A Descoberta da Terra Nova

A gesta dos Descobrimentos Portugueses foi comemorada recentemente, passados que foram quinhentos anos sobre os principais eventos, e é fácil reparar que têm uma vertente predominante no que foi a exploração da costa africana, na busca de uma passagem para a Índia dobrando a África e na descoberta do Brasil. Tudo o que diga respeito a viagens para ocidente, fossem quais fossem os seus objectivos, a sua imagem é apagada pelo feito de Colombo, celebrado a partir de 1992 e tendo como principal cenário a vizinha Espanha e a América.

A Terra Nova no planisfério portugês anónimo (Cantino) - 1502.

De facto, as comemorações históricas são o espelho de uma maneira de sentir e têm a ver com um posicionamento político próprio que, neste caso, dá relevo a determinados feitos em detrimento de outros. No jogo da política internacional é preciso escolher os corredores em que se navega, e a História fornece algumas indicações para essa escolha, permitindo pensar o que é relevante, tem impacte e deve ser exaltado, em detrimento daquilo que é menos exuberante e pode ser até apagado por feitos mais espectaculares levados a cabo por outros. E penso que é este o caso das viagens para ocidente, uma empresa que seria imediatamente abafada pelas viagens de Colombo efectuadas ao serviço dos reis de Espanha. Contudo não é possível imaginar que este povo virado para o Atlântico Ocidental, pode ter levado a cabo uma gesta que começou na segunda década do século XV, e que chegou à Índia sem nunca ter reparado que havia um caminho para oeste a explorar. O pescador, que olha o vermelho do horizonte, não terá sentido a tentação de ir atrás desse Sol?... Sentiu, sem dúvida. E, além disso, as lendas antigas que falam de terras magníficas e ilhas encantadas situadas para essas bandas são suficientemente numerosas para terem excitado a mente dos marinheiros portugueses.

A Terra Nova no planisfério de Pedro Reinel - 1504.

Mas então, porque razão não nos chegaram tão notáveis relatos dessas viagens à procura do que está para lá do infinito onde o Sol se põe?... Deve haver múltiplas razões para isso, e a mais simples delas será, talvez, a de que aquilo que se procurou a ocidente não foi encontrado e a maioria das viagens resultaram numa frustração que não precisava de ser registada. Todavia, o silêncio não é absoluto. De todo o século XV chegaram registos esparsos de viagens em busca das lendárias ilhas de S. Brandão, das Sete Cidades, da Antília e de muitas outras imaginárias, acerca das quais chegou a haver doações escritas, medidas administrativas da Coroa, concessão de honras e outros benefícios, e tudo isto sem que as mesmas alguma vez aparecessem. No entanto estes registos esparsos mostram bem como a ideia não foi, de todo, vazia. Pela certa se procuraram terras na direcção do ocidente e é muito provável que alguém as tenha encontrado antes dos chamados “descobrimentos oficiais”, mas esta hipótese tem suscitado uma abordagem que não me parece a mais correcta no sentido estrito da investigação histórica ou na elaboração do discurso coerente sobre o passado, que deve ser o objectivo do historiador.

Normalmente cometem-se aqui dois erros: um deles é o de se perderem energias inúteis com o simples propósito de chegar a uma prioridade de descobrimento, objectivo que foi muito importante no século XIX, para as reivindicações coloniais, mas que hoje já não pode ser encarado da mesma forma; e o outro é o de não partir de um conceito claro do que é o “descobrimento geográfico”. No primeiro caso, acaba por se seleccionar os documentos de forma errónea e alinhar a argumentação com um critério viciado; ignora-se o contexto dos acontecimentos e acaba por não se perceber o que é que foi feito, como e porquê. E, no segundo caso confunde-se o movimento europeu dos século XV e XVI - e que levou ao conhecimento do Mundo com as dimensões que tem de facto - com qualquer viagem esporádica que pode ter chegado a qualquer lado ou a parte nenhuma, porque foi efectuada à sorte, sem um processo de navegação consistente. Descobrir é levantar o véu que encobre o conhecimento, e pressupõe uma possibilidade de revelar aos outros, com uma explicação dentro das normas da técnica conhecida, como repetir a experiência feita. Dizer que o navio que saiu de Lisboa, de Sevilha ou de Bristol, e alcançou terra num sítio que ninguém sabia dizer onde, pode ter descoberto a América, é apenas a formulação de uma hipótese e hipóteses podemos sempre formular muitas. Pode ter chegado à América, como pode ter chegado a muitos outros lados, mas não podemos dizer que descobriu fosse o que fosse, porque ninguém faz a mais pequena ideia de qual foi o caminho seguido, nem de que terra foi avistada. Está descoberto aquilo para onde se navegou com uma regra própria (nalguns casos pode apenas ter sido um rumo controlado), podendo explicar-se a outros como lá voltar.

Sabe-se hoje com segurança que nos séculos X e XI os vikings chegaram à Groenlândia e à Terra Nova, onde, aliás, existem numerosos vestígios arqueológicos da sua presença. O que não é muito claro é como desapareceram as imensas colónias de descendentes destes aventureiros e como se perdeu este caminho marítimo ocidental. O que parece evidente é que quando chegamos ao século XV apenas restam lendas de viagens para ocidente, cujas ilhas e terras são, por vezes, assimiladas ao paraíso terrestre. Mas é nesta amálgama de imagens fantásticas que nasce o sonho de alcançar “algo” para além do Atlântico e que se forja a ideia de poder chegar às partes da Ásia, navegando para ocidente. Era esse o projecto de Colombo, como sabemos, apesar de que cedo se teve a noção de que as ilhas descobertas não eram Cipango (Japão) ou o Cataio (China). Os portugueses não se mostraram muito atraídos por esta solução de busca do “Oriente” e D. João II jogou definitivamente os seus trunfos na rota do Cabo Bojador que viria a permitir chegar à Índia. Mas não quer dizer que não tenha havido navegadores nacionais a explorar o Atlântico, para lá dos Açores. Acontece, no entanto, que não ficaram registos concretos de por onde andaram exactamente. João Vogado requereu a D. Afonso V, em 1462, os direitos sobre umas ilhas que tinha avistado numa viagem anterior (a que chamou Lobo e Caprária) e que pretendia procurar de novo e povoar. Mas essas ilhas nunca apareceram.

Lopo Homem - Reinéis - 1519. É de notar a toponimia portuguesa que veio até à actualidade.

E muitos mais casos há como este, em que o Rei concedeu direitos de ilhas ou terra firme, sobre a qual ninguém tomou posse porque não estavam “descobertas”. E não foram só os portugueses ou espanhóis a perseguir estes objectivos. Sabemos com segurança que, em 1497, um comerciante italiano, de nome Giovanni Cabotto, conseguiu armar um pequeno navio com 18 homens e viajar na direcção do sol-posto até encontrar terra. Esta viagem é comprovada por documentos coevos, mas segue-se a uma série de outras, com o mesmo sentido, que se diz terem sido efectuadas nos anos oitenta e noventa do mesmo século. É claro que essas não podem ser consideradas, mas vale a pena falar nas de Cabotto. Trata-se de um comerciante nascido em Génova que adquiriu cidadania de Veneza e que pediu ao rei Henrique VII de Inglaterra para ir à procura de uma passagem a ocidente, que o levasse até à Ásia das especiarias e do comércio rico das sedas, porcelanas e jóias, produtos que, nessa altura, chegavam à Europa pelo Médio Oriente e Mediterrâneo. E é importante que se observe esta situação, para que se entenda o que ele pretendia e o que aliciou os mercadores de Bristol (porto donde partiu) ou o rei de Inglaterra. Os ingleses, naquela altura faziam viagens anuais para a Islândia, onde se dedicavam à pesca do bacalhau, que secavam a bordo, por isso tinham um conhecimento razoável daqueles mares gelados. Saberiam como ir e como voltar, tinham a noção dos principais perigos, da época das tormentas e dos abrigos possíveis. Só não sabiam nada de mercadorias orientais, mas isso era o conhecimento dos venezianos que as compravam em Alexandria e as distribuíam pela Europa. Juntaram-se, pois, dois saberes complementares que tornaram possíveis as viagens de Cabotto.

Planisfério Português anónimo - 1560.

Deve ter apresentado o seu projecto em Inglaterra em finais de 1495 ou princípios de 96, porque em Janeiro deste último ano, o embaixador espanhol em Londres escrevia aos Reis Católicos, dando-lhes conta de que havia um italiano que pretendia convencer o rei Henrique VII a apoiar uma viagem com o mesmo objectivo das que tinham sido efectuadas por Colombo às “Índias”. Em Março é concedido alvará pelo soberano inglês e, datados do ano seguinte, surgem três documentos que falam da expedição de Cabotto. São elas a carta de Lorenzo Pasqualigo para seus irmãos em Veneza, um pequeno despacho, não identificado, para o Duque de Milão e uma carta com este mesmo destinatário, enviada por Raimondo Soncino, seu embaixador em Inglaterra.

Do conjunto das três é possível deduzir que a viagem demorou três meses, passou pelo sul da Irlanda e seguiu para norte e depois para ocidente (“deixando a estrela polar à sua direita”), procurando alcançar “as partes de leste”, ou seja, as partes da Ásia. O último documento diz ainda que “se apanhou tanto peixe que este reino (Inglaterra) nunca mais vai precisar da Islândia, onde se faz um comércio de peixe a que chamam stoc-fish (bacalhau)” – e mais à frente – “Mas Messer Zoane (Giovanni Cabotto) tem em mente algo mais importante, porque pretende ir ao longo da costa, a partir do lugar em que chegou, cada vez mais para leste (partes de leste ou Ásia), até alcançar uma ilha a que chama Cipango, situada na região equinocial, de onde ele acredita que provêm todas as especiarias do mundo, tal como as jóias (...)”. E é aqui que bate o ponto: Cabotto andava à procura de uma passagem para o “Oriente” e não a encontrou, portanto a sua expedição de 1497 apenas foi uma esperança do que poderia vir a ser feito no futuro, na busca do comércio rico. Quando chegou a Inglaterra, o seu objectivo foi encorajar o rei a continuar a apoiá-lo, deixando-o residir em Bristol, dando-lhe uma pensão para a família viver e financiando o armamento de navios. No final deste ano de 1497 ou princípios de 1498, um tal John Day escreve a um “Grande Almirante” de Castela (será Colombo?) relatando-lhe alguns pormenores da viagem efectuada e fornecendo-lhe um esboço das terras descobertas a ocidente (a que chama de Ilha das Sete Cidades, à semelhança da velha lenda). Infelizmente esse esboço nunca foi encontrado e não existem dados suficientemente credíveis que permitam localizar com exactidão o local de desembarque. Por isso se tem especulado tanto sobre esse assunto, reivindicando-se para esta viagem a primazia da descoberta da Terra Nova, do Labrador, da Nova Escócia, do Maine e, talvez, de mais sítios, conforme o sentido que se pretendeu dar a certos festejos políticos. Contudo, diz-nos o rigor da investigação histórica que Cabotto alcançou terra num local até hoje desconhecido, sendo absurdo considerá-lo o descobridor de qualquer uma destas terras.

No ano seguinte, saiu com cinco navios e, os que regressaram a Bristol informaram que tinha decidido continuar naqueles mares à procura do tal “Oriente” que se propusera encontrar. Não mais houve notícias dele, e não é difícil supor que deve ter sido traído pelas condições meteorológicas daquela parte do Atlântico, como viria a acontecer a tantos outros, no futuro.

De entre todos os registos de viagens efectuadas por portugueses ao noroeste do Atlântico, deve realçar-se o de João Fernandes Lavrador. Jaime Cortesão defendeu que era a ele que se devia a descoberta da costa do Canadá com o nome de Labrador e coloca as suas viagens no tempo de D. João II – o que tem sido seguido por outros historiadores – mas a busca da verdade impõe que se diga que a autorização para “descobrir ilhas e terra firme” (nos termos que foram vulgares naquela época), data de 28 de Outubro de 1499 e é concedida por D Manuel. Aliás, em 1501, obtém do rei de Inglaterra um alvará com direitos de exploração de terras descobertas, sabendo-se por um outro documento de 1506 (escrito por Pêro de Barcelos) que andou por três anos à descoberta de terras (a norte), facto que é confirmado numa carta de privilégios de 1508. Não temos nenhuma descrição concreta das suas viagens (que podem ter sido três), mas o seu nome aparece ligado à tal costa do actual Canadá desde o princípio do século XVI.

A Terra Nova segundo Luís Teixeira - 1600.

Contudo, as mais notáveis viagens feitas até aos mares gelados do Atlântico Noroeste, no final do século XV e princípio do XVI, foram as dos irmãos Corte Real. Esta família esteve ligada à capitania de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, com interesses no Algarve (alcaidaria de Tavira) e no Norte de África, manifestando uma particular actividade ligada ao mar e ao comércio ultramarino. Alguns historiadores modernos chegaram a aventar a hipótese de que um dos primeiros exploradores da Terra Nova, tenha sido João Vaz Corte Real - pai dos que, de facto, o fizeram em 1500, 1501 e 1502 – mas trata-se de uma hipótese sem qualquer fundamento, resultante de um equívoco de Gaspar Frutuoso, escritor açoriano de meados do século XVI. Mas, em 12 de Maio de 1500, D. Manuel passava uma carta de doação a Gaspar Corte Real (filho mais novo de João Vaz), com direitos de juro e herdade sobre ilhas e terra firme que viesse a descobrir. Essa carta refere que no passado, já o mesmo navegador tinha andado “à sua custa, com navios e homens”, na procura de terras, com grande “trabalho e despesa de sua fazenda e perigo de sua pessoa”. Mas isto era o texto normal das doações de terras ocidentais que nada queriam dizer da sua existência real. Entretanto, em Outubro de 1501, dois italianos que estavam em Lisboa como embaixadores, respectivamente, do Duque de Ferrara e da República de Veneza, escrevem cartas aos seus senhores com informações acerca das viagens de Gaspar Corte Real. Eram eles Alberto Cantino – aquele que viria a comprar o célebre planisfério português de 1502, existente em Modena – e Pietro Pasqualiguo. Talvez nenhum deles tivesse uma informação perfeita sobre as viagens que descrevem, mas fornecem algumas informações que importa aproveitar. São, pelos menos, unânimes em que os navios tinham encontrado um mar pejado de icebergues e que, no caminho do norte a superfície estava gelada e não permitiu continuar. Navegando depois a noroeste, e dando a volta para leste, encontrou terra com muitas árvores altas, próprias para construir mastros de navios. Pasqualigo diz mesmo que se devia tratar de terra firme e que essa era a segunda de duas viagens, uma efectuada em 1500 e outra em 1501, facto que vem em consonância com a data da patente de D. Manuel. Entretanto, nessa segunda viagem, Gaspar Corte Real mandou regressar dois dos navios que foram com ele e ficou por lá para continuar os seus reconhecimentos, mas nunca mais ninguém soube, fosse o que fosse, dele. No ano seguinte (1502), seu irmão Miguel pediu ao rei que lhe concedesse os direitos concedidos a Gaspar, e partiu à sua procura. Também não regressou, mas regressaram os seus companheiros, informando de como tinham percorrido a costa e como tudo se processara. Aquele mar engolira mais dois navios, como viria a engolir muitos mais, até ao século XX. Pelas descrições que são feitas pelos italianos (e são coerentes) após a saída de Lisboa, foram até ao Labrador ou estreito de Davis, encontrando primeiro os icebergues e depois o mar gelado. Só regressando para o sul e depois para leste, podem alcançar terra e percorrê-la na direcção da Terra Nova que deve ter avistado logo em 1500, para ser reconhecida com mais pormenor em 1501 (sobre que se cumprem agora quinhentos anos). Mas há um pormenor que importa salientar: em nenhuma circunstância se fala na busca de qualquer passagem para a Ásia ou para o Oriente. Aliás, deve reparar-se que em 1500, quando da partida (fosse a primeira ou não) de Gaspar, já Vasco da Gama tinha regressado da Índia e Cabral já tinha partido para a segunda viagem à Índia, sendo completamente clara a estratégia portuguesa de alcançar as especiarias. Além disso, o Tratado de Tordesilhas impedia completamente que se pensasse em caminhar em direcção ao ocidente, porque essa tinha sido a opção espanhola. Por isso não faz qualquer sentido que se imagine Corte Real a perseguir o mesmo objectivo de Colombo ou de Cabotto. Gaspar Corte Real queria jurisdição sobre terras a descobrir, para as explorar de qualquer forma e há sinais posteriores que nos levam a supor o que queria ele explorar.

Mas o mais notável complemento destas viagens é o planisfério português de 1502, que já aqui referimos a propósito do embaixador Alberto Cantino. Efectivamente foi ele que o comprou em Lisboa, em circunstâncias que não é possível saber, mas conhecemos um bilhete endereçado ao seu senhor, datado de Novembro de 1502, onde lhe dá conta que o mapa vai a caminho e que é magnífico. Deve ter sido copiado de um padrão português onde se registavam todas as informações geográficas que vinham chegando a Lisboa. E, deve salientar-se que, algumas deles devem ter sido bem recentes, pois são posteriores à chegada de João da Nova, em Setembro de 1502 (como é o caso da ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul). Neste planisfério, lá está colocada – aí, efectivamente, pela primeira vez – a Terra Nova, curiosamente puxada para leste para que possa ficar dentro do hemisfério português pós Tordesilhas.

Por sobre esta representação está um listel com os seguintes dizeres: “Esta terra he descober per mandado do muy alto exçelentissimo príncipe Rey don manuell Rey de portuguall a qual descobrio Gaspar corte Real cavalleiro da casa do dito rey, o quall quãdo descobrio mandou hÙ naujo com çertos omes e molheres que achou na dita terra e elle ficou com outro naujo e nunca mais veo e crese que he perdido e aqui ha muitos mastos”. Não podem restar dúvidas de que estava, de facto, descoberta a Terra Nova. Poderão dizer que já alguém lá tinha chegado?... Pois poderão. Muita gente lá pode ter chegado antes. Portugueses, ingleses, espanhóis, dinamarqueses ou, até outros. Mas o mais antigo documento que o prova sem dúvidas é este mapa.

Procurando tirar uma conclusão acerca de todas as viagens efectuadas àquela região acho que o mais importante é perceber o contexto global em que se inserem: Cabotto pela certa que encontrou terra, mas andava à procura de uma passagem; Os Corte Reais queriam achar terra e queriam tomar conta dele, para aí explorar uma riqueza que já tinha sido vista por outros, mas que não despertara grandes interesses. Refiro-me à pesca do bacalhau que se transformou numa indústria e que teve uma importância fulcral durante o século XVI português. Depois do desaparecimento de Miguel Corte Real, o seu irmão mais velho, Vasqueanes pediu, também, ao rei para ir procurar os irmãos. Desta vez, D. Manuel não autorizou e chamou a si essa tarefa que não teve resultados. Mas em 1504 já tinha lá navios à pesca e em 1506 reivindicou para si, o dízimo do pescado da Terra Nova. No reinado de D. Sebastião foi estabelecida aí uma capitania própria e em 1574 o cargo de capitão viria a ser entregue ao herdeiro dos Corte Reais. O bacalhau que os ingleses pescavam na Islândia era seco ao vento gelado daquelas paragens e trazido para terra onde era comercializado. De facto, era um produto com enorme importância porque as regras do cristianismo impu-nham a abstinência durante quase 150 dias por ano e quem não vivia perto da costa tinha sérios problemas para se abastecer de pescado. Restava-lhe o recurso do peixe salgado ou seco e o bacalhau tinha grande vantagem porque se conservava melhor que o arenque ou o atum e era muito mais saboroso. Mas a melhor forma de o conservar era salgando-o primeiro e aí os portugueses levavam grande vantagem por causa da qualidade e abundância do seu sal. De forma que as bases da indústria estavam lançadas, desde o momento em que a região estava localizada e que se conheciam as condições daquele mar. Um roteiro português escrito no final do século XVII (publicado em 1709) por Manuel Pimentel, fala como em tempos saíam dos portos de Aveiro, de Viana e outros, “mais de 100 caravelas” para pescar bacalhau. Esta actividade quase desapareceu com o reordenamento do poder naval no Atlântico ocorrido no final do século, mas parece ter sido a principal motivação das viagens do princípio desse século. Não é de admirar que assim seja, porque sabemos como a disputa por este peixe, foi razão de guerras entre franceses e ingleses e como esteve ligado à própria revolta dos colonos que culminou na independência dos Estados Unidos da América.

J. Semedo de Matos
CFR FZ

“Esta terra he descober per mandado do muy alto exçelentissimo príncipe Rey don manuell Rey de portuguall a qual descobrio Gaspar corte Real cavalleiro da casa do dito rey, o quall quãdo descobrio mandou hÙ naujo com çertos omes e molheres que achou na dita terra e elle ficou com outro naujo e nunca mais veo e crese que he perdido e aqui ha muitos mastos”.