, às Lanchas de Fiscalização Costeira e ao Navio Polivalente Logístico, enquanto programamos a actualização das fragatas "Vasco da Gama" e prosseguimos o reequipamento dos Fuzileiros e dos Mergulhadores.

Teremos os meios que o País precisa para fazer o melhor uso do mar que o distingue e em que sempre encontrou soluções para ultrapassar as dificuldades com que ciclicamente se deparou, sempre que lhe voltou as costas .

Mas a Esquadra, por mais sofisticados que sejam os meios que a compõem, dependerá sempre dos homens e mulheres que a guarnecem. Também de vós próprios, os futuros oficiais.

É por isso, que a Marinha espera que sejais os continuadores de tantos ilustres marinheiros que aqui pisaram este mesmo chão, que fizeram o mesmo percurso e que se engrandeceram numa postura de serviço que sempre foi nosso apanágio e que queremos que assim continue para bem da Marinha e de Portugal. O trabalho que aqui for feito, terá eco no vosso futuro, como homens e mulheres e como militares, levando para a vida profissional as perícias, os conhecimentos e as virtudes que sempre caracterizaram os filhos desta casa.

Ireis encontrar uma Esquadra renovada, tecnologicamente avançada, com melhores condições de trabalho e com missões motivadoras. Compete-vos, nesta fase, tirar o melhor partido do que esta Escola vos oferece para que a vossa chegada aos navios (ao campo da honra) constitua a realização do sonho de cada um e uma mais-valia para a Marinha e para o País.

Senhor Almirante Fragoso,
As alterações legislativas em curso irão extinguir a Escola Superior de Tecnologias Navais. Trata-se de um aspecto eminentemente administrativo já que as tarefas que agora lhe incumbem transitarão na íntegra para a Escola Naval.

Incluirão também a necessidade do mestrado integrado para início da carreira dos oficiais dos cursos tradicionais. Paradoxalmente, os futuros Guardas Marinhas, que sempre considerámos como um posto de aprendizagem, serão mestres.

São mudanças que obrigam a rever conceitos e práticas, nem sempre completamente perceptíveis, mas a que teremos que nos adaptar. Tem, portanto, senhor almirante, à sua frente, um período de muito trabalho com a implementação do mestrado integrado ao mesmo tempo que complementa a formação dos oficiais que concluíram a licenciatura de 4 anos. O défice de oficiais subalternos exige que o faça com o menor transtorno para a Esquadra. Será um período de muita exigência para todos, comando, professores e alunos, mas que estou certo será um desafio que todos terão enorme vontade de vencer.

Compete-lhe, também, consolidar a Escola Naval como estabelecimento universitário militar de referência, fortalecer os laços com outras instituições, militares e civis, nacionais e estrangeiras, e aprofundar a ligação à comunidade civil. Ao mesmo tempo, terá que preparar o corpo docente, as infra-estruturas e o apoio pedagógico para as exigências que o mestrado implica e os novos meios impõem.

Que a sabedoria, e também a sorte, o acompanhe nesta  missão. Conte com o meu apoio sempre que dele precisar.
Bons ventos e mar de feição!

Fernando de Melo Gomes
Almirante


 

 
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