Sessão Cultural - 14 fevereiro 2012

A conferência do dia, intitulada “D. Dinis – o Pai da Pátria”, foi apresentada pelo académico João Abel da Fonseca, Secretário da Classe de História Marítima, a propósito das comemorações dos 750 anos do nascimento do monarca.
Dada a circunstância de se dever ao Rei «Lavrador» a criação do Almirantado, começou o orador por dedicar a sua apresentação “a todos os Almirantes de Portugal”, na pessoa do Presidente da Academia de Marinha. Contudo, entendeu não poder deixar de associar uma co-dedicatória à memória de quem “pela vez primeira, na nossa Academia, se referiu a D. Dinis”, o académico Nuno Valdez dos Santos.
Ao iniciar a sua comunicação, precisou o significado do título simbólico de Pai da Pátria, o Pater Patriae da Roma Antiga.
Depois de salientar a importância de D. Dinis na construção do nosso imaginário colectivo, declamou Camões, Pessoa e o Rei «Trovador», neste caso lendo a cantiga de amor que dedicou à Rainha Santa Isabel.
Prosseguiu com a relação circunstanciada das mais significativas obras da Historiografia dionisina, bem como os eventos já realizados no âmbito das comemorações em curso.

Na segunda parte o Dr. João Abel da Fonseca debruçou-se sobre algumas das iniciativas do monarca, tais como a fundação da Universidade, o Tratado de Alcanises, a extinção da Ordem dos Templários, a criação da Ordem de Cristo, a autonomização da Ordem de Santiago em relação ao mestrado castelhano e os Regimentos dos Tabeliães e dos Escrivães, estabelecendo o Português como língua oficial. Referiu ainda a introdução do sistema monetário, a celebração do primeiro tratado de comércio, o desenvolvimento das feiras francas, a criação da primeira mutualidade, o incentivo da exploração mineira, a construção do primeiro cais acostável do porto de Lisboa, as tercenas e o apoio à criação de confrarias e irmandades, nomeadamente de marítimos.
Antes de terminar, o conferencista falou também da figura física do monarca - designadamente o facto de ser ruivo, talvez herança do seu 5º avô Frederico Barba-Ruiva, do seu especial gosto pela caça, do seu parentesco próximo com os mais importantes monarcas europeus, da referência que lhe é feita por Dante Alighieri na Divina Comédia e ter na sua descendência um Papa, Bento XIII.
A terminar, leu um trecho da Crónica de D. Dinis, de Duarte Nunes do Lião, que o apelida O Pai da Pátria, assim justificando o título da sua comunicação.
No debate subsequente, entre outros esclarecimentos, o académico João Abel da Fonseca teve o ensejo de explicar que, ao contrário do mito, não foi D. Dinis quem ordenou o plantio do pinhal de Leiria.
Fotografias de Ana Nunes
Sessão Cultural - 7 fevereiro 2012

Recordando que no dia seguinte se completaria o 50º aniversário do Navio Escola Sagres ao serviço da Armada, o Presidente Vieira Matias felicitou a guarnição, em nome da Academia de Marinha e nas pessoas de dois dos seus antigos comandantes, os académicos Castanho Paes e Malhão Pereira, presentes na assistência.
Intitulada “Fernão Gomes da Mina, Mercador e Conselheiro de Monarcas”, a conferência do dia foi apresentada pelo académico Aurélio de Araújo Oliveira.

Apesar de serem parcos os dados documentais sobre a personagem a que o título alude, sabe-se da sua forte ligação aos negócios das ilhas e costas de África e a diversas acções políticas e militares, como as conquistas de Alcácer, Arzila e Tanger, disse o orador. Referiu a importância da sua presença na conquista de Anafé, actual Casablanca, por ser um refúgio da pirataria que prejudicava a navegação atlântica. Falou também dos significativos apoios financeiros que concedeu à Coroa e da extensão dos seus interesses comerciais aos eixos da Flandres e do Mediterrâneo. Pela sua pujança económica e pelas ligações a D. Afonso V e ao Príncipe D. João, Gomes da Mina foi, como bem explicou o Prof. Aurélio de Oliveira, uma personagem marcante e influente do seu tempo. Além de ter iniciado a estratégia de posse dos lugares atingidos pelos Portugueses, por meio da sinalização com padrões em madeira, teve um decisivo papel na reserva e preservação dos nossos espaços marítimos e “acabou por tomar em mãos praticamente toda a construção naval em Lisboa”, sublinhou o orador.
Feito Cavaleiro nos campos de África, pela sua participação com armas e dinheiro, Conselheiro Régio de Afonso V, D. João II e D. Manuel, e homem da nobreza do Reino, Fernão Gomes da Mina estará representado nos Painéis de S. Vicente de Fora, em posição de destaque, segundo crê o Prof. Aurélio de Oliveira, pelas razões que convictamente expôs na parte final da sua comunicação, apoiado no Cancioneiro Geral e na Ásia de João de Barros.

No debate que encerrou a sessão estabeleceu-se um interessante diálogo entre a assistência e o conferencista, o qual manifestou estar consciente das polémicas que a sua tese poderá desencadear entre a comunidade académica que se dedica a interpretar os discutidos Painéis de S. Vicente de Fora.
Fotografias de Ana Nunes
Sessão Cultural - 31 janeiro 2012

O Presidente da Academia de Marinha lamentou o falecimento, ocorrido no domingo anterior, do Académico Henrique Afonso da Silva Horta, membro efectivo da Classe de Artes, Letras e Ciências. Em breves palavras o Presidente evocou a brilhante carreira naval, as qualidades de Marinheiro e a longa colaboração com os Anais do Clube Militar Naval do Vice-almirante Silva Horta. Em sua memória foi guardado um sentido minuto de silêncio.
O Almirante Vieira Matias referiu ainda a passagem do 75º aniversário da Revista de Marinha, cujas comemorações decorriam em simultâneo nas instalações do Clube Militar Naval, tendo enaltecido a sua dedicação “às questões do mar e das várias Marinhas”, e saudado o seu Director, membro da Academia.
Seguiu-se a apresentação da conferência “Os espaços estratégicos de interesse nacional” pelo Académico João José Brandão Ferreira.

O orador começou por elencar os que considera serem os principais erros estratégicos cometidos pelo poder nos últimos 35 anos, em Portugal, nos âmbitos psicológico, político, da soberania, da justiça, económico, dos transportes, financeiro e social. Prosseguiu definindo as diferentes fronteiras que hoje devem ser consideradas, e que disse serem as da Soberania, da Segurança, dos Interesses, das Vulnerabilidades, da Globalidade e da Solidariedade. Na introdução ao tema da palestra mostrou, recorrendo a mapas, os actuais espaços estratégicos de interesse nacional, depois de ter circunstanciadamente explicado quais são os seus objectivos.
Na parte final da sua intervenção, o Tenente-coronel Brandão Ferreira abordou a temática da adesão à Comunidade Económica Europeia, e mais tarde ao Euro, e deu a sua visão das consequentes implicações para Portugal em termos de soberania, economia, demografia, imigração, sociedade e ética.
A terminar, citando o Prof. Adriano Moreira na sua obra O Novíssimo Príncipe, disse que “A Pátria não se escolhe, acontece […] Mas ninguém pode ser autorizado a tentar a sua destruição, e a colocar o partido, a ideologia, o serviço de imperialismos estranhos, a ambição pessoal, acima dela.”
O Presidente lembrou que a Academia é um espaço de opinião livre, dando início a um debate bastante vivo e participado. No final, o Almirante Vieira Matias disse que falta um conceito estratégico nacional, razão pela qual “andamos à deriva”, salientando que há recursos para todos mas que não temos sabido utilizá-los e que “Temos que ter ambição, porque os recursos são fonte de poder”.
A terminar, o Presidente da Academia disse acreditar “nos Portugueses quando são bem liderados”.
Fotografias de Ana Nunes
Sessão Cultural - 24 janeiro 2012

O Presidente Vieira Matias congratulou-se com o recente lançamento de mais um volume de Portuguese Sea Battles, do Comandante Armando Saturnino Monteiro, versão em inglês da sua obra Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa. O Almirante salientou a “importância deste extraordinário trabalho”, felicitando e agradecendo ao Autor pelo que tem feito para “dar a conhecer ao mundo o que foi a História Marítima do nosso país”.
O Presidente informou ainda ter tido a boa notícia de que o Prof. John Cann cedeu à Academia de Marinha os direitos de autor para uma edição em português da nova versão do seu livro Brown Waters of Africa, em que foram incorporadas as sugestões oportunamente feitas pela Academia.
A conferência “O Euro e o federalismo europeu” foi apresentada em conjunto pelos académicos Eduardo Serra Brandão e Carlos Rebelo Duarte.
Na primeira parte o Académico Serra Brandão historiou o longo processo de construção europeia, sonho antigo com uma primeira expressão num projecto de “Nova Europa”, apresentado pelo rei da Boémia ao rei de França no século XV, seguido por diversas tentativas mal sucedidas, “porque começavam ou acabavam sempre em guerra”. Apenas em 1957, com a assinatura do Tratado de Roma instituindo a Comunidade Económica Europeia, se concretizou a ideia de uma Europa unificada. “Pretendia-se a criação de uma Europa organizada, estreitando as relações entre os povos que a compõem e criando condições para que os pequenos países pudessem limitar o poder dos grandes”, disse o Cte. Serra Brandão.

Os desenvolvimentos posteriores, os sucessivos tratados, os alargamentos e as circunstâncias que conduziram à presente situação foram abordados pelo orador. “O tempo urge no encontro de um verdadeiro caminho para um certo federalismo ou pelo menos para a sobrevivência da unidade e o regresso à solidariedade europeias”, disse. “Teremos mais reduções à soberania, mas todos sabíamos que a comunidade europeia se traduziria, até certo ponto, no enfraquecimento dos poderes nacionais”, disse o Académico Serra Brandão a terminar uma brilhante exposição.
“A nível global, a Primavera árabe e a crise do euro […] foram os traços marcantes de 2011. Traços de um mundo que vive a maior transformação das relações económicas, sociais e políticas, desde o pós-guerra, e no qual a Europa, ainda a região mais rica e qualificada a nível global, não tem conseguido arquitectar uma saída eficaz para a crise e, muito menos, definir uma estratégia de resposta aos desafios do século XXI, com especial destaque para a globalização competitiva que a assola”, começou por dizer o Vice-almirante Rebelo Duarte na introdução ao tema da sua palestra. Relativamente às dívidas soberanas, disse mais à frente que “Se não aparecerem respostas credíveis para a crise […], a colocar em risco o próprio euro, é o projecto europeu que poderá ficar ameaçado de desconstrução”.

Finda a introdução e depois de uma breve resenha histórica sobre o projecto europeu, o orador debruçou-se sobre a União Económica e Monetária e o Euro, prosseguindo com uma circunstanciada análise da integração política. Seguidamente fez uma especulação prospectiva sobre o futuro da Europa – prisioneira da sua génese nacionalista, das realidades diversas que inviabilizam o “melting pot no curto e médio prazo”, do papel determinante da Alemanha, das tensões entre condicionalismos nacionais e estratégias comunitárias continuarem a ser uma realidade, revelando não acreditar que o federalismo europeu seja possível antes de três ou quatro gerações.
Relativamente aos imensos recursos do mar, Portugal deverá tomar a iniciativa de encontrar boas parcerias para o seu aproveitamento, disse, chamando a atenção para o perigo de, não o fazendo, ser a directório europeu a assumir a utilização daqueles.
Na parte final, afirmou que “O euro manter-se-á porque o seu desaparecimento arrastaria consequências verdadeiramente dramáticas para a UE e para cada um dos Estados-membros, encorajando a que tudo se faça para evitar o fim do sonho europeu”, disse antes de concluir que “É verosímil que, no médio prazo, a UE não se torne num Estado federal, mas também não pode degenerar numa mera e acomodada aliança de estados, devendo, antes, manter-se como união dinâmica e evolutiva. […] Este é o tempo e a circunstância em que a Europa precisa de aprender com a História e de olhar para o futuro com objectivos e estratégias claras, afirmando-se, num patamar de União solidária, coesa e convergente, e na Defesa também … com a “solidariedade transatlântica”. De tudo isto, dependerá a prosperidade dos seus povos […], bem como a sua relevância na cena internacional.”
A encerrar o debate subsequente, muito participado, o Presidente Vieira Matias reafirmou a necessidade de reformular o articulado do Tratado de Lisboa, no que se refere à gestão e utilização dos recursos da biodiversidade nas colunas de água das ZEE dos Estados-membros, o que é especialmente lesivo da soberania e dos interesses de Portugal, colocando-nos numa excessiva subordinação política ao centralismo de Bruxelas.

Fotografias de Ana Nunes
In memoriam do Almirante Max Justo Guedes

Em 17 de Janeiro de 2012 teve lugar no auditório uma Sessão de Homenagem In memoriam do Almirante Max Justo Guedes.
A abrir a sessão, o Presidente Vieira Matias disse pretender a Academia, após o choque suscitado pela “inesperada notícia da morte do nosso Membro Emérito Max Justo Guedes”, em 8 de Novembro passado, evocar “a figura do intelectual e do amigo”, pela voz de “três académicos que bem o conheceram e que muito o consideravam”, e aos quais agradeceu as intervenções que se seguiriam.

O Almirante Vieira Matias recordou a ligação “à Academia de Marinha tão profunda que vinha desde as nossas raízes […], o então Comandante Max Justo Guedes integrou o primitivo Grupo de Estudos de História Marítima desde a sua eleição, como membro Efectivo, na Sessão de 19 de Fevereiro de 1970, sendo o primeiro não português a pertencer aos seus quadros, muito embora, estatutariamente, equiparado a cidadão nacional”. “Foi elevado a Membro Emérito na Sessão da Assembleia de Académicos de 20 de Abril de 1995. Manteve, por conseguinte, uma presença dilatada por um período de quase 42 anos, em que nos visitou regularmente e acolheu no Brasil, sempre com assinalável hospitalidade, os seus pares e demais estudiosos da História Marítima que frequentemente convidava”, disse o Presidente, continuando: “A sua colaboração como académico foi prestimosa. Para além de seis comunicações aqui apresentadas em Sessões, publicadas em separata e nas respectivas Memórias, participou no I Simpósio de História Marítima, proferindo em 11 de Dezembro de 1992 a sua conferência de Encerramento”.
“Como colaborador da História da Marinha Portuguesa, obra desta Academia, foi coordenador do volume «A viagem de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil, 1500-1501», lançado em Dezembro de 2003, para o qual redigiu a Parte I em dois copiosos Capítulos.”
A terminar, e antes de passar a palavra aos Académicos Estácio dos Reis, Inácio Guerreiro e Dias Farinha, o Presidente da Academia citou Vera Tostes, directora do Museu Histórico Nacional, do Brasil: “… o mundo lusófono perde um amigo entusiasmado com a pesquisa e a produção do conhecimento. Fica uma lacuna no saber da nossa História.”

Na primeira intervenção, feita pelo Académico Emérito António Estácio dos Reis, e intitulada “Max Justo Guedes, o Homem e o Marinheiro”, o orador fez jus ao título recorrendo às suas recordações pessoais dum convívio de largos anos. Aludiu, designadamente, a pormenores que remontam à infância do homenageado, trazendo à colação curiosos episódios que lhe foram relatados em primeira pessoa pelo próprio. Entre muitos exemplos da amizade que nutria por Portugal, referiu o Comandante Estácio dever-se ao Almirante Max Justo Guedes a oferta, pelo Governo Brasileiro, do primeiro astrolábio do acervo do Museu de Marinha, bem como o sucesso da exposição Portugal-Brazil. The Age of Atlantic Discoveries, realizada em 1990 na Biblioteca Pública de Nova Iorque.
A terminar, o orador referiu que a sua “obra imensa […] ficou desoladamente inacabada. Assim como ficou vazia e, parada para sempre, a cadeira de baloiço onde Max, já cansado e doente, repousava, em sua casa, ao fim de um dia de exaustivo trabalho”.
A segunda intervenção, intitulada “Ciência Náutica e Cartografia na Obra de Max Justo Guedes”, coube ao Académico Emérito Inácio José Guerreiro, que começou por referir como em 1970 conheceu o Comandante Max Justo Guedes no II Colóquio Luso-Brasileiro de História do Brasil, em Lourenço Marques.

O orador falou circunstanciadamente dos diversos encontros científicos em que privou com o homenageado, atestando a relevância das suas contribuições e iniciativas para o estudo das matérias a que o título da sua comunicação aludia. Referiu, designadamente, a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, de cuja Comissão Cultural fez parte o Almirante, e o concomitante Congresso sobre “Os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento”, a “IV Reunião Internacional de História da Náutica e da Hidrografia” e o “Colóquio sobre as Razões que levaram os Povos Ibéricos a adiantarem-se na Expansão Mundial no século XV”.
O Doutor Inácio Guerreiro referiu ainda a importância do Almirante Max Justo Guedes na dinâmica da prossecução das reuniões da Comissão Internacional de História da Náutica, cuja presidência assumiu a partir da VI Reunião, em Sagres, no ano de 1967.
“Inestimável noutras áreas”, disse o orador, foi a sua colaboração nos Seminários Internacionais de História Indo-Portuguesa e nas Reuniões Internacionais de História de África. Prosseguiu com diversos outros exemplos da intensa actividade académica e científica do Almirante Max Justo Guedes, salientando a importância do seu contributo para a história da náutica e da cartografia, nomeadamente.
A última conferência, intitulada “O Descobrimento do Brasil na obra de Max Justo Guedes”, foi apresentada pelo Académico Emérito António Dias Farinha.
A obra do Almirante Max Justo Guedes sobre o descobrimento do Brasil foi a segunda que deu à estampa, disse o orador. A primeira, de 1963, tratara das Derrotas dos Grandes Navegadores, onde logo ilustrou a ciência do navegador e a paixão da História.
Para entender os Descobrimentos portugueses, prosseguiu o Prof. Doutor Dias Farinha, o Almirante descreveu “o clima político que condicionou as navegações portuguesas do século XV, prestando particular atenção às bulas papais”.

A vasta obra de Max Justo Guedes sobre viagens e descobrimentos foi alicerçada pela carreira de marinheiro e capacidade de observação das condições físicas da navegação e, em particular, das que condicionam a chegada e o reconhecimento das costas e que permitem a identificação dos locais. A sua primeira obra contempla exactamente as rotas dos Grandes Navegadores, publicada em 1963, disse o orador, referindo que um dos seus estudos mais valiosos é A viagem de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil, 1500-1501, publicado pela Academia de Marinha em 2003. A distância de 37 anos entre o primeiro trabalho e este último permite “aquilatar as preocupações histórico-científicas do Autor e a evolução que o investigador probo e esforçado que era Max Justo Guedes não deixou de assumir”, acrescentou. Salientou, a terminar, o seu cuidado em exaurir as fontes cronísticas e de arquivo, e a “preparação teórica, bebida na leitura dos teóricos e filósofos da História”.
Terminada a apresentação das conferências, e após breves intervenções da assistência, o Presidente da Classe de História Marítima, que é actualmente o Presidente da Comissão Internacional de História da Náutica, referiu que tudo será feito no sentido de serem publicadas as Actas – ainda em falta – da X Reunião, organizada pelo Almirante Justo Guedes e que decorreu no Rio de Janeiro em 2000. O Prof. Doutor Francisco Contente Domingues acrescentou ainda que as Reuniões da História da Náutica tiveram início em 1968 com um encontro científico que não se repetiria em princípio, mas que acabaram por ter continuidade regular graças ao empenho do Almirante Max Justo Guedes, o qual viria a suceder ao primeiro presidente da Comissão Internacional de História da Náutica, Prof. Doutor Luís de Albuquerque.
A encerrar a sessão, o Presidente Vieira Matias agradeceu a presença do Adido de Defesa e Naval brasileiro, em representação do Embaixador do Brasil, e expressou a sua satisfação pela qualidade das intervenções com que a Academia de Marinha prestou homenagem à memória do seu ilustre Académico Emérito.
Fotografias de Ana Nunes
Sessão Cultural - 10 janeiro 2012

A primeira sessão de 2012 começou com uma breve cerimónia de entrega de diplomas a académicos eméritos e efectivos.
Seguiu-se a apresentação da comunicação “Um lugar para Portugal na Revolução Científica dos séculos XVI-XVII?”, pelo Académico Henrique Sousa Leitão.
A historiografia internacional tem geralmente ignorado quaisquer contributos portugueses (e, mais geralmente, espanhóis) no surgimento da ciência moderna, começou por dizer o orador, explicando que, apesar de no passado alguns historiadores nacionais terem tentado argumentar a favor da importância de Portugal nas fases preparatórias da Revolução Científica, esses argumentos nunca foram efectivamente incorporados na grande narrativa histórica da ciência. Nas últimas décadas, prosseguiu, foram no entanto tão profundas as alterações nos pressupostos e nas teses historiográficas mais respeitadas que os Ibéricos começaram a surgir como protagonistas de imenso interesse da Revolução Científica. O orador resumiu estes desenvolvimentos e explicou porque é que, do ponto de vista histórico, a situação actual é especialmente favorável para sublinhar a relevância dos contributos dos portugueses do século XVI.
Muito participado, o debate subsequente fez jus ao brilhantismo da palestra.

Fotografias de Ana Nunes
Sessão Solene comemorativa do 50º aniversário dos Combates Navais da Índia

Em 20 de Dezembro decorreu na Academia de Marinha uma Sessão Solene comemorativa do 50º aniversário dos Combates Navais da Índia, sob a presidência do Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante José Carlos Saldanha Lopes.
Nas palavras que proferiu, após agradecer e saudar a presença do Almirante CEMA, e endereçar cumprimentos aos combatentes sobrevivos e aos familiares dos já desaparecidos, o Presidente Vieira Matias disse que ao realizar esta sessão, na linha de outra que teve lugar há dez anos, visava a Academia de Marinha o duplo propósito de homenagear “os últimos heróis marinheiros da Índia Portuguesa” e de recolher as memórias vivas do que foi aquele dia 18 de Dezembro de 1961 no Estado Português da Índia.
Depois de agradecer aos conferencistas “a pronta disponibilidade manifestada para darem a sua prestimosa colaboração a este evento”, o Almirante Vieira Matias relembrou os acontecimentos dramáticos ocorridos naquele mesmo ano em Angola, e contou como, ao saber da invasão, lhe vieram à memória as figuras do Comandante Cunha Aragão e do Tenente Oliveira e Carmo, este último uma referência para todos os cadetes que praticavam remo de competição.
A terminar, disse o Presidente que a Academia de Marinha se sentia “hoje particularmente realizada com esta sessão, por nela poder relembrar, com orgulho, Portugueses que souberam honrar a sua Pátria, cumprindo sem mácula o juramento que um dia tinham feito perante a nossa Bandeira. Aqueles que, na expressão do nosso académico Adriano Moreira, aqui proferida há dez anos, «apenas ajoelharam perante o altar da Pátria»”.

“A ocupação de Goa em 1961. Os antecedentes” foi o título da comunicação apresentada pelo Académico Honorário Eduardo Serra Brandão.
Começando por fazer a contextualização geopolítica no período compreendido entre o pós-guerra de 1939-45 e a invasão de 1961, o orador prosseguiu expondo as linhas orientadoras seguidas pela diplomacia Portuguesa ao longo daqueles anos, e que visavam conservar o Império Português quando a evolução mundial já seguia um curso adverso ao que se entendia ser o interesse nacional. Referiu a ocupação, em 1954, dos nossos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, seguida do abandono pela França, em 1957, dos seus quatro enclaves de Pondichéri, enfraquecendo assim a posição portuguesa e prenunciando o que de pior estaria para acontecer. Chegado ao ano de 1961, o orador falou da forma como o Governo Português se preparou para enfrentar a iminente invasão, retirando de Goa as famílias dos militares, cujo contingente havia sido, apenas poucos meses antes, reduzido em mais de metade dos seus efectivos, por terem sido transferidos para África e para Timor.
Quase a terminar, o Comandante Serra Brandão leu o último parágrafo da carta memorável de Salazar ao Governador do Estado da Índia, General Vassalo e Silva: “É horrível pensar que isso pode significar o sacrifício total, mas recomendo e espero esse sacrifício como única forma de nos mantermos à altura das nossas tradições e prestarmos o maior serviço ao futuro da Nação. Não prevejo possibilidade de tréguas nem prisioneiros portugueses, como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”.

A segunda conferência foi feita pelo Vice-almirante José Manuel Correia Mendes Rebelo, com o título “Os últimos dias do NRP Afonso de Albuquerque e o combate de 18 de Dezembro de 1961”. À época Primeiro-tenente e Chefe do Serviço de Electrotecnia do NRP Afonso de Albuquerque, o orador falou acerca dos territórios do Estado Português da Índia, dos acontecimentos relevantes no período de 18 de Março de 1960 a 17 de Dezembro de 1961, e prosseguiu com a narrativa dos factos ocorridos no combate naval de 18 de Dezembro, no internamento subsequente e no posterior repatriamento.
Em notas finais, o Almirante Mendes Rebelo falou de dois acontecimentos “que não poderão ser esquecidos dada a grave ofensa que constituíram para os portugueses ex-prisioneiros”. O primeiro foi a forma como foram recebidos ao desembarcarem na Doca de Alcântara, ao longo de cujo cais se encontravam alinhados militares com as armas empunhadas e apontadas para o navio. Algum lenitivo para esta mágoa teria contudo a guarnição do Afonso de Albuquerque: com efeito, transportados de Alcântara para a Doca da Marinha, foram ali recebidos pelo Ministro da Marinha, Almirante Quintanilha e Mendonça Dias e pelos Almirantes no activo. O segundo prende-se com o parecer emitido por um ministro da Defesa Nacional de um governo do Eng. Guterres em que, volvidos quase 40 anos, lhes foi recusado o reconhecimento do “estatuto de prisioneiros ou capturados em combate”, sonegando-lhes assim o direito de reparação que a Lei 34/98, aprovada por unanimidade na Assembleia da República, lhes concederia.

Na terceira parte da sessão, o capitão-de-mar-e-guerra EMQ José Vitoriano Cabrita, que em 1961 era Segundo-tenente e desempenhava as funções de Adjunto do Chefe do Serviço de Máquinas do Afonso de Albuquerque e de Chefe do Serviço de Limitação de Avarias, entrevistou três elementos da guarnição do NRP Vega, actualmente Sargentos na situação de reformados, que participaram no combate travado entre o seu navio e aviões da Força Aérea da União Indiana, e que, tendo sobrevivido ao ataque, conseguiram chegar a terra após largas horas a nadar contra o vento e as correntes.

Foram entrevistados: Armando Cardoso da Silva, Marinheiro Fogueiro Motorista, que contou, entre outras peripécias, como deu o alarme inicial na Baía de Nagoá e sobreviveu ao afundamento após nadar sete horas rebocando uma balsa na qual se encontravam três dos seus camaradas; o Marinheiro Electricista Francisco Mendes de Freitas, que relatou a sua visão dos acontecimentos desde que o navio fundeou junto à Fortaleza de Diu, e como passou sete horas na balsa rebocada pelo Marinheiro Armando Silva, dando-lhe instruções sobre a direcção a seguir para terra; e o municiador da peça antiaérea Oerlikon, o Grumete Artilheiro Venâncio Ramos, que falou da forma como começou e se desenrolou o combate aeronaval, ao longo de cerca de 40 dramáticos minutos, e como conseguiu chegar a terra firme, ferido numa perna.
No final destas entrevistas feitas pelo Engenheiro Vitoriano Cabrita, que referiu as condecorações que foram atribuídas aos presentes, aos feridos e aos falecidos em combate, a assistência levantou-se e aplaudiu longa e sentidamente.
Antes de encerrar a sessão, o Presidente da Academia de Marinha disse que “o que acabamos de ouvir e ver faz bem à nossa alma que queremos grande e autêntica de Portugueses. Esperemos que os ecos da emoção aqui vivida ultrapassem os limites destas paredes.
Para quê mais palavras, além das de renovados agradecimentos a todos os intervenientes nesta sessão e também das de um convite final. O convite para, em memória dos mortos dos NRP Vega e Afonso de Albuquerque, entoarmos com convicção os HERÓIS DO MAR.”
A sessão terminou com o Hino Nacional tocado por uma delegação da Banda da Armada e cantado por uma emocionada assistência.

Fotografias de Cabo FZ Carmo
Sessão Cultural - 13 Dezembro 2011

Na segunda e última sessão do ciclo dedicado à Estratégia, foi apresentada a conferência “Revisitar a Diplomacia Naval”, pelo Académico Vice-almirante Victor Lopo Cajarabille.
Depois de definir o que é política externa, o orador falou de diplomacia, enquanto um dos instrumentos pacíficos daquela, caracterizando-a e mostrando os aspectos que pode assumir. No caso da diplomacia naval em particular, falou das diversas formas como pode ser exercida, desde a “diplomacia do porta-aviões” até à cooperação aliada, passando, entre outras, pelo apoio à paz e assistência humanitária. Citou vários autores quando falou das perspectivas da diplomacia naval e explicou o seu redefinido conceito – o “conjunto de funções exercidas por forças navais, tendo em vista o apoio a acções de política externa do Estado, mas excluindo o conflito armado”, e prosseguiu falando dos seus objectivos gerais, e dos mais frequentes, e das aptidões especiais das forças navais.

Caracterizou as acções típicas da diplomacia naval, actualmente inseridas num contexto de forte ligação do mar à economia, de ameaças à segurança no mar e num ambiente de incerteza e crescente complexidade, sofrendo as influências inevitáveis da globalização. Na parte final da sua exposição, o Vice-almirante Lopo Cajarabille falou das novidades da diplomacia naval, da cooperação e do retorno do investimento que possibilita, afirmando ser a Marinha a “única organização que domina o meio marítimo de forma integrada”.
No debate subsequente foram dados interessantes testemunhos de acções de diplomacia naval, nomeadamente na evacuação de civis na Guiné e no âmbito das viagens do navio-escola Sagres.
Fotografias de Ana Nunes
Sessão Cultural - 6 Dezembro 2011

Na primeira sessão de um curto ciclo sobre Estratégia, foi apresentada pelo Capitão-de-fragata Luís Nuno Sardinha Monteiro a comunicação “Sir Julian Stafford Corbett: o Clausewitz da Estratégia Marítima”, expondo as suas reflexões por ocasião do centenário da publicação Some Principles of Maritime Strategy, daquele autor.

Começou por falar das tendências, à época, na aplicação do poder naval e marítimo, em que a importância das marinhas estava ligada à capacidade para influenciar os acontecimentos em terra e a principal função do poder marítimo deveria ser a protecção do tráfego efectuado por mar. Corbett contribuiu com um texto para o livro Some neglected aspects of war, publicado por Mahan em 1907, mas “não se limitou a acolher as ideias de Mahan – aprofundou-as e refinou-as através de pesquisa histórica complementar e de ponderação de aspectos adicionais de outras teorias, nomeadamente de Clausewitz”, disse o académico Sardinha Monteiro. Após mostrar as principais diferenças dos conceitos sobre estratégia seguidos pelos dois autores, e traçar uma resenha biográfica de Corbett, o orador desenvolveu detalhadamente o pensamento estratégico deste último, fazendo a sua aplicação a alguns dos mais importantes combates navais da história moderna e contemporânea. “O maior valor dos escritos de Corbett não reside naquilo que ele escreveu, mas sim na moderação e na ponderação que habitam tudo o que escreveu”, disse a terminar.
A encerrar a sessão, após o habitual debate, o Presidente Vieira Matias entregou ao Comandante Sardinha Monteiro o diploma de Académico Correspondente.
Fotografias de Ana Nunes