Nº 382

Capa referente ao mês de Janeiro de 2005

JANEIRO-2005

Ficha Técnica

Fotografias antigas, Inéditas ou curiosas

SUMÁRIO

Ponto ao Meio Dia

Exercício ZARCO / LUSÍADA 042

A Marinha de D. Manuel (54) 

Comandante Estácio dos Reis

NRP "D.Carlos I" Capacidade Nacional na Oceanografia

Instituto Superior Naval de Guerra

Escola Naval / Jornadas no Mar 2004

Tomadas de Posse / Entrega de Comando

Lugres do Gelo, Cisnes dos Oceanos

Associação de Sargentos e Praças da Armada da Califórnia

A Marinha nas Comemorações dos 150 Anos do Nascimento de Wenceslau de Moraes

Notícias / Convívio

Ao correr da pena...

Notícias Pessoais

Desporto

Património Cultural

Tabela de Preços das Assinaturas

Lugres do Gelo, Cisnes dos Oceanos

Portugal, que iniciou a pesca do bacalhau no final do século XV, nos bancos da Terra Nova, acabou, fruto de muitas condicionantes políticas, por se ver afastado desta actividade. No entanto, o consumo de bacalhau continuou a ser importante na dieta alimentar nacional. Só mais tarde, no terceiro quartel do século XIX, os navios portugueses regressaram, de forma regular, aos bancos.

Em 1973, quando já todos os outros países detinham navios modernos, e bem equipados, Portugal, fruto da conjuntura político-económica interna, leva a cabo a última campanha com um veleiro.

De uma extensa frota de veleiros bacalhoeiros, que chegou a totalizar mais de 50 navios, navegam hoje apenas três: o Gazela Primeiro, rebaptizado Gazela of Philadelphia, propriedade da Philadelphia Ship Preservation Guild; o Creoula, adquirido pelo Estado Português, na tutela do Ministério da Defesa e operado pela Marinha; e o Argus, agora com o nome Polynesia II, pertencente à Windjammer Barefoot Cruises Ltd.. Curiosamente todos estes navios pertenciam ao mesmo armador, a Parceria Geral de Pescarias, hoje Bensaúde SA.

1. GAZELA  PRIMEIRO

Vários autores defendem que o Gazela Primeiro foi construído em Cacilhas, em 1883. No Museu Marítimo de Ílhavo, após consulta de um dos seus diários, verificámos que, no ano de 1876, sete anos antes, já o navio era propriedade da Bensaúde & Cª.. Em nossa opinião, também alicerçada noutra documentação, a construção do navio terá sido levada a cabo em Inglaterra, alguns anos antes, e a sua aquisição, por parte do armador português, deu-se, possivelmente, aquando do regresso aos bancos dos navios portugueses, em 1866.

Os bacalhoeiros Creoula, Argus e Gazela Primeiro fundeados no rio Coina.

Os bacalhoeiros Creoula, Argus e Gazela Primeiro fundeados no rio Coina.

Os indícios relativos à sua construção em Cacilhas, nos estaleiros de J. A. de Sampaio, não terão passado de uma reconstrução efectuada, aproveitando parte do navio existente, por forma a ultrapassar a proibição de construir navios novos.

Uma vez que a concessão de alvarás para a construção de navios se manteve suspensa, em 1900 terá sido utilizada uma parte da quilha do antigo navio na construção de um novo, nos estaleiros de J. M. Mendes, em Setúbal, de que resultou o navio que ainda hoje navega nos Estados Unidos. A prova de que se construiu um navio novo é a alteração profunda das suas principais características e dimensões. Demasiado pequeno para justificar as campanhas de pesca nos bancos da Terra Nova, devido à sua limitada capacidade de carga, foi substancialmente alterado. Até esta data armava em patacho e tinha o nome Gazela. Após a reconstrução, com mais um mastro, passou a armar em lugre-patacho (1) e o seu nome foi alterado para Gazela Primeiro. Tornando-se o maior navio bacalhoeiro, era conhecido entre os pescadores por «gazelão».

O Gazela Primeiro no início da Guerra ainda com a cor original, mas com o nome e bandeira de Portugal inscritos nos costados.

O Gazela Primeiro no início da Guerra ainda com a cor original, mas com o nome e bandeira de Portugal inscritos nos costados.

Efectuou a primeira campanha de pesca de bacalhau em 1901 e até 1969, ano em que pescou pela última vez, apenas não foi aos bancos nos anos de 1918 e 1959. Em 1904 o capitão Paulo Bagão ficou sem três pescadores, devido ao nevoeiro, e em 1932 foi a vez do capitão Sílvio Ramalheira perder dois homens e os respectivos dóris.

Quando começou a pescar na Gronelândia, em 1934, foi instalado a bordo um gerador eléctrico e motorizado o molinete da amarra. O gerador permitia ao navio dispor de frigorífica para conservação do isco e, consequentemente, estar menos dependente do reabastecimento nos portos do Canadá, ou da sorte dos pescadores que, à noite, terminada a faina de arranjar o bacalhau pescado, tentavam apanhar lula à toneira.

 

Características Até 1900 Depois de 1900
Armação Patacho Lugre-patacho
Arqueação bruta 180 toneladas 325 toneladas
Comprimento 27,2 metros 47,8 metros
Boca 6,7 metros 8,2 metros
Pontal 3,3 metros 5,12 metros
Tripulação - Capitão, imediato, motoristas, cozinheiro e ajudante, 34 pescadores, 5/6 moços de convés

 

Em 1938 a popa do navio foi reforçada para poder receber o primeiro motor, tendo, para isso, sido aplicado um novo cadaste exterior. Desta forma passou a estar menos dependente do vento nas viagens à Terra Nova e, acima de tudo, dispunha de maior capacidade para apoiar os pescadores que se afastavam para pescar, nos seus dóris. Com a vantagem de ter mais facilidade em mudar de pesqueiro e praticar os portos, em maior segurança, com quaisquer condições de vento e maré.

Devido à necessidade de uma reparação geral, o navio não foi aos bancos em 1959. Quando vistoriado em doca seca, pelo engenheiro da Capitania do Porto de Lisboa, o navio foi dado como condenado. Já no estaleiro da Gafanha da Nazaré foram colocados picadeiros no local onde deveria assentar uma nova quilha, não alquebrada. Para que não houvesse danos no tabuado do convés, quando o navio perdesse o alquebramento, da união dos topos das suas tábuas foi retirado o respectivo calafeto. O talabardão e a borda falsa foram também seccionados, em ambos os bordos, em dois locais. Para pôr o navio direito era necessário, segundo o mestre Mónica, «esticar pelo fundo, ou encolher pelo convés». Mas no fundo não se podia mexer. A fim de permitir a difícil reparação, a água da doca foi esgotada, cerca de 50 centímetros por dia. Retirar a sobrequilha implicou levantar os mastros e apoiá-los no convés. Deslocados para ré, os tanques da aguada permitiram aceder à roda de proa e ao coral. A quilha foi então cortada, junto às escarvas da roda de proa e do cadaste. A quilha alquebrada foi finalmente retirada e no seu local colocada uma nova. Com vista a reforçar longitudinalmente a estrutura do navio, foi aplicada uma sobrequilha, em chapa de ferro, com um metro de largura e 10 centímetros de espessura, cujo objectivo era, também, travar as cavernas à nova quilha, de uma forma mais eficaz. O espaço criado, entre a sobrequilha e a quilha do navio, foi dividido internamente por duas anteparas e deu origem a um tanque de água de 12 toneladas. Assim, o navio via também melhorada a sua capacidade de aguada. Toda esta intervenção só foi possível graças à experiência e aos conhecimentos do mestre Manuel Mónica, na arte da construção naval em madeira. Por ironia do destino, o mestre Mónica faleceu na noite seguinte a ter sido colocada a nova quilha, não tendo por isso assistido à conclusão de toda a reparação, por si idealizada.

O Gazela Primeiro navegando à vela.

O Gazela Primeiro navegando à vela.

Em 1969, numa altura em que este tipo de navios já não era economicamente viável, devido ao excesso de pescadores e aos métodos de pesca utilizados, o Gazela Primeiro fez a sua última campanha de pesca. Se nas suas primeiras campanhas era o maior navio, tendo mesmo recebido a alcunha de «gazelão», agora era o navio mais pequeno. E muitos pescadores chamavam-lhe o «gazelinha».

Ficha do Gazela of Philadelphia

Comprimento de fora a fora:

     58,6 metros;

Comprimento à linha de água:

     42,6 metros;

Boca:

       8,9 metros;

Calado:

       5,6 metros;

Altura do mastro:  30,8 metros;
Deslocamento: 636 toneladas;
Área vélica: 1184 m2;
Motor: Caterpillar/540hp
Capitães do "Gazela Primeiro"
Paulo Fernandes Bagão  (1901-1917)
Manuel Simões da Barbeira (1919)
João Pereira Ramalheira (1920-1923)
Aníbal da Graça Ramalheira (1924)
João Pereira Ramalheira Júnior (1925-1926)
Aníbal da Graça Ramalheira  (1927-1929)
Manuel Bóia  (1930-1931)
Sílvio Ramalheira  (1932)
José Gonçalves Vilão (1933-1936)
Francisco da Silva Paião (1937-1940)
 Augusto dos Santos Labrincha (1941-1943)
Armindo Simões Ré  (1944-1948)
João Simões Chuva - o Anjo (1949)
José Teiga Gonçalves Leite (1950-1951)
João Fernandes Matias  (1952-1957)
António Marques da Silva  (1958-1964)
José Luís Nunes de Oliveira (1965-1968)
Aníbal Carlos da Rocha Parracho  (1969)

Às 15h30 do dia 25 de Outubro, quando entrava a barra, o capitão Aníbal Parracho assinou o Diário Náutico pela última vez. O Gazela Primeiro não voltaria a sair do porto de Lisboa, com a bandeira portuguesa içada. Entre 1901 e 1969, o navio efectuou 67 campanhas de pesca de bacalhau e tornou-se uma lenda. Quando parou, era já o mais antigo veleiro em madeira, em todo o mundo, ainda em actividade. Em 1971 foi vendido ao Museu Marítimo de Filadélfia, nos Estados Unidos, que procurava, havia algum tempo, um veleiro histórico. As conversações começaram no início de 1970. No entanto a sua venda para o estrangeiro não foi pacífica, e muitos obstáculos foram colocados para evitar a sua saída.

O Gazela Primeiro atracado em Filadélfia.

O Gazela Primeiro atracado em Filadélfia.

A transacção fez-se por 1.500 contos e as reparações levadas a cabo, sob orientação do capitão Francisco Marques, que permitiram que o navio voltasse a navegar e a cruzar o Atlântico, totalizaram mais 1.000 contos. No dia 22 de Maio de 1971, a bandeira americana foi içada pela primeira vez a bordo do Gazela Primeiro, na presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, representantes do armador e da nova tripulação. Um português encontrava-se entre os novos tripulantes: Manuel da Maia Rocha, que havia sido engenheiro do Gazela Primeiro, nas campanhas de 1955 a 1957, antes de emigrar para os Estados Unidos.

O Gazela Primeiro sendo abalroado pelo Mircea e pelo Christian Radich.

O Gazela Primeiro sendo abalroado pelo Mircea e pelo Christian Radich.

O navio largou de Lisboa no dia 23 de Maio e, na sua viagem até Filadélfia, fez escala em Las Palmas e em San Juan de Porto Rico. Ao fim de 44 dias chegou finalmente ao seu novo destino, tornando-se o famoso cais de Penn’s Landing a sua nova morada.

Depois de uma reparação importante, o navio iniciou, em 1975, a actividade de treino de mar para jovens. Foi então registado com o seu nome actual: Gazela of Philadelphia. Nesse mesmo ano o Museu Marítimo de Filadélfia colocou o navio à disposição dos cadetes da Marinha Americana, através da Lyman Division of the U. S. Naval Sea Cadets.

A sua estreia em eventos internacionais, que não começou da melhor forma, deu-se durante a Op. Sail’76, comemorativa dos 200 anos da independência dos Estados Unidos. Na partida para a regata, entre a Bermuda e Newport, o Gazela of Philadelphia viu-se envolvido num acidente com outros veleiros, tendo sido apanhado numa colisão, protagonizada pelo Mircea e pelo Christian Radich.

Com a finalidade de minimizar o efeito das elevadas despesas de manutenção, no orçamento do museu, foi constituída em 1980 a fundação Philadelphia Ship Preservation Guild, que é hoje o seu armador.

Em 1995 visitou novamente o porto de St. John’s, na Terra Nova, 26 anos depois de aí ter estado durante a sua última campanha de pesca.

 

António Manuel Gonçalves

CTEN

 


Notas

(1)   O patacho é um navio com dois mastros. No mastro de proa (traquete) possui vergas onde enverga pano redondo e no mastro de ré (grande), enverga pano latino. O lugre-patacho tem três mastros, envergando nas vergas do mastro de proa (traquete), pano redondo. Os outros dois mastros (grande e mezena) envergam apenas pano latino.