Discurso por ocasião da entrega do Comando da Escola Naval
Magnífico Reitor da Universidade Autónoma de Lisboa,
Ilustres Directores do ISCIA e da Faculdade de Ciências e Tecnologia
Senhor Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa
Ilustres representantes de Departamentos Governamentais e Universidades,
Senhor Almirante Vice-CEMA, Senhores Almirantes,
Ilustres entidades aqui presentes,
Familiares dos Srs. Almirantes Macieira Fragoso e Seabra de Melo
Senhores Comandantes, Senhores Professores,
Senhores Oficiais, Sargentos, Praças, Militarizados e Civis da Marinha,
Minhas Senhoras e meus Senhores.
A formação dos futuros oficiais da Marinha e a acção reformista em curso no ensino superior militar e nacional, decorrente do processo de Bolonha, merecem-me, como comandante do Ramo, e por razões de óbvia evidência, especial atenção, pelo que o acto de empossar hoje o novo Comandante da Escola Naval, se reveste de particular importância.
Agradeço a todos os que quiseram honrar-nos com a sua presença, e em especial aos representantes das Instituições e organismos externos que fizeram questão de aqui estar, testemunhando este importante “render da guarda” na Escola Naval, e dando assim uma prova inequívoca da sua solidariedade e reconhecimento para com este secular estabelecimento de ensino.
Senhor Almirante Macieira Fragoso,
Este período foi marcante para o futuro da afirmação da Escola Naval, num momento de grandes mudanças e múltiplos desafios. Com efeito, estiveram em jogo actividades estruturantes que exigiram do senhor almirante uma total dedicação e especial sensibilidade, numa conjuntura complexa e difícil, própria de uma sociedade em acelerada evolução.
O despacho de concessão de medalha que acabámos de ouvir é expressivo na apreciação do desempenho que teve neste exigente cargo. Receba, senhor almirante, o meu muito obrigado em nome da Marinha e em meu nome pessoal.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
A entrega do Comando da Escola Naval é uma cerimónia simbólica de passagem de testemunho, e, como tal, um momento apropriado para se “marcar o ponto”, avaliar as circunstâncias envolventes e traçar os rumos das próximas singraduras em direcção a um futuro onde, mais do que nunca, as organizações competirão por quadros competentes e onde as prioridades estarão centradas na qualificação, na inovação, na eficácia, na tecnologia e no conhecimento.
Desde as suas raízes, que remontam ao ano de 1559 e neste edifício desde 1936, a Escola Naval tem vindo a transmitir a sucessivas gerações de oficiais da Marinha um vastíssimo leque de conhecimentos técnológicos e científicos, mas também uma cultura de serviço em prol do bem comum e da defesa dos interesses nacionais, preparando-os para uma profissão de grande exigência técnica e cívica, na qual se requer uma entrega pessoal que não regateia sacrifícios. A Escola Naval é, assim, uma instituição que, na sua nobre missão de formar os futuros oficiais da Marinha, tem tido a dupla preocupação de, por um lado, pugnar por se manter na crista da onda do progresso científico, praticando um ensino exigente e rigoroso, aberto à inovação e fomentador da investigação, e, por outro, de acompanhar as profundas transformações sociais que se verificam, sem nunca transigir na defesa dos valores que devem enformar o carácter dos militares e dos marinheiros. Foi com esta abertura de espírito que a Escola Naval acolheu o processo Bolonha e foi com esta firme vontade de estar na linha da frente que, apesar das vicissitudes, se adaptou à recente reforma do ensino superior militar universitário. Para tal, é justo reconhecê-lo, muito tem beneficiado das parcerias e convénios que tem vindo a estabelecer com vários estabelecimentos congéneres, nacionais e estrangeiros, civis e militares, numa partilha contínua de saberes e experiências impossíveis de obter de forma singular.
Tenho a plena convicção de que só é possível caminhar na senda de um melhor ensino de nível superior, renegando ilusórios interesses sectoriais em proveito da exaltação do trabalho cooperativo, seja na relação inter-universitária, seja na relação da universidade com o mundo empresarial.
Ao longo dos seus séculos de existência, a Marinha, ontem como hoje, foi, é e quer continuar a ser parceira no desenvolvimento do país. Foi fruto desta atitude que do seio desta Escola saíram eminentes personalidades que marcaram a História do desenvolvimento científico, económico e cultural de Portugal. Se tal nos enche de orgulho como seus legítimos herdeiros, traz-nos também a acrescida responsabilidade pela passagem de testemunho aos portugueses que escolheram abraçar a vida de oficial da Marinha.
Conforta-me a certeza de que estamos no caminho certo, continuando a oferecer aos jovens uma carreira atractiva, estável, cheia de oportunidades e na vanguarda da ciência e da tecnologia, mas, também, e principalmente, uma escola de valores fundada nos princípios da disciplina, da lealdade e da camaradagem fomentadora do sentido do dever e de entrega à causa pública, assumindo com orgulho o lema que a todos honra, “A Pátria Honrae que a Pátria vos contempla”.
Senhor Almirante Seabra de Melo,
Ao indicá-lo para desempenhar o cargo de Comandante da Escola Naval, fi-lo por saber que é um oficial com superiores qualidades e que detém o conhecimento e a experiência necessários para compreender as elevadas expectativas com que a Esquadra anualmente acolhe os Guarda-marinhas e os Sub-tenentes aqui formados. A sua carreira prova quão bem sabe interpretar o que é ser oficial da Marinha, por isso estou seguro de que não lhe será difícil guiar o seu corpo de alunos através dos campos em que frutificam os saberes e em que se cultivam as virtudes militares.
A minha visão para a Escola Naval impõe o seu reconhecimento como um estabelecimento universitário de excelência pela qualidade da sua formação académica, pela inovação da sua produção científica e rigor organizacional, mas também pela integridade de carácter, sentido de serviço e espírito de corpo dos que nela se formam.
Estas são os propósitos da sua nova carta de missão. As tarefas para os alcançar são múltiplas e exigentes, muito especialmente por nos encontrarmos numa conjuntura em que a maior certeza é a mudança, em que o relativismo passou a ditar as suas leis pondo tudo e todos em causa, nem sempre cuidando de avaliar primeiro a solidez das alternativas que constrói.
A revisão do Estatuto do Ensino Superior Público Universitário Militar tem naturais reflexos no modelo de ensino superior militar, exigindo adaptações na Escola Naval que urge continuar a implementar. Tais adaptações contribuirão para uma maior qualificação dos nossos recursos humanos e para que a carreira militar se apresente apelativa no conjunto das opções oferecidas aos jovens, dignificando, reconhecendo e valorizando a nossa profissão.
Porém, a verdadeira especificidade da Escola Naval está na formação de militares e marinheiros. A evolução social dos últimos decénios atribuiu ao indivíduo uma nova centralidade, permitindo que caia sobre o interesse colectivo uma bruma crescentemente densa que faz perder de vista alguns dos valores em que fundamos a nossa condição marinheira.
No mar, a vaga quando bate e o vento quando sopra a todos afecta por igual. O navio, enquanto elemento central da acção da Marinha, é uma unidade colectiva onde o desempenho individual, qualquer que ele seja, é crucial à segurança, ao bem comum e ao cumprimento da missão. Não é em vão que a solidariedade há séculos se afirma como o apanágio dos homens do mar.
Por isso, o permanente contacto com a realidade dos navios, com a nossa especificidade e com a nossa cultura são elementos determinantes para firmar atitudes, aumentar o gosto pelas coisas do mar e melhor preparar os oficiais de amanhã. É um dever desta Escola, que temos de saber preservar.
Senhores Professores e Instrutores,
O mérito do vosso trabalho é sobejamente reconhecido. O sucesso da Escola Naval e da formação dos cadetes depende sobretudo do vosso empenho e da vossa dedicação. Os desafios a que atrás aludi, são também um repto a Vossas Excelências. A coesão institucional e o sentido de pertença, a par da produção académica e do envolvimento na gestão científica e pedagógica da Escola, são factores essenciais a um corpo docente que se orgulha de uma Escola que também é sua. O meu muito obrigado pelo vosso excelente trabalho.
Senhores Cadetes,
Atravessamos tempos em que valores e princípios fundamentais a qualquer sociedade, inquestionáveis durante gerações, são hoje apoucados. Os que escolheram, como vós, de forma generosa e livre esta profissão de serviço ao país, é na lealdade, no carácter, na disciplina, na honra, na coragem, na camaradagem e no espírito de corpo, que têm que construir a matriz que preside ao vosso comportamento.
Ser militar e ser marinheiro é, também, ser uma referência para os nossos concidadãos, é ser um exemplo de dedicação, espírito de sacrifício e de entrega ao serviço da Pátria. Na senda dos vossos antecessores, amanhã sereis lideres, gestores e administradores num mundo difícil e exigente, que requererá de vós afastamentos familiares, a renúncia de confortos e uma total e permanente disponibilidade pessoal, cuja principal compensação é a satisfação do dever cumprido. Não vos escondo que por vezes é duro, mas também estou em posição para, sem hesitação, vos assegurar que vale a pena.
A Marinha tem estado em profunda transformação nos planos doutrinário, organizacional e material.
Estamos preparados e continuamos a apetrechar-nos com os meios mais adequados para fazer face às necessidades do futuro de um país que se revê no seu Mar. Reconhecemos o significativo esforço que tem sido feito para ter uma Marinha capaz de responder às crescentes exigências que se nos colocam. Com efeito, com a esperada extensão da nossa plataforma continental, o espaço marítimo sob soberania e jurisdição nacionais passa a ter uma área que corresponde a cerca de 80% da área de Europa, por onde circula 100% do nosso abastecimento em hidrocarbonetos, 60% do gás natural que consumimos e 70% do nosso comércio externo, mas também onde se fazem sentir as novas ameaças à segurança nacional, desde os tráficos de pessoas, armas e estupefacientes, à exploração ilegal de recursos vivos e inertes.
Avisados são os decisores que, esconjurando uma progressiva miopia marítima, entendem que a modernização em curso da nossa esquadra é um imperativo estratégico nacional. Como tantas vezes refiro, uma Marinha não se improvisa, nem pode ficar à mercê de circunstancialismos espúrios. Nas coisas do mar, não se pode só navegar à vista, há que ser capaz de perscrutar além do horizonte.
Embora alguns programas ainda estejam em curso, ireis encontrar uma Esquadra renovada e tecnologicamente avançada. Compete-vos, agora, nesta casa, tirar o melhor partido de tudo o que vos é oferecido, pois o vosso trabalho será recompensado ao longo da vida futura, seja nos navios, nas unidades de fuzileiros e mergulhadores, ou nos comandos em terra.
A todos vós desejo, uma carreira que satisfaça as vossas expectativas e corresponda à realização dos vossos sonhos. De todos vós espero que saibam dignificar o uniforme do botão de âncora.
Senhor Almirante Seabra de Melo,
Como bem sabe, o futuro da nossa Marinha depende da preparação do nosso recurso mais importante, as pessoas.
Confio na sua capacidade e na de todos os que o apoiam, na certeza de que a Escola Naval continuará a fazer jus ao seu lema “Talant de bien faire”. Conte com o meu inquestionável apoio, não só por ser o meu dever, mas também porque o seu sucesso será igualmente o sucesso do futuro da Marinha que servimos e a que nos orgulhamos de pertencer.
Fernando de Melo Gomes
Almirante