Nº 369

Capa referente ao mês de Novembro de 2003

NOVEMBRO - 2003

Ficha Técnica

Fotos da Cerimónia de Abertura do Ano Operacional 2003/04

SUMÁRIO

Cerimónia de Abertura do Ano Operacional 2003/04            e Alocução do Almirante CEMA 

O N.R.P. "Vasco da Gama" na Stanavforlant

NRP "Corte-Real" no Exercício "Mare Aperto 03"

Lançamento de Míssil Anti-Carro MILAN II

"Aquário Vasco da Gama,   Séc. XIX, XX e XXI" 

"Setenta e Cinco Anos no Mar"

Modernização e Automatização das  Estações Radionavais no Continente e Açores.

Roger Chapelet -   100 Anos.

A Marinha de D. Manuel (41)

Academia de Marinha

Tomadas de Posse

Notícias

Convívios

Desporto

Divagações de Um Marujo (3)

Bibliografia

Notícias Pessoais

Património Cultural

Tabela de Preços das Assinaturas

Roger Chapelet – 100 Anos

O Museu de Marinha decidiu evocar a figura do homem e artista que foi Roger Chapelet, por ocasião do 100º aniversário do seu nascimento.

Em cerimónia realizada no passado dia 28 de Setembro, no Pavilhão das Galeotas, presidida pelo Almirante CEMA e que contou com a presença de vários oficiais generais, do Senhor Jacques Fonmarty, representante da família do homenageado, do Adido de Defesa junto da Embaixada de França em Lisboa, de antigos comandantes do Navio-Escola “Sagres” e de amigos e admiradores do artista, foi evocada a figura do grande homem do mar e amigo da Marinha Portuguesa e de Portugal que foi Roger Chapelet.

Numa breve alocução, o Director do Museu agradeceu a presença do Almirante CEMA e do representante da família do homenageado, tendo sublinhado que a exposição que o Museu decidira organizar só tinha sido possível com a colaboração de amigos do Museu de Marinha, que amavelmente disponibilizaram obras do artista. A exposição, patente ao público até ao dia 12 de Outubro, contou com sessenta quadros, vinte e cinco dos quais pertencentes ao espólio do Museu.

Seguidamente, o Comandante Martins e Silva fez a evocação de Roger Chapelet.

Cerimónia realizada no passado dia 28 de Setembro, no Pavilhão das Galeotas, presidida pelo Almirante CEMA

Cerimónia realizada no passado dia 28 de Setembro, no Pavilhão das Galeotas, presidida pelo Almirante CEMA

Roger Chapelet e a Marinha Portuguesa

Corria o ano de 1959 e estava-se no mês de Abril. Naquela época, o primeiro navio-escola “Sagres”, já no final da sua longa carreira, passava o inverno na zona oriental do porto de Lisboa, atracado ao cais do Poço do Bispo, que então era apenas uma muralha no extremo dum enorme aterro.

Roger Chapelet e a Marinha Portuguesa

Certa manhã parou junto ao navio uma viatura de matrícula francesa e dela saiu um turista de meia idade, máquina fotográfica na mão, que começou a percorrer a muralha observando o navio com interesse.

Dirigiu-se depois à sentinela e como houvesse dificuldade de comunicação, o nosso marinheiro pediu ajuda, acabando o caso por chegar ao oficial de dia.

O turista, como provavelmente já terão antecipado, era Roger Chapelet  e o oficial de serviço eu próprio, então em início de carreira.

Naquele dia ia grande azáfama a bordo. A guarnição concluía a complexa faina de aparelhar o navio, preparando-o para a próxima viagem de instrução, a iniciar em Junho.

Roger Chapelet, que entretanto revelara a sua qualidade de pintor da marinha, perguntava timidamente se seria possível içar  uma vela, para assim recolher aspectos mais sugestivos do navio. Contactado o Comandante, oficial de grande mérito e muito exigente, que nós, os mais novos, tanto admirávamos e respeitávamos como temíamos, ele não só autorizou o pedido como decidiu mandar içar duas velas, em vez de uma.

E foi assim que, de regresso à muralha, Chapelet pode fazer um estudo aguarelado com a inesperada representação de um veleiro atracado e com as duas gáveas baixas caçadas. Segundo o próprio, este estudo foi de grande utilidade em trabalhos posteriores, encontrando-se hoje à guarda deste Museu graças à doação que a família do artista fez, juntamente com um número apreciável doutros trabalhos, após a morte do pintor.

Foi, pois, nessa manhã de Abril que, graças ao interesse de Chapelet pelos grandes veleiros, iria nascer a ligação do pintor à Marinha Portuguesa e a amizade que um número sempre crescente de oficiais lhe dedicou.

Curiosamente, este estudo da “Sagres” de 1959 não é o trabalho mais antigo do pintor tendo por tema um navio português. Essa primazia cabe a uma pintura de 1935, representando o navio bacalhoeiro “Santa Isabel”, da praça de Aveiro, navegando entre bancos de gelo nos mares da Terra Nova. Nesse ano, Chapelet observava pela segunda vez uma campanha de pesca de bacalhau, a bordo  dum veleiro francês de Saint Malo, experiência que iniciara no ano anterior e haveria de repetir em 1937.

Sagres I em Xabregas - 1959. Colecção Museu de Marinha.

Sagres I em Xabregas - 1959. Colecção Museu de Marinha.

Regressado a França, a pintura do “Santa Isabel” figurou no Salão de Outono de Paris desse mesmo ano, tendo sido vendida pelo seu agente sem que o pintor soubesse a quem.

A história deste quadro não termina aqui. Anos depois - cerca de 30 anos depois – Roger Chapelet dir-me-ia que tinha visto o seu quadro em Lisboa, no gabinete dum almirante. Como e quando ali tinha ido parar, ninguém sabia.

Em 1991, quando fui nomeado director deste Museu, lembrei-me do que o pintor me havia dito um quarto de século antes, e parti à busca do quadro, valendo-me da minha provecta “antiguidade” para percorrer sem grande cerimónia os gabinetes dos almirantes. Acabei por encontrar o “Santa Isabel” a “navegar” numa das paredes do gabinete do Vice-Chefe do Estado-Maior da Armada.

Devo admitir que a minha intenção de trazer o quadro para o Museu foi um tanto facilitada – mas só um tanto – pelo facto de o Vice-Cema e eu próprio sermos do mesmo curso. Não foi tão fácil quanto poderia parecer-me. Sua Excelência resistiu o suficiente para me obrigar a subir a parada das compensações, acabando finalmente por aceitar a troca por uma boa pintura representando o actual navio-escola “Sagres”.

Desde então, o “Santa Isabel” está exposto neste Museu próximo do local onde figura o modelo do próprio navio que, por sorte, já existia.

Retomando esta breve narrativa da ligação de Roger Chapelet à Marinha Portuguesa, a auspiciosa  estreia de 1959 haveria de ter sequência em numerosas outras ocasiões.

A velha “Sagres” daria lugar à actual em 1962 e o pintor não perdeu tempo em manter e ampliar os seus contactos com o nosso veleiro e os seus comandantes.

Assim, embarcou logo em 1963, numa interessante viagem de instrução e representação ao norte da Europa, da qual deixou a bordo uma belíssima pintura.

Comandava então o navio o capitão-tenente Silva Horta, hoje vice-almirante e já retirado.

O Almirante Silva Horta, tal como o Almirante Tengarrinha Pires, que comandava a velha “Sagres” em 1959, haveriam de ser dois dos bons amigos que o pintor deixou na nossa Marinha.

Devo dizer, a este propósito, que até 1979, ano em que Roger Chapelet completou o seu último embarque, o pintor conheceu todos os comandantes do  nosso navio-escola, com todos eles tendo feito amizade e com todos eles tendo navegado. Chapelet embarcou 7 vezes na “Sagres”, tendo feito largos milhares de horas de navegação.

Dizia o pintor, sempre que a oportunidade surgia, que a Marinha Portuguesa o havia tratado invariavelmente com grande deferência e gentileza, o que é exacto. Mas deve dizer-se que, em contrapartida, a nossa Marinha teve um generoso retorno dessas atenções, não apenas por ter recebido diversas dádivas de pinturas do artista  como porque, no estrangeiro, Roger Chapelet foi um empenhado defensor da nossa Marinha e de Portugal. Teve, até, gestos bem demonstrativos dessa dedicação, como este que irei relatar sucintamente.

Sagres  II

Sagres  II

Sagres  II

Sagres  II

Sagres  II - 4 esboços. 

Durante a primeira viagem de circum-navegação da “Sagres”, planeou-se o percurso do navio de modo a fazer escala no Hawaii em Novembro de 1978, para que a estadia coincidisse com as celebrações do primeiro centenário da chegada de emigrantes ao arquipélago. Tratava-se, como se calcula, de emigrantes portugueses, oriundos dos Açores e da Madeira, mas apesar dessa primazia na chegada àquelas longínquas paragens, o Museu de Honolulu – o Bishop’s Museum – que preserva a memória das comunidades de emigrantes ali chegadas em datas posteriores, não dispunha de qualquer referência aos nossos compatriotas.

Roger Chapelet, que estava a bordo por haver embarcado em S. Francisco um mês e meio antes, visitou o Museu e apercebeu-se da omissão.

Aproveitando a estadia relativamente longa do navio em Honolulu, pintou a bordo um magnífico quadro representando a “Sagres” a navegar, com as características cruzes de Cristo nas velas, e tendo por fundo uma ilha hawaiana.

Depois dirigiu-se ao Museu, pediu para ser recebido pelo director e ofereceu o quadro, com a condição, que foi aceite, de ele servir de ponto de partida a uma secção evocativa da presença da comunidade portuguesa.

Com a modéstia habitual, só depois de concluída esta acção deu dela conhecimento ao comandante do navio e ao Consul de Portugal em Honolulu.

Ao longo da sua vida, Chapelet mostrou também o seu desprendimento material sempre que se tratou de, por alguma forma, ajudar Portugal ou a sua Marinha.

Lugre Santa Isabel - 1935. Colecção Museu de Marinha.

Lugre Santa Isabel - 1935. Colecção Museu de Marinha.

Eis dois ou três exemplos.

No final dos anos sessenta do século passado, a Marinha Portuguesa encomendou a construção de vários navios a estaleiros franceses. Nessa altura, Roger Chapelet aceitou uma encomenda para pintar um quadro de boas dimensões para cada uma das quatro fragatas da classe “João Belo”, tendo cobrado pelo seu trabalho um preço que cobriria pouco mais que o custo dos materiais empregues.

Da mesma forma e em duas ocasiões separadas no tempo, cerca de 20 anos, Chapelet aceitou encomendas deste Museu para a realização de pinturas de grandes dimensões, pelas quais recebeu honorários que, de modo algum, correspondiam ao preço habitual dos seus trabalhos.

Enfim, um último exemplo. Em 1992, quando o pintor soube que a Marinha Portuguesa levava a efeito a recuperação da fragata “D. Fernando II e Glória”, pediu elementos para se documentar sobre o navio e pintou depois um belíssimo quadro, representando a “D. Fernando”, com todo o pano, a dobrar o Cabo de S. Vicente.

Ofereceu o quadro ao Museu com a condição de se fazerem gravuras para venda, devendo a receita assim obtida reverter para o fundo de recuperação.

O editor de muitas obras dedicadas ao artista, o meu caro amigo Jacques Fonmarty, imprimiu gratuitamente as gravuras, pelo que o valor da sua venda foi integralmente canalizado para os trabalhos do navio.

Faço aqui uma pequena pausa para referir que a manutenção desta fragata é da exclusiva responsabilidade do Museu de Marinha, responsabilidade excessivamente pesada, face aos valores que envolve. A Marinha, que se debate, como todos sabemos, com sérias limitações devido à exiguidade dos recursos financeiros que lhe são atribuídos pelo Orçamento do Estado, não tem qualquer possibilidade de conceder meios para a manutenção do navio.

Tudo seria diferente se as altas instâncias deste País, que têm ignorado completamente a existência da fragata “D. Fernando II e Glória” desde que terminou a Expo 98, assumissem a responsabilidade, que lhes cabe, de suportar a preservação desta verdadeira relíquia do nosso património histórico. Mas adiante...

Estava a referir-me à oferta do quadro de Chapelet e à venda das gravuras, impressas gratuitamente.

Desta convergência de boas vontades resultou que o significativo montante da venda colocou o nome do pintor no primeiro lugar da lista dos grandes mecenas individuais, facto atestado na placa comemorativa colocada a bordo do navio em lugar de honra.

A atitude generosa do Sr. Jacques Fonmarty, que ofereceu o papel e, a impressão de 2000 gravuras, foi por nós quantificada e o seu nome igualmente inscrito na placa dos grandes mecenas individuais.

A vida de Roger Chapelet, desde que fora nomeado pintor de marinha, foi uma sucessão de embarques em navios de todos os tipos, mercantes, de pesca ou de guerra, tendo feito mais horas de navegação do que a maioria dos que andam no mar por profissão. E que não se pense que terá sido fácil ter andado tanto tempo embarcado. Para além do trabalho que o seu metier exigia quotidianamente, o pintor suportou as dificuldades e os riscos próprios dos profissionais do mar e da guerra.

Fez 3 campanhas de pesca de bacalhau, como atrás referi, e todos os marinheiros sabem o que tal representa de perigos e incómodos.

Além disso, durante a Segunda Guerra Mundial navegou em vedetas torpedeiras inglesas, em acções de combate, participou nos desembarques dos aliados em Itália e no Sul de França, navegou no Atlântico Sul com forças navais empenhadas na caça aos corsários alemães e foi testemunha presencial do desembarque anglo-americano no norte de África.

Quando, por fim, o grande conflito terminou, seguiu para a Indochina, onde acompanhou o verdadeiro purgatório que foi a fase final da presença francesa no sudeste asiático.

Terminadas as guerras, retomou os embarques, quase sempre em navios de armadores franceses, assim continuando a percorrer os mares deste mundo em busca de temas para as suas obras.

Ribeira do Porto - 1968 - NRP "Comandante Hermenegildo Capelo"

Ribeira do Porto - 1968  -  NRP  "Comandante Hermenegildo Capelo"

Desta vasta actividade, Chapelet recolheu uma formidável variedade de elementos que, postos ao serviço do seu talento, se materializaram em pinturas que haviam de espalhar o nome do artista por Museus e colecções particulares de numerosos países. Referindo-se à incessante busca da perfeição, que tanto marcou a sua vida, o pintor dizia, e cito, “poucos pintores de marinha conhecem bem o mar e sabem pintá-lo. São bons artistas, mas falta-lhes por vezes o espírito marinheiro e os seus embarques em navios de guerra nem sempre lhes dão grande vantagem. É tão difícil o mar”, fim de citação.

O seu apego à perfeição e a obrigação, que se impunha, de corresponder ao que dele se esperava enquanto pintor de marinha, tinham um elevado preço, que ele muitas   vezes me referiu: o incómodo de sucessivos embarques, raramente em condições confortáveis ou, sequer, razoáveis, e o afastamento da família, de que se sentia culposamente responsável.

Vou contar um episódio que presenciei e que é paradigmático dos esforços que o pintor  sempre fez para se documentar, quaisquer que fossem as circunstâncias.

Durante a travessia do Pacífico, em 1978, quando levávamos já um mês de viagem desde a partida do Hawaii, a “Sagres” foi apanhada por um violento e súbito temporal quando navegava, à vela, ao largo das ilhas japonesas. Durante as manobras de emergência que se seguiram, sob uma chuva diluviana e com o navio a embarcar água alternadamente a um e outro bordo, tal era o balanço desordenado, apercebi-me de que Roger Chapelet subira ao tombadilho e se colocara no canto de vante, a BB, observando atentamente a situação.

Receoso pela sua segurança – recordo que o pintor tinha então 75 anos e claudicava duma perna, consequência duma descalcificação na adolescência – sugeri-lhe que recolhesse ao seu camarote. Resposta pronta: “Mas, meu velho, como quer que eu registe depois as cores do mar e do céu e a forma das nuvens, se não as observar?”. Sem comentários. 

Assim foi sempre o artista. Vivia as situações  e, logo depois, enquanto tinha bem vivas as recordações visuais, passava ao papel as tonalidades e as formas, normalmente com anotações escritas à margem.

Fragata D. Fernando II e Glória no Cabo de S. Vicente. Colecção Museu de Marinha.

Fragata D. Fernando II e Glória no Cabo de S. Vicente. Colecção Museu de Marinha.

Depois, no espaço exíguo das cabinas de bordo ou no remanso do seu acolhedor atelier, Chapelet derramava o seu talento na produção de obras de grande beleza e rigor.

Deste episódio, que hoje evoquei para sublinhar a probidade do artista, guardo uma recordação que prezo particularmente: dias depois, já chegados ao Japão, o pintor teve a gentileza de me oferecer um gouache que reproduzia, com assombrosa fidelidade, a situação difícil vivida naquele dia 11 de Dezembro de 1978. Com o seu sentido marinheiro, Chapelet escreveu na dedicatória do quadro não só a data mas, também, as coordenadas do local do mau tempo, para que conste, 33º 01’ de latitude norte, 143º   30’ de longitude E.

V.ªs. Exªs. terão ocasião de apreciar esta pintura durante a visita à exposição que hoje se inaugura. O seu lugar definitivo será no Museu de Marinha, mas que me seja dado o privilégio do seu usufruto enquanto puder ...

Um pormenor curioso:

Um oficial do navio teve a excelente ideia de registar em fotografia a presença de Chapelet no tombadilho da “Sagres”, durante o mau tempo. A fotografia serve de motivo de fundo ao cartaz desta exposição.

A seriedade do pintor, aliada ao espírito crítico de que sempre deu provas, levaram-no a entrar em colisão, por diversas vezes, com as hierarquias da Marinha Francesa, tanto na qualidade de pintor de marinha como na de Presidente da Academia de Marinha de França, por entender que havia demasiada permissividade nos critérios que presidiam à concessão de títulos de “pintor de marinha”.

Em resultado desses conflitos e apesar do reconhecimento geral do seu mérito artístico, tanto em França como no estrangeiro, Roger Chapelet atravessou a sua vida de pintor de marinha, longa de 57 anos, sem que os responsáveis do seu país, nomeadamente os sucessivos directores do Museu de Marinha de Paris, tivessem promovido alguma vez a sua obra.

Em Fevereiro de 1993, finalmente, o pintor escreveu-me uma longa carta onde, a certa altura, falava pela primeira vez na eventual realização duma exposição, mas as suas palavras revelavam compreensível amargura. Dizia ele, e cito, “... O Museu de Marinha prepara para Outubro uma grande exposição Chapelet, mas é bem tarde, aos 90 anos”, fim de citação.

Era sem dúvida tarde mas, como diz o ditado, sempre é melhor tarde que nunca e Chapelet também assim pensou, acabando por dar o seu assentimento.

A grande mostra teve lugar, como previsto, em Outubro desse ano. Dada a estreita ligação do artista a Portugal e à sua Marinha, as entidades francesas tiveram a gentileza de convidar para a inauguração o nosso Chefe do Estado-Maior da Armada. Na impossibilidade de se deslocar a Paris, S. Exª.,  delegou a sua representação no director deste Museu que, por sorte, era eu próprio.

Roger Chapelet

A exposição apresentava mais de 200 obras do pintor, percorrendo todos os períodos da sua vida artística, assim se tendo feito, finalmente, justiça à obra e ao mérito de Roger Chapelet na capital do seu próprio país.

Foi a última vez que vi o pintor. Recordo que, quando finalmente nos despedimos, nesse inesquecível 7 de Outubro de 1993, havia horas que Chapelet permanecia de pé, apesar da avançada idade, acompanhando altas entidades, acolhendo calorosamente os amigos, enfim, falando com admiradores e concedendo autógrafos.

Preocupado, perguntei a seu filho se o esforço não era excessivo. “Deixa lá”, foi a resposta. “Ele está feliz”. Era evidente que estava.

Menos de 2 anos depois, a 30 de Junho de 1995, a roda inexorável  da vida levou o artista para a grande viagem sem regresso. Ficou sepultado no pequeno cemitério da sua amada terra natal , Montpon, no Menestérol.

Tempo depois, em 1997, a Marinha Portuguesa decidiu levar a efeito uma derradeira homenagem ao pintor, , colocando no seu túmulo, no decurso  duma significativa cerimónia, uma placa de bronze com a inscrição “A Roger Chapelet, a Marinha Portuguesa reconhecida”.

Desde então, quem por ali passar ficará a saber que, para além dum grande pintor, repousa ali alguém que foi um bom e leal amigo de Portugal e da sua Marinha.

Ao proceder hoje a esta evocação, por ocasião do centenário do seu nascimento – o pintor nasceu a 25 de Setembro de 1903 – a Marinha  Portuguesa continua a honrar a memória de Roger Chapelet.

Mas a maior homenagem que se lhe pode prestar será através da contemplação da sua obra.

Assim ele se manterá presente em cada um de nós, assim ele continuará a navegar e a fazer navegar os seus navios até a consumação dos tempos, pois a boa pintura, como a grande música, é uma das manifestações do Homem que mais o aproxima da Eternidade.

 

J. Martins e Silva

CMG