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Discurso do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada por ocasião da entrega do COMANDO DA ESCOLA NAVAL 08 de Outubro de 2004 
08-10-2004 0:00 
 

Discurso do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada por ocasião da entrega do COMANDO DA ESCOLA NAVAL 08 de Outubro de 2004

Senhor Almirante Vice-Chefe do Estado-Maior da Armada
Ex.mos Senhores Oficiais Generais
Magníficos Reitores e demais Entidades Académicas
Senhores convidados
Senhores professores, oficiais, sargentos, praças e civis da Escola Naval e da Escola Superior de Tecnologias Navais
Cadetes
Minhas senhoras e meus senhores

A Escola Naval

A Escola Naval é um estabelecimento militar de ensino superior universitário, que tem por missão a formação dos oficiais da Marinha, mediante a realização de cursos e outras actividades complementares de ensino. Esta definição, consignada em diploma legal, não faz jus à verdadeira dimensão da Escola Naval que todos conhecemos.

De facto, a Escola Naval representa o berço das futuras gerações que comandarão a Marinha nos vários níveis de decisão; Escola que é a ponte entre o passado de que nos orgulhamos e o futuro de modernidade que perseguimos; Escola de mar e de marinheiros; Escola de virtudes, de exemplos e de excelência académica; Escola em que se aprende o sentido da responsabilidade e da disciplina consentida; Escola em que os cadetes mais velhos têm responsabilidades de enquadramento dos mais novos e em que a sua atitude reflecte desde logo o seu carácter, e o que vão ser durante toda a vida; Escola onde se aprende que mar e família são conciliáveis; Escola onde se interioriza a importância do mar para Portugal; Escola onde se doseia a experiência universitária com a vivência técnico-militar; por fim, Escola onde se aprende a servir, sem se servir, no espírito do sempre presente lema da Marinha (nunca entendido como atitude de resignação, mas antes de alma crítica e sentido de missão): A Pátria Honrai que a Pátria vos Contempla.
 
A cerimónia

É neste enquadramento, de peso da história e de ambição de excelência, que decidi nomear o novo comandante da Escola Naval, em antecipação à sua confirmação como contra-almirante.

A necessidade de estabilidade no início de um novo ano lectivo sempre exigente, e as vantagens do seu acompanhamento ser feito, desde o começo, pelo seu mais alto responsável, não me deixaram grande margem para hesitações. A decisão foi, assim, tomada de forma sustentada e, por isso, estou aqui hoje a presidir à entrega de Comando.

O novo Comandante

O Senhor comandante Saldanha Junceiro, que hoje recebe o comando da Escola Naval, é um oficial com qualidades sobejamente reconhecidas para garantir, à frente da casa Mãe da Marinha, uma formação de oficiais cada vez mais motivada, mais marinheira, e mais competente.

A sua experiência nesta Escola, no passado, em outras importantes funções, confere-lhe um conhecimento privilegiado dos caminhos a percorrer na permanente procura do Talent de bien faire.


   
O Comandante cessante

O Senhor vice-almirante Viegas Filipe deixa hoje o comando da Escola Naval, podendo-se dedicar, agora em exclusividade, ao seu também exigente cargo de Director-Geral do Instituto Hidrográfico.

O trabalho notável que desenvolveu à frente desta Escola, quis eu registá-lo no louvor que foi lido nesta cerimónia, e que salienta a sua determinação, capacidade de ajuizamento, e iniciativa empreendedora, responsáveis pelo sucesso, em resultados objectivos, nas actividades da Escola Naval.

Reitero-lhe os votos dos maiores sucessos na nova missão que já assumiu e expresso-lhe o meu agradecimento e o da Marinha pelo que deu a esta nobre causa, a esta grande Casa.
 
A Escola Superior de Tecnologias Navais

Na presente cerimónia, procede-se também, por inerência do cargo, à entrega do comando da Escola Superior de Tecnologias Navais, estabelecimento militar de ensino superior politécnico, que partilha muitas das valências da própria Escola Naval, num entendimento de racionalização, e economia de recursos. A ESTNA, como abreviadamente é designada, desempenha papel fundamental na formação dos oficiais técnicos da Marinha. A formação politécnica aqui ministrada, aproveitando experiências técnicas de carreira, tem sido um garante da constituição de um corpo equilibrado de oficiais capaz de intervir a todos os níveis na manutenção de uma Marinha moderna e tecnologicamente evoluída.

Corpo Docente e Corpo Discente

Dirijo-me agora ao corpo docente e aos alunos da Escola Naval e da Escola Superior de Tecnologias Navais, sustentação e razão de ser destes estabelecimentos de ensino superior da Marinha.
A coexistência das vertentes de ensino superior e de escola de militares e de marinheiros, tem sido delicada de gerir ao longo dos tempos, numa constante procura do correcto equilíbrio entre estas três vertentes. As alternâncias cíclicas que os curricula sofrem, consoante as visões dos vários responsáveis, conjugadas com as envolventes conjunturais externas, têm conduzido a diversas apostas, exigindo de professores e alunos difíceis adaptações e reajustamentos, de bondade sempre inquestionável, mas que raramente chegam a ver o seu termo.

As reformas escolares devem ser duradouras, projectadas no interesse da Marinha, e sabendo integrar-se no sistema de ensino superior nacional. A dupla tutela destas Escolas assim o exige, e é esse o caminho que deve ser prosseguido. Foi neste entendimento que mandei apreciar o modelo de Ensino na Escola Naval, pesando os superiores interesses da Marinha, mas conferindo-lhe flexibilidade para acolher as previsíveis orientações a consignar na Lei de Bases do Sistema Educativo, decorrentes do quadro das Declarações de Bolonha.

A prioridade da formação da Escola Naval é preparar oficiais para servirem a bordo dos navios da Armada. Obviamente, conferindo-lhes o grau de licenciatura que mantenha os aspectos ecléticos da sua formação, mas sem nunca desvirtuar o seu objectivo final. A formação académica superior deve sustentar, no princípio de carreira, essencialmente o seu desempenho operacional.  É importante não desvirtuar este conceito a pretexto de anseios imediatistas, individuais ou de grupos que podem, naturalmente, vir a concretizar-se mais tarde, mas à custa de algum esforço individual adicional.

Ao terminarem o seu curso, os oficiais de Marinha devem ter orgulho na sua licenciatura. A formação ao longo da carreira deve proporcionar a obtenção de mestrados e doutoramentos de interesse para a Marinha. Mas a Escola Naval não deve ter por objectivo primário as equivalências com outras licenciaturas ou a entrada directa em ordens profissionais, principalmente à custa de uma extensão dos cursos, totalmente ao arrepio do que se está a praticar a nível universitário europeu. Será pois com este enquadramento que vamos fazer a preparação dos futuros oficiais de Marinha.

Sei do profissionalismo do corpo docente desta Escola e do seu empenho num ensino de qualidade. Sei da sua constante vontade de renovação e modernização para melhoria das aptidões dos alunos. Sei, assim, da vossa disponibilidade para acolherem esta nova reforma ajudando a minorar as consequências da respectiva transição. Bem hajam, por isso, e pela vossa dedicação.

Ao corpo discente quero apenas reafirmar a minha confiança na vossa conduta e disponibilidade para servir a Marinha. Tenho provas constantes da vossa generosidade, da vossa dádiva e do vosso empenho em aprender e fazer bem. Não partilho das críticas sobre os diferentes comportamentos geracionais, pois os exemplos que tenho recebido dão-me a convicção que os futuros oficiais que tenho à minha frente não desmerecerão os actos grandiosos das anteriores gerações que por aqui também passaram, quer tenham sido dos quadros permanentes ou da Reserva Naval, os quais constituídos em Associação, mantêm uma ligação viva e intensa à Marinha que os marcou e que também os acolhe nesta Escola como sua casa de referência.

Directivas e Orientações

Senhor comandante Saldanha Junceiro. Vai comandar uma instituição bicentenária responsável pela formação dos futuros comandantes da Marinha. Comandantes que têm também que ser gestores e pedagogos, que têm que saber liderar homens e dominar as técnicas da sua especialidade, que têm que saber antecipar o amanhã sem nunca enjeitar o passado. Serão eles a verdadeira aposta no futuro que tanto refiro nas minhas intervenções públicas.
Estou convicto que dispõe dos recursos, meios e instrumentos necessários para atingir esse objectivo. Resta-me, para terminar, enumerar em resumo algumas das orientações que considero fundamentais para que consiga esse desiderato, em observância do estabelecido na Directiva de Política Naval por mim promulgada para o meu mandato.

Deve para isso, o senhor comandante:

. Solidificar o novo modelo de ensino na Escola Naval;
. Acompanhar a evolução que os novos tempos preparam para o sistema universitário português de forma a que o ensino na Escola Naval nele se mantenha permanentemente inserido;
. Acompanhar, também neste quadro, a reformulação em estudo para o Ensino Superior das Forças Armadas, desenvolvendo forte ligação com os outros estabelecimentos militares de ensino superior, sobretudo nacionais, mas também das Marinhas aliadas, de forma a fazer ouvir a visão da Marinha, e das suas especificidades, nas reformas que se avizinham.
. Preparar os alunos para uma formação ao longo da carreira, incentivando os hábitos continuados de estudo que não devem ser perdidos, especialmente durante o seu  início, quando em serviço a bordo das unidades navais;
. Transmitir valores e princípios que dêem corpo às vertentes ética, moral e de cidadania, referências de sempre dos oficiais da Armada, permitindo-lhes assim estabelecer bases sólidas, quer de exemplo público, quer de coesão interna, com todos dos escalões que servem na Marinha.
. Dinamizar a cativação de candidatos para que, cada vez mais se continue a poder  apostar na qualidade dos seleccionados, e incentivar a sua retenção, conduzindo-os a acreditarem no que fazem, e a fazerem-no com entusiasmo;
. Incentivar projectos no domínio da investigação e desenvolvimento, que por sua vez irão contribuir para a valorização e actualização do corpo docente;

Termino, senhor comandante Saldanha Junceiro encorajando-o a perseguir estes desígnios. Conhecendo a sua capacidade e a daqueles que o apoiarão, estou convicto que a nova geração de oficiais irá continuar o prestígio sempre alcançado pela Marinha de que tanto nos orgulhamos, e que é feita por todos nós. Os que já passaram, os que hoje aqui estão, e os que virão a seguir.

 

Francisco António Torres Vidal Abreu
Almirante

 
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