A viagem ao Canadá |
Projecto Creoula - "De novo na Terra Nova" |
O projecto de levar o "Creoula" de novo aos mares canadianos nasceu originalmente de uma ideia da Sr.ª Embaixadora do Canadá em Portugal, a Sr.ª Patricia Dole cuja terra natal é precisamente a Terra Nova. |
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Capitão Francisco Marques |
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A Sr.ª Embaixadora, como ela própria contou a bordo do "Creoula", costumava ver na sua meninice os veleiros portugueses da pesca do bacalhau à linha atracados em St. Jonhs. Então porque não aproveitar o último representante da famosa "Frota Branca" (como eram então conhecidos na Terra Nova estes veleiros portugueses) actualmente ainda a navegar em Portugal, como pano de fundo para um estreitamento das relações entre Portugal e o Canadá? Encontrar as instituições e as pessoas certas que pudessem levar em frente e concretizar este projecto foi o passo seguinte da Sr.ª Embaixadora. Efectivamente, após se congregarem essas intenções formaram-se então duas Comissões Executivas, uma Portuguesa (Amigos do Museu de Ílhavo; Câmara Municipal de Ílhavo; Universidade de Aveiro) outra Canadiana (Department of Tourism, Culture and Recreation; Heritage Fondation of New Foundland and Lavrador; Canadian National Defense; Marine Institute; Consul General for Portugal - Toronto; Core Consulting, Inc.). Cada uma das Comissões teve a seu cargo a execução prática do projecto no respectivo País: arranjar patrocínios, seleccionar os instruendos, organizar as estadias do navio, entre muitos outros aspectos práticos. Os instruendos canadianos foram seleccionados entre os jovens da Terra Nova e Lavrador e quatro deles, dentre os filhos de emigrantes portugueses em Toronto. Os instruendos portugueses foram seleccionados em terras de gente da pesca, entre os jovens com parentes ligadas à pesca do bacalhau à linha (Viana do Castelo, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Figueira da Foz e especialmente Ílhavo e Aveiro). Os instruendos seriam divididos em duas bordadas, uma para a ida e outra para o regresso, metade portugueses e metade canadianos em cada bordada. Para Director de Treino foi escolhido o Sr. Capitão Francisco Marques : efectivamente quem melhor que o velho "lobo do Mar", último Capitão do "Creoula" enquanto bacalhoeiro, para acompanhar os jovens instruendos e candidatos a navegadores no regresso do lugre às águas da Terra Nova, 25 anos volvidos desde a última campanha do navio comandada por ele próprio?! A viagem começou para o navio a 5 de Agosto, largando da Base Naval com destino a Aveiro transportando já os instruendos canadianos que iriam fazer a viagem de ida. A chegada foi no dia seguinte tendo o navio sido alvo de uma calorosa recepção logo a partir da entrada da barra, com várias embarcações a acompanharem o navio até ao cais dos bacalhoeiros. No molhe ao lado encontrava-se atracado o navio gémeo do "Creoula", o "St.ª Maria Manuela", aguardando pacientemente a chegada do seu navio irmão e que o coloquem novamente a navegar... No cais já se encontravam os futuros instruendos portugueses e o Director de Treino saudando efusivamente a chegada do navio e dos instruendos canadianos.Após três dias de estadia em Aveiro com várias cerimónias e festividades chegou o dia da partida. Um mundo de gente acorreu ao cais dos bacalhoeiros para dizer adeus ao "Creoula", aos seus jovens que embarcavam e para cumprimentar o Sr. Presidente da República, que se deslocou propositadamente a Ílhavo para também ele se despedir dos jovens que embarcavam nesta aventura. O navio largou e dezenas de embarcações de todos os tipos acompanharam-no até à saída da barra (é caso para dizer que tudo o que flutuava andava na Ria) e algumas mesmo até bastante fora. Nas margens havia gente até à ponta dos molhes acenando ruidosamente à passagem do navio. Com um vento bonançoso de Norte o velho lugre seguiu a todo o pano rumo a Ponta Delgada, primeira escala desta viagem. Na viagem todos os instruendos se adaptaram bem ao navio, registando-se muito poucos enjoos. Com bom tempo e vento favorável o "Creoula" acabou por chegar à ilha de S. Miguel com quase um dia de antecedência. Após quatro dias de viagem aproveitou-se o ensejo para fundear junto ao ilhéu de Vila Franca do Campo, desfrutar de um bom banho de mar e da paisagem magnífica em que o próprio navio se inseria como se dela fizesse parte. Suspendeu-se no outro dia de madrugada e antes das 11 horas da manhã atracou-se em Ponta Delgada. Portugueses e canadianos, todos sem excepção, ficaram maravilhados com as belezas naturais e gastronómicas (o cozido nas furnas foi largamente apreciado) da maior ilha açoreana e foi com vontade de regressarem para umas férias mais prolongadas que se despediram de S. Miguel após dois dias de estadia. Um dia de navegação, passagem nocturna pelo canal entre o Pico e S. Jorge e a 17 de Agosto atracou-se na Horta. Aqui a grande ansiedade dos instruendos era ir beber um gin tónico no conhecido Peters. A recepção da parte da Câmara Municipal foi bastante calorosa tendo esta oferecido um jantar aos instruendos e guarnição, animado por um grupo folclórico da ilha. O tempo estava bom e convidava à praia e aos passeios, foi mais uma vez com rapidez que os dois dias na Horta passaram. |
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| Ia-se iniciar agora a maior tirada da viagem, 10 dias de mar entre a Horta e St. Johns, a qual parecia assustar alguns dos instruendos. Acabaram por se fazer apenas 8 dias de navegação pois o navio fundeou dia 26 de Agosto na pequena baia a Sul de St. Johns, chamada Freshwater Bay.Durante estes 8 dias no mar, para além dos serviços já rotineiros realizados por instruendos e guarnição, desenvolveram-se mais algumas actividades que, | |
| "Creoula" atracado em St.John's. | para além de interessantes, |
iam mantendo toda a gente activamente ocupada. Foram feitas palestras sobre Astronomia Náutica e sobre Navegação Astronómica as quais foram seguidas atentamente, quer pelos instruendos portugueses, quer pelos canadianos e até por alguns elementos da guarnição. Outra actividade que absorveu bastante os instruendos e principalmente o "Primo Chico" ( assim como "Tio" e "Avô" este foi um dos tratamentos carinhosos ao Capitão Francisco Marques que se começou a generalizar entre os instruendos, e não só ) foi a tentativa de recriar as principais actividades que antigamente decorriam a bordo de um navio da pesca do bacalhau à linha, para filmagens da RTP Açores. A distribuição do material aos pescadores, o sorteio dos dóris (pequenos botes em que se fazia a pesca), o armar dos dóris, as relações entre os diferentes elementos do navio, foram situações recriadas pelos instruendos, com o auxílio e também participação do Capitão Francisco Marques que assumia, como é claro, o papel ( ? ) de Capitão. A meio da navegação uma baixa mais cavada provocou alguns enjoos e fez com que se ouvissem algumas queixas sobre o tempo. Se se soubesse o que ainda estava para vir... Na chegada à plataforma continental cumpriu-se mais uma vez o ritual de se sondar a "beirada", como era conhecido o declive acentuado que marca o início daquela. Na sonda vê-se a profundidade variar dos quatrocentos para os cinquenta, quarenta metros, em poucos minutos. Na época da pesca do bacalhau à linha esta era uma linha de posição importante que permitia actualizar a estima e calcular com algum rigor a distância a terra. Com o navio fundeado já bem próximo do nosso destino aproveitou-se para se terminarem as filmagens. Uma das cenas que faltava foi então recriada: arriou-se um dóri com um "pescador" dentro (um dos oficiais do navio vestido de rabana, botas e sueste, trazidos pelo Capitão Francisco Marques) e de novo se navegou nele a remos e à vela nas frias águas da Terra Nova. Só faltou o bacalhau ... |
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A estadia em St. Johns decorreu sob tempo frio que parece ter chegado ao mesmo tempo que o navio. Desde a chegada até à partida os instruendos andaram ocupados no processo de rendição e em inúmeras outras actividades planeadas pela organização |
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canadiana. |
"Creoula" atracado em St.John's. |
O regresso do velho lugre despertou as atenções do povo de St. Johns que acorreu em massa ao porto para visitar o último representante da "White Fleet" ainda a navegar. O espectro do furacão "Danielle" , que fazia das suas bastante mais a Sul, pairava no ar. As previsões meteorológicas indicavam que aquele passaria sobre St. Johns três dias após a nossa partida. Sorte a nossa, que já estaríamos a mais de 400 milhas de distância por essa altura ! A partida fez-se sob um Sol auspicioso e no navio, após a faina, cada um regressou às suas actividades do dia a dia de navegação, apenas com a diferença de termos instruendos novos a bordo. Fainas gerais de mastros, exercícios de abandono, de homem ao mar, entre outras actividades, sucediam-se enquanto o navio seguia rumo à ilha das Flores. No entanto as previsões meteorológicas recebidas a bordo começaram a trazer algumas alterações relativamente ao comportamento do furacão. Este começou a deslocar-se mais para NE prevendo-se que passasse ligeiramente ao largo de St. Johns logo mais perto do navio do que o inicialmente previsto. Cada nova previsão que chegava, cada vez mais o furacão tomava um percurso que o aproximava do navio. Dia 3 de Setembro pela manhã, dois dias após a largada, o "Danielle" deslocava-se para ENE e direitinho ao "Creoula", a uma velocidade de cerca de 30 nós. Era evidente que o navio teria que tentar fugir de modo a evitar pelo menos que o olho do furacão lhe passasse por cima. Fez-se o cinemático de fuga e rumou-se a Sul. Pelas 22:00 o vento começou a aumentar bastante de SSW e em breve o navio fazia entre 1 e 2 nós de velocidade com máquina avante toda a força, e com grande esforço desta, que ora parecia querer desarvorar, quando o navio ficava com o hélice quase todo fora de água, ora soluçava como se fosse parar, quando a popa mergulhava profundamente e o navio não progredia face à vaga e ao vento. O vento entretanto foi rondando no sentido dos ponteiros do relógio e sempre aumentando de força, até que pelas 5 horas da manhã quando a máquina parou devido aos efeitos do mar e do vento, este já soprava de WSW e com rajadas de mais de 60 nós. Nessa altura guinou-se rapidamente e meteu-se o navio a correr com o tempo, visto ter-se revelado insustentável mantê-lo de capa. Num instante o navio encontrava-se a fazer velocidades entre os 12 e os 13 nós sem um único pano içado, enquanto o mar e o vento não paravam de crescer. Algumas horas depois as rajadas de vento atingiam os 100 nós e as montanhas de água que se elevavam à popa e que pareciam querer submergir o navio a todo o momento tinham seguramente mais de 14 metros de altura. A surriada era de tal ordem que tornava a visibilidade muito reduzida e dava a sensação de se estar perante uma chuva que caía na horizontal vinda de qualquer outro sítio que não do céu. No exterior apenas se encontravam dois marinheiros do leme presos com um arnês à retranca da mezena e algumas vezes o oficial de quarto, todo o restante pessoal e especialmente os instruendos tinham ordens para permanecerem nos interiores e manterem todas as escotilhas para o exterior criteriosamente fechadas. Foi nesta altura que a tempestade atingiu a sua fase de maior violência provocando vários e graves danos no navio. Uma quantidade infindável de vagas abatiam-se sobre a popa do navio com violência, de modo que arrancaram pela base a bitácula da agulha magnética e a repetidora da girobússola utilizadas no governo, assim como o estrado sobre o qual se faz leme. Os marinheiros do leme ensaiaram então governar pelo "display" do radar mantendo a escotilha da casa de navegação aberta. A quantidade de água embarcada era muito superior ao débito pelas portas de mar o que fazia com que o convés estivesse sempre coberto por vários palmos de água. O estrado, a bitácula e a repetidora da girobússola deslizavam nesta água ao sabor dos balanços como autênticos torpedos que danificavam tudo em que embatiam. Com o balanço que se verificava e com as vagas a entrar em catadupa pela popa era impensável tentar pear este material, dado o risco de se ir borda fora, de modo que acabou por partir vários vidros do albói da câmara de oficiais. Nesta e nos alojamentos dos oficiais verificava-se uma verdadeira inundação, entrava água pelo albói partido, pela ventilação e extracção de ar, e mesmo pela escotilha da casa de navegação que tinha que se manter aberta para que os marinheiros do leme pudessem governar. Com algum esforço e risco alguns marinheiros conseguiram recolher o material que se encontrava espalhado pelo convés e pregar precariamente algumas tábuas sobre os vidros partidos do albói enquanto o restante pessoal disponível, independentemente do posto, tentava, de balde na mão ou com qualquer outro recipiente utilizável para o efeito, esgotar a água da zona dos oficiais. Passado pouco tempo uma vaga enorme submergiu toda a popa e casa de navegação não dando tempo a que se fechasse a escotilha desta. A grande quantidade de água que entrou danificou todos os equipamentos de comunicações, de navegação, as suas alimentações eléctricas e o próprio quadro eléctrico, houve mesmo quem levasse choques de alguma intensidade. Para a navegação apenas restavam utilizáveis as cartas da navegação ainda que molhadas, uma pequena bússola magnética de escaler, utilizada até ao momento apenas para efeitos de decoração na câmara de oficiais, e o sextante que era inútil com o céu completamente encoberto. Algumas horas se navegou nestas circunstâncias, com os marinheiros do leme a governarem pelas indicações do oficial de quarto, a olho, procurando simplesmente manter a vaga na popa. No entretanto os electricistas tentavam reparar as fontes de alimentação e restabelecer os equipamentos de navegação e de comunicações. Após muito trabalho conseguiu-se recuperar apenas o GPS e o VHF, e mais tarde o radar, que no entanto não servia para nada por causa da forte surriada que envolvia o navio. Por volta das 8 horas do dia 4 a pressão começou a subir ligeiramente após ter atingido um mínimo de 986 milibares, o que correspondia à pressão no centro da depressão segundo as cartas meteorológicas previamente recebidas. Efectivamente o furacão estava a passar praticamente por cima de nós, apenas ligeiramente a norte (pois não houve acalmia, nem mudança brusca da direcção do vento) , o que significava que, surpreendentemente, tinha tido um deslocamento para ESE, tal como se perseguisse o navio. Durante o decorrer do dia o vento foi diminuindo lentamente de intensidade assim como a vaga e ao fim do dia os cozinheiros lá tentaram fazer uma massa de bacalhau, a primeira refeição (tentativa) após 24 horas em que houve quem comesse apenas bolachas ou sandes, outros nem por isso ... Finalmente a partir da meia-noite o vento baixou para valores normais e a ondulação, apesar de mais renitente, lá ia diminuindo também. A tempestade tinha passado... E o "Creoula", apesar de já velhinho, tinha ultrapassado um dos obstáculos que 25 anos antes era costume enfrentar, enquanto jovem lugre bacalhoeiro nestes mares da Terra Nova! No dia 5 pelas 0330 uma estação chamou pelo "Creoula", em inglês, no VHF, era de esperar que após mais de 36 horas sem comunicar já tivesse sido despoletado o sistema de busca e salvamento e que estivessem à nossa procura. De facto, era um avião de busca e salvamento canadiano ao qual foi reportado que todos se encontravam bem a bordo e que o navio se encontrava sem comunicações, para além disto pediu-se-lhe que reportasse estas informações para Lisboa. A viagem prosseguiu (já não com destino à ilha das Flores mas sim ao Faial tendo em vista o eventual auxilio do pessoal da Estação Radionaval da Horta na recuperação de alguns equipamentos) enquanto se fazia o balanço dos danos sofridos, se procurava reparar o que fosse possível e se limpava e arrumava o material de bordo e haveres pessoais. Nos dias seguintes, como que para compensar, esteve um Sol radioso e os oficiais aproveitaram o ensejo para fazer uma exposição na zona de ré com as suas roupas, calçado e outros objectos pessoais. A exposição encerrou quando já se encontrava tudo seco. A pouco e pouco a vida de bordo foi voltando ao normal, mantinham-se apenas algumas avarias: os equipamentos de comunicações, a girobússola, a agulha magnética, entre outros, continuavam avariados. O governo fazia-se a partir do GPS, através de frequentes ordens de leme para os marinheiros, ou dando estrelas ou o Sol como referências, com os necessários acertos temporários. Depois de mais alguns dias de viagem, passou-se pela ilha das Flores, circundando a costa de modo a que se pudesse admirar, ainda que de longe, as belezas desta magnifica ilha açoriana. Seguiu-se para a Horta onde se atracou no dia 8 de Setembro pelo meio-dia. A estadia na Horta caracterizou-se essencialmente pela azáfama na reparação de equipamentos e outro material como a bitácula ou o albói, e nas limpezas do navio principalmente do exterior com as inerentes pinturas. Ainda houve, no entanto, algum tempo para se ir à praia ou ao Peters. Os instruendos chegaram mesmo a ir visitar a ilha do Pico, utilizando uma das frequentes embarcações que fazem a ligação entre a Horta e a Madalena. Ao fim de dois dias em terra largou-se e no dia seguinte pela manhã atracava-se no Porto Pipas em Angra do Heroísmo, belíssima cidade património mundial. Aqui os instruendos andaram sempre envolvidos em inúmeras actividades organizadas pela Câmara Municipal, desde passeios a touradas, houve de tudo. Estas actividades culminaram com um agradável jantar de despedida na Casa do Peixe, tendo sido convidados também o Comandante e Oficiais, durante o qual actuou um grupo de folclore da ilha que com os seus cantares melancolicamente característicos da Terceira despertou em todos os presentes as saudades de casa, ou a nostalgia da partida no dia seguinte. O próximo porto seria Aveiro e o fim da viagem. |
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| Navegou-se com bom tempo rumo ao continente o que fez com que se chegasse mais cedo dando ainda oportunidade de fundear nas Berlengas antes da chegada a Aveiro.O ambiente marcadamente marítimo destas | |
| Navio no furacão. | ilhas,dominado pelo |
farol, que lá do alto despedia feixes de luz por entre o nevoeiro, não podia ser mais adequado para a última noite (não o foi, mas foi sentida como tal) dos instruendos a bordo. Trocavam-se moradas, contactos e abraços, faziam-se promessas de visitas, tiravam-se fotografias, saltavam algumas lágrimas rebeldes... Era esta a azáfama dos instruendos nessa noite que para eles foi de despedida do "Creoula". Despediam-se do navio no qual viveram tantas aventuras, no qual atravessaram o Atlântico, no qual trabalharam algumas vezes com prazer, outras nem por isso, no qual aprenderam coisas sobre os navios, sobre o mar e sobre a vida, e no qual, talvez principalmente, fizeram tantas amizades. O dia seguinte já não era para o "Creoula", era tempo de pensar no regresso, nos pais, nos amigos, de reajustar as ideias para a outra vida que ficou em terra, e que retomariam em breve... O "Creoula",... esse fica a aguardar por novos instruendos sedentos de aventura, amantes da brisa e dos largos horizontes marítimos, para que lhe soltem as amarras, lhe icem as velas, lhe acariciem o convés e o levem de novo por esses mares fora...
António Mourinha 2TEN |
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