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Nº 369 NOVEMBRO - 2003 Fotos da Cerimónia de Abertura do Ano Operacional 2003/04 Cerimónia de Abertura do Ano Operacional 2003/04 e Alocução do Almirante CEMA O N.R.P. "Vasco da Gama" na Stanavforlant NRP "Corte-Real" no Exercício "Mare Aperto 03" Lançamento de Míssil Anti-Carro MILAN II "Aquário Vasco da Gama, Séc. XIX, XX e XXI" Modernização e Automatização das Estações Radionavais no Continente e Açores. |
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Regressado
a França, a pintura do “Santa Isabel” figurou no Salão de Outono
de Paris desse mesmo ano, tendo sido vendida pelo seu agente sem que o
pintor soubesse a quem. A
história deste quadro não termina aqui. Anos depois - cerca de 30
anos depois – Roger Chapelet dir-me-ia que tinha visto o seu quadro
em Lisboa, no gabinete dum almirante. Como e quando ali tinha ido
parar, ninguém sabia. Em
1991, quando fui nomeado director deste Museu, lembrei-me do que o
pintor me havia dito um quarto de século antes, e parti à busca do
quadro, valendo-me da minha provecta “antiguidade” para percorrer
sem grande cerimónia os gabinetes dos almirantes. Acabei por
encontrar o “Santa Isabel” a “navegar” numa das paredes do
gabinete do Vice-Chefe do Estado-Maior da Armada. Devo
admitir que a minha intenção de trazer o quadro para o Museu foi um
tanto facilitada – mas só um tanto – pelo facto de o Vice-Cema e
eu próprio sermos do mesmo curso. Não foi tão fácil quanto poderia
parecer-me. Sua Excelência resistiu o suficiente para me obrigar a
subir a parada das compensações, acabando finalmente por aceitar a
troca por uma boa pintura representando o actual navio-escola
“Sagres”. Desde
então, o “Santa Isabel” está exposto neste Museu próximo do
local onde figura o modelo do próprio navio que, por sorte, já
existia. Retomando
esta breve narrativa da ligação de Roger Chapelet à Marinha
Portuguesa, a auspiciosa
estreia de 1959 haveria de ter sequência em numerosas outras
ocasiões. A
velha “Sagres” daria lugar à actual em 1962 e o pintor não
perdeu tempo em manter e ampliar os seus contactos com o nosso veleiro
e os seus comandantes. Assim,
embarcou logo em 1963, numa interessante viagem de instrução e
representação ao norte da Europa, da qual deixou a bordo uma belíssima
pintura. Comandava
então o navio o capitão-tenente Silva Horta, hoje vice-almirante e já
retirado. O
Almirante Silva Horta, tal como o Almirante Tengarrinha Pires, que
comandava a velha “Sagres” em 1959, haveriam de ser dois dos bons
amigos que o pintor deixou na nossa Marinha. Devo
dizer, a este propósito, que até 1979, ano em que Roger Chapelet
completou o seu último embarque, o pintor conheceu todos os
comandantes do
nosso navio-escola, com todos eles tendo feito amizade e com
todos eles tendo navegado. Chapelet embarcou 7 vezes na “Sagres”,
tendo feito largos milhares de horas de navegação. Dizia
o pintor, sempre que a oportunidade surgia, que a Marinha Portuguesa o
havia tratado invariavelmente com grande deferência e gentileza, o
que é exacto. Mas deve dizer-se que, em contrapartida, a nossa
Marinha teve um generoso retorno dessas atenções, não apenas por
ter recebido diversas dádivas de pinturas do artista
como porque, no estrangeiro, Roger Chapelet foi um empenhado
defensor da nossa Marinha e de Portugal. Teve, até, gestos bem
demonstrativos dessa dedicação, como este que irei relatar
sucintamente. |
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Sagres II - 4 esboços. |
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Durante
a primeira viagem de circum-navegação da “Sagres”, planeou-se o
percurso do navio de modo a fazer escala no Hawaii em Novembro de
1978, para que a estadia coincidisse com as celebrações do primeiro
centenário da chegada de emigrantes ao arquipélago. Tratava-se, como
se calcula, de emigrantes portugueses, oriundos dos Açores e da
Madeira, mas apesar dessa primazia na chegada àquelas longínquas
paragens, o Museu de Honolulu – o Bishop’s Museum – que preserva
a memória das comunidades de emigrantes ali chegadas em datas
posteriores, não dispunha de qualquer referência aos nossos
compatriotas. Roger
Chapelet, que estava a bordo por haver embarcado em S. Francisco um mês
e meio antes, visitou o Museu e apercebeu-se da omissão. Aproveitando a estadia relativamente longa do navio em Honolulu, pintou a bordo um magnífico quadro representando a “Sagres” a navegar, com as características cruzes de Cristo nas velas, e tendo por fundo uma ilha hawaiana. |
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Depois
dirigiu-se ao Museu, pediu para ser recebido pelo director e ofereceu
o quadro, com a condição, que foi aceite, de ele servir de ponto de
partida a uma secção evocativa da presença da comunidade
portuguesa. Com a modéstia habitual, só depois de concluída esta acção deu dela conhecimento ao comandante do navio e ao Consul de Portugal em Honolulu. Ao longo da sua vida, Chapelet mostrou também o seu desprendimento material sempre que se tratou de, por alguma forma, ajudar Portugal ou a sua Marinha. |
Lugre Santa Isabel - 1935. Colecção Museu de Marinha. |
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Eis
dois ou três exemplos. No
final dos anos sessenta do século passado, a Marinha Portuguesa
encomendou a construção de vários navios a estaleiros franceses.
Nessa altura, Roger Chapelet aceitou uma encomenda para pintar um
quadro de boas dimensões para cada uma das quatro fragatas da classe
“João Belo”, tendo cobrado pelo seu trabalho um preço que
cobriria pouco mais que o custo dos materiais empregues. Da
mesma forma e em duas ocasiões separadas no tempo, cerca de 20 anos,
Chapelet aceitou encomendas deste Museu para a realização de
pinturas de grandes dimensões, pelas quais recebeu honorários que,
de modo algum, correspondiam ao preço habitual dos seus trabalhos. Enfim,
um último exemplo. Em 1992, quando o pintor soube que a Marinha
Portuguesa levava a efeito a recuperação da fragata “D. Fernando
II e Glória”, pediu elementos para se documentar sobre o navio e
pintou depois um belíssimo quadro, representando a “D. Fernando”,
com todo o pano, a dobrar o Cabo de S. Vicente. Ofereceu
o quadro ao Museu com a condição de se fazerem gravuras para venda,
devendo a receita assim obtida reverter para o fundo de recuperação.
O
editor de muitas obras dedicadas ao artista, o meu caro amigo Jacques
Fonmarty, imprimiu gratuitamente as gravuras, pelo que o valor da sua
venda foi integralmente canalizado para os trabalhos do navio. Faço
aqui uma pequena pausa para referir que a manutenção desta fragata
é da exclusiva responsabilidade do Museu de Marinha, responsabilidade
excessivamente pesada, face aos valores que envolve. A Marinha, que se
debate, como todos sabemos, com sérias limitações devido à
exiguidade dos recursos financeiros que lhe são atribuídos pelo Orçamento
do Estado, não tem qualquer possibilidade de conceder meios para a
manutenção do navio. Tudo
seria diferente se as altas instâncias deste País, que têm ignorado
completamente a existência da fragata “D. Fernando II e Glória”
desde que terminou a Expo 98, assumissem a responsabilidade, que lhes
cabe, de suportar a preservação desta verdadeira relíquia do nosso
património histórico. Mas adiante... Estava
a referir-me à oferta do quadro de Chapelet e à venda das gravuras,
impressas gratuitamente. Desta
convergência de boas vontades resultou que o significativo montante
da venda colocou o nome do pintor no primeiro lugar da lista dos
grandes mecenas individuais, facto atestado na placa comemorativa
colocada a bordo do navio em lugar de honra. A
atitude generosa do Sr. Jacques Fonmarty, que ofereceu o papel e, a
impressão de 2000 gravuras, foi por nós quantificada e o seu nome
igualmente inscrito na placa dos grandes mecenas individuais. A
vida de Roger Chapelet, desde que fora nomeado pintor de marinha, foi
uma sucessão de embarques em navios de todos os tipos, mercantes, de
pesca ou de guerra, tendo feito mais horas de navegação do que a
maioria dos que andam no mar por profissão. E que não se pense que
terá sido fácil ter andado tanto tempo embarcado. Para além do
trabalho que o seu metier exigia quotidianamente, o pintor suportou as
dificuldades e os riscos próprios dos profissionais do mar e da
guerra. Fez
3 campanhas de pesca de bacalhau, como atrás referi, e todos os
marinheiros sabem o que tal representa de perigos e incómodos. Além
disso, durante a Segunda Guerra Mundial navegou em vedetas torpedeiras
inglesas, em acções de combate, participou nos desembarques dos
aliados em Itália e no Sul de França, navegou no Atlântico Sul com
forças navais empenhadas na caça aos corsários alemães e foi
testemunha presencial do desembarque anglo-americano no norte de África. Quando,
por fim, o grande conflito terminou, seguiu para a Indochina, onde
acompanhou o verdadeiro purgatório que foi a fase final da presença
francesa no sudeste asiático. Terminadas
as guerras, retomou os embarques, quase sempre em navios de armadores
franceses, assim continuando a percorrer os mares deste mundo em busca
de temas para as suas obras. |
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Ribeira do Porto - 1968 - NRP "Comandante Hermenegildo Capelo" |
Desta vasta actividade, Chapelet recolheu uma formidável variedade de elementos que, postos ao serviço do seu talento, se materializaram em pinturas que haviam de espalhar o nome do artista por Museus e colecções particulares de numerosos países. Referindo-se à incessante busca da perfeição, que tanto marcou a sua vida, o pintor dizia, e cito, “poucos pintores de marinha conhecem bem o mar e sabem pintá-lo. São bons artistas, mas falta-lhes por vezes o espírito marinheiro e os seus embarques em navios de guerra nem sempre lhes dão grande vantagem. É tão difícil o mar”, fim de citação. |
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O
seu apego à perfeição e a obrigação, que se impunha, de
corresponder ao que dele se esperava enquanto pintor de marinha,
tinham um elevado preço, que ele muitas
vezes me referiu: o incómodo de sucessivos embarques,
raramente em condições confortáveis ou, sequer, razoáveis, e o
afastamento da família, de que se sentia culposamente responsável. Vou
contar um episódio que presenciei e que é paradigmático dos esforços
que o pintor
sempre fez para se documentar, quaisquer que fossem as circunstâncias. Durante
a travessia do Pacífico, em 1978, quando levávamos já um mês de
viagem desde a partida do Hawaii, a “Sagres” foi apanhada por um
violento e súbito temporal quando navegava, à vela, ao largo das
ilhas japonesas. Durante as manobras de emergência que se seguiram,
sob uma chuva diluviana e com o navio a embarcar água alternadamente
a um e outro bordo, tal era o balanço desordenado, apercebi-me de que
Roger Chapelet subira ao tombadilho e se colocara no canto de vante, a
BB, observando atentamente a situação. |
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Receoso pela sua segurança – recordo que o pintor tinha então 75 anos e claudicava duma perna, consequência duma descalcificação na adolescência – sugeri-lhe que recolhesse ao seu camarote. Resposta pronta: “Mas, meu velho, como quer que eu registe depois as cores do mar e do céu e a forma das nuvens, se não as observar?”. Sem comentários. Assim foi sempre o artista. Vivia as situações e, logo depois, enquanto tinha bem vivas as recordações visuais, passava ao papel as tonalidades e as formas, normalmente com anotações escritas à margem. |
Fragata D. Fernando II e Glória no Cabo de S. Vicente. Colecção Museu de Marinha. |
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Depois,
no espaço exíguo das cabinas de bordo ou no remanso do seu acolhedor
atelier, Chapelet derramava o seu talento na produção de obras de
grande beleza e rigor. Deste
episódio, que hoje evoquei para sublinhar a probidade do artista,
guardo uma recordação que prezo particularmente: dias depois, já
chegados ao Japão, o pintor teve a gentileza de me oferecer um
gouache que reproduzia, com assombrosa fidelidade, a situação difícil
vivida naquele dia 11 de Dezembro de 1978. Com o seu sentido
marinheiro, Chapelet escreveu na dedicatória do quadro não só a
data mas, também, as coordenadas do local do mau tempo, para que
conste, 33º 01’ de latitude norte, 143º
30’ de longitude E. V.ªs.
Exªs. terão ocasião de apreciar esta pintura durante a visita à
exposição que hoje se inaugura. O seu lugar definitivo será no
Museu de Marinha, mas que me seja dado o privilégio do seu usufruto
enquanto puder ... Um
pormenor curioso: Um
oficial do navio teve a excelente ideia de registar em fotografia a
presença de Chapelet no tombadilho da “Sagres”, durante o mau
tempo. A fotografia serve de motivo de fundo ao cartaz desta exposição. A
seriedade do pintor, aliada ao espírito crítico de que sempre deu
provas, levaram-no a entrar em colisão, por diversas vezes, com as
hierarquias da Marinha Francesa, tanto na qualidade de pintor de
marinha como na de Presidente da Academia de Marinha de França, por
entender que havia demasiada permissividade nos critérios que
presidiam à concessão de títulos de “pintor de marinha”. Em
resultado desses conflitos e apesar do reconhecimento geral do seu mérito
artístico, tanto em França como no estrangeiro, Roger Chapelet
atravessou a sua vida de pintor de marinha, longa de 57 anos, sem que
os responsáveis do seu país, nomeadamente os sucessivos directores
do Museu de Marinha de Paris, tivessem promovido alguma vez a sua
obra. Em
Fevereiro de 1993, finalmente, o pintor escreveu-me uma longa carta
onde, a certa altura, falava pela primeira vez na eventual realização
duma exposição, mas as suas palavras revelavam compreensível
amargura. Dizia ele, e cito, “... O Museu de Marinha prepara para
Outubro uma grande exposição Chapelet, mas é bem tarde, aos 90
anos”, fim de citação. Era
sem dúvida tarde mas, como diz o ditado, sempre é melhor tarde que
nunca e Chapelet também assim pensou, acabando por dar o seu
assentimento. A
grande mostra teve lugar, como previsto, em Outubro desse ano. Dada a
estreita ligação do artista a Portugal e à sua Marinha, as
entidades francesas tiveram a gentileza de convidar para a inauguração
o nosso Chefe do Estado-Maior da Armada. Na impossibilidade de se
deslocar a Paris, S. Exª.,
delegou a sua representação no director deste Museu que, por
sorte, era eu próprio. |
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A exposição apresentava mais de 200 obras do pintor, percorrendo todos os períodos da sua vida artística, assim se tendo feito, finalmente, justiça à obra e ao mérito de Roger Chapelet na capital do seu próprio país. Foi a última vez que vi o pintor. Recordo que, quando finalmente nos despedimos, nesse inesquecível 7 de Outubro de 1993, havia horas que Chapelet permanecia de pé, apesar da avançada idade, acompanhando altas entidades, acolhendo calorosamente os amigos, enfim, falando com admiradores e concedendo autógrafos. |
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Preocupado,
perguntei a seu filho se o esforço não era excessivo. “Deixa lá”,
foi a resposta. “Ele está feliz”. Era evidente que estava. Menos
de 2 anos depois, a 30 de Junho de 1995, a roda inexorável
da vida levou o artista para a grande viagem sem regresso.
Ficou sepultado no pequeno cemitério da sua amada terra natal ,
Montpon, no Menestérol. Tempo
depois, em 1997, a Marinha Portuguesa decidiu levar a efeito uma
derradeira homenagem ao pintor, , colocando no seu túmulo, no decurso
duma significativa cerimónia, uma placa de bronze com a inscrição
“A Roger Chapelet, a Marinha Portuguesa reconhecida”. Desde
então, quem por ali passar ficará a saber que, para além dum grande
pintor, repousa ali alguém que foi um bom e leal amigo de Portugal e
da sua Marinha. Ao
proceder hoje a esta evocação, por ocasião do centenário do seu
nascimento – o pintor nasceu a 25 de Setembro de 1903 – a Marinha
Portuguesa continua a honrar a memória de Roger Chapelet. Mas
a maior homenagem que se lhe pode prestar será através da contemplação
da sua obra. Assim
ele se manterá presente em cada um de nós, assim ele continuará a
navegar e a fazer navegar os seus navios até a consumação dos
tempos, pois a boa pintura, como a grande música, é uma das
manifestações do Homem que mais o aproxima da Eternidade. J.
Martins e Silva CMG |