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Comandante
Sousa Machado |
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O Comandante Raul de Sousa Machado foi agraciado no passado dia 18 de Maio, pelo Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada em nome do Presidente da República, com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada. A cerimónia realizou-se momentos antes da inauguração no Museu de Marinha – Pavilhão das Galeotas da exposição “Artes Plásticas”, integrada nas Comemorações do Dia da Marinha, da qual o Comandante Sousa Machado foi o principal organizador. |
O Com. Sousa Machado com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada. |
O Comandante Sousa Machado (S.M.) é actualmente Capitão-de-Mar-e-Guerra reformado da Marinha Portuguesa, na qual ingressou em Setembro de 1939, tendo conseguido conciliar sempre a sua vida profissional com uma actividade artística para que se sentia naturalmente vocacionado. |
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Nascido em Vila Nova de Paiva, em 1921, vive em Lisboa desde a entrada para a Escola Naval, e naturalmente viajou por cerca de metade do mundo, designadamente, Brasil, Estados Unidos da América, Austrália e toda a África, Índia, Macau, Timor e América Central. O Comandante Sousa Machado possui o curso de especialização em Artilharia, bem como o de Controle Naval de Navegação (NCSO), o Curso Geral Naval de Guerra (CGNG) e o Curso Superior Naval de Guerra (CSNG). Esteve embarcado em longa comissão no NRP “Gonçalves Zarco”, no Extremo-Oriente, no NRP “S. Brás” e exerceu o comando do contra-torpedeiro “Dão” e do patrulha “S. Nicolau”. Em terra exerceu vários cargos, nomeadamente o de Capitão dos Portos de Cabo Verde, de Comandante da Defesa Marítima da Guiné e de Governador do Distrito do Cuando-Cubango, em Angola. |
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O Com. Sousa Machado a ser entrevistado para a Revista da Armada. |
Em 1986 passou à situação de reserva, tendo sido convocado para prestar serviço efectivo em Novembro de 1988, desempenhando funções na Comissão Cultural da Marinha e de Secretário Geral da Academia de Marinha. Passou à situação de reforma em Outubro de 1990. Da sua folha de serviços constam vários louvores e condecorações nacionais e estrangeiras. R.A. – Não se pode falar da Revista da Armada sem nos lembrarmos do Comandante Sousa Machado, assim como ao falarmos de si nos lembramos logo da nossa Revista. Como é que a Revista da Armada soube aproveitar a sua “veia artística” como colaborador? |
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S.M. – Como sabe, eu fui um dos co-fundadores da Revista, creio que exactamente por essa minha “veia”, mas isso foi já amplamente divulgado na edição de Julho de 96 quando se comemorou o 25º aniversário da nossa publicação. Quiseram as circunstâncias que seja agora o único, ainda vivo, que mantem colaboração desde o primeiro número, há cerca de 30 anos. Escrevi nas secções de “Bibliografia”, “Numismática”, “Filatelia”, assuntos do Ultramar – quando havia – e escrevi histórias e episódios navais, tendo ilustrado também muitos outros contos de outros autores. Colaborei na secção “Quarto de Folga” com algumas anedotas navais. Além disso também escrevi e ilustrei alguns manuais escolares, quando professor na Escola de Artilharia Naval, e na Escola Naval, usando aliás da minha facilidade de desenhar para desenho didáctico durante as aulas, inclusivamente nos liceus onde também ensinei ocasionalmente, sobretudo no Ultramar (Cabo Verde e Guiné / 5 anos). Escrevi também para a Editorial Verbo (para a qual fiz várias traduções) dois livros sobre pilotagem de aviões igualmente ilustrados, claro, fruto do curso de P.P.A. que tirei. |
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R.A. – Uma das suas características é a segurança do traço que, designadamente nas diversas ilustrações que executou, o individualizam entre os artistas e o tornam muito conhecido, principalmente no meio naval. Como foi conseguida essa segurança que o identifica tão bem? S.M. – Duma maneira muito simples. Sabe que quando a maçã caiu da árvore e o Newton descobriu a gravidade também lhe fizeram uma pergunta semelhante. Pensando muito nisso, respondeu ele. E eu, ao desenhar, com o tempo, aos cinco anos já desenhava, comecei a fazer tantos e tantos desenhos que fui aperfeiçoando o traço e então a pessoa habitua-se a ver os pormenores dos desenhos que consegue executar e com o decorrer do tempo vai ganhando perfeição. R.A. – Como nasceu em si o gosto pela pintura e que trabalhos importantes executou? |
O ALM. Roque Martins oferece ao Com. Sousa Machado uma lembrança em nome da Revista da Armada |
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S.M. – Como nasceu, não sei. Sempre me senti atraído pela representação gráfica, por exemplo, de temas escolares. Sem outro curso que não fosse o liceal. Em termos de pintura mais avançada, e abstraindo de conversas ocasionais com pintores, como Martins Barata, com quem privei, já na Marinha, e sob cujo convite e orientação pintei, 2 anos seguidos, postais de Boas Festas para os CTT, esses contactos e outros, como Frederico Ayres, por exemplo, em Lourenço Marques, fui sempre autodidacta, devorando muitos livros e praticando ou experimentando continuamente em modalidades como a aguarela, o guacho e acrílico, o óleo, gravura de água-forte, pastel, linóleo, a lápis e à pena, modalidades pelas quais me reparti como ilustrador de revistas, e jornais, quase sempre no campo de assuntos navais. Fui membro da Sociedade Nacional de Belas Artes, onde expus, bem como noutros locais, particularmente no Clube Militar Naval, e nas exposições regulares mais recentes, designadas “Os Militares e a Arte”, que ocorreram por vários anos, patrocinadas pelo EMGFA e levadas a diversas cidades do território nacional. |
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Capas das Revistas da Armada nºs 1 e 2. |
Pintei alguns painéis de azulejos, designadamente um para a POLNATO dos Açores, dois para os edifícios das delegações Marítimas de Mira e Póvoa do Varzim, dois para o refeitório da Escola Naval (perdidos em incêndio há poucos anos). Pintei ainda alguns retratos de navegadores para o antigo Corpo de Marinheiros, o retrato do Marquês de Niza para o Comando da Escola Naval, o retrato de Pêro Escobar para a fragata do mesmo nome, bem como outros retratos para entidades exteriores à Marinha como, por exemplo, o do general Humberto Delgado, filmado para a televisão alemã. |
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R.A. – Pintou mais para a
Marinha ou para fora da Marinha? S.M. – Essencialmente para a Marinha, e temas da Marinha. Aprofundei estudos sobre a evolução do navio no geral, tendo produzido para a Comissão dos Descobrimentos quinze painéis que percorreram as escolas do país numa exposição didáctica e itinerante. Também aprofundei estudos sobre a construção dos navios que fizeram as grandes viagens dos Descobrimentos, e se encontram já reproduzidos em diversos materiais – aguarela, desenho, óleo, acrílico – e mesmo em reproduções litográficas. Quando da oferta da Escola Naval Portuguesa de um painel de azulejos, que deveria ter como motivo o quadro “Adoração dos Magos”, à Escola Naval do Brasil, dei a minha assessoria artística à Cerâmica Constância, que produziu o painel, sendo também eu o autor do cartão, isto é da interpretação do citado quadro e moldura cerâmica ilustrada. R.A. – O Comandante diz de si
próprio ser um “escultor nas horas vagas”. Apesar dessa sua definição
relate-nos alguns dos seus principais trabalhos nesse campo. |
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Cartaz comemorativo. |
S.M. – Esse dito das horas vagas é porque tenho feito todos os meus trabalhos de pintura ou de escultura sem prejuízo do serviço a que a profissão obriga. Neste campo artístico, bem mais diferente, da escultura, fiz diversos trabalhos quase sempre por encomenda, destacando-se a imagem de Santa Bárbara oferecida à Escola de Artilharia Naval, o busto de Henrique Maufroy de Seixas, que se encontra na sala de estar da Casa Seixas, em Cascais, o busto da Rainha D. Amélia para o Edifício dos Socorros a Náufragos, escultura de um medalhão retratando o Tenente-General Bartholomeu da Costa, construtor do Dique do Arsenal, para o pequeno monumento na parada do Edifício da Marinha. No Ultramar executei o busto e concebi o monumento a Honório Barreto para a Praça da sua terra natal (Cacheu) na Guiné; executei um grande painel em relevo (6X3 metros) para o hall de entrada do Museu Marítimo de Macau e ainda outro grande painel para representar as navegações que entravam e saíam do Porto de Macau com destino para todo o Mundo, o qual figura no Museu Histórico de Macau. |
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Mais recentemente executei diversas peças integradas na obra de recuperação da fragata “D. Fernando II e Glória”; o busto do Almirante Pereira Crespo inaugurado em 24 de Fevereiro de 2000 numa rua de Cascais, e também o monumento constituído por uma estátua em bronze dos Condes de Barcelona inaugurado em 12 de Setembro de 2000, aquando da visita oficial dos Reis de Espanha a Portugal. |
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R.A. – Também no campo da
medalhística realizou muitos trabalhos. Quererá realçar de modo particular
alguns deles? S.M. – A Medalhística foi também uma das modalidades para que fui solicitado, e hoje conto com medalhas em inúmeras colecções particulares e oficiais, talvez mais de duas centenas de originais, e na maior parte, naturalmente com motivos marítimos. A Marinha Grega e a Marinha Turca encomendaram-me medalhas das fragatas “Meko”, depois de ter feito as primeiras três para as nossas fragatas da mesma classe. Colaborei regularmente, durante mais de dez anos (e ainda hoje) com a Casa da Moeda, tendo esculpido diversas moedas especialmente relacionadas com os Descobrimentos Marítimos, e dando assessoria na vertente náutica. É de minha autoria a moeda comemorativa da reconstrução da Fragata “D. Fernando II e Glória”, que foi boa fonte de rendimento para as despesas da recuperação do navio. |
Painel de azulejos na POLNATO – Açores. |
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Obtive alguns prémios dos quais destaco uma medalha em concurso para a TAP (Transportadora Aérea Portuguesa), que consistiu de uma viagem à minha escolha. R.A. – Diga-nos onde tem
expostas obras suas e se também se dedicou a outros estudos ligados ao mar. S.M. – Existem obras minhas em alguns museus, designadamente no Museu de Marinha de Lisboa, Museu Marítimo de Macau, Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, Museu Histórico de Macau, messe de Marinha em Cascais, Direcção do Serviço de Socorros a Náufragos, em Paço de Arcos. Descobri um dia, uma medalha minha na colecção do falecido Presidente Kubitchek, em Brasília. |
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Busto de Henrique Maufroy Seixas - Casa Seixas - Cascais. |
Painel em relevo – Hall de entrada do Museu Marítimo de Macau. |
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Moeda comemorativa da reconstrução da Fragata “D. Fernando II e Glória”. |
Ilustrei também, a pedido do então ministro da Marinha, almirante Pereira Crespo, uma edição especial de “Os Lusíadas”. Tenho-me dedicado nos últimos dez ou quinze anos a estudos de arqueologia Naval, particularmente sobre os navios dos Descobrimentos, juntando aqui os conhecimentos da vida do mar, que sempre vivi, com os objectivos dos descobridores, que pude imaginar. R.A. – Se quiséssemos
publicar toda a sua obra o Sr Comandante conseguiria lembrar-se de tudo? S.M. – Lembrar-me de tudo talvez não, mas de grande parte sim. Também a minha pessoa é de “arte pequena”, porque a condecoração agora recebida é mais pela arte numérica do que qualitativa. Tenho consciência de que não sou um artista com A grande, mas um desenhador. Talvez tenha sido merecida só por isso, e não por ser um grande artista. De tudo o que fiz tenho uma ideia completa e talvez conseguisse reunir parte das minhas obras e gostava sim que isso fosse publicado como recordação para a minha família. |
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Ilustrações da Capa e do Canto IX dos Lusíadas da edição do Ministério da Marinha de 1972. |
R.A. – O Sr. Comandante tem consciência da dificuldade que vai haver na passagem do testemunho? S.M. – Ora bem, eu tenho feito uma data de inquirições, quando vejo alguém novo a desenhar, chamo-o sempre, incentivando-o a fazer coisas para a R.A., mas depois todos dizem querer, mas ninguém aparece. R.A. – O Sr Comandante
traz-nos algum desenho que queira deixar na Revista? S.M. – Sim, trouxe um desenho do Cabo Pézinhos, dedicado à Revista, fazendo publicidade à R.A.. |
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Reparaste na
maneira insistente como aquele |
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Anedota publicada no nº 298 da R.A. |
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