Page 30 - Revista da Armada
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NOVAS HISTÓRIAS DA BOTICA (16)
O Atlântico raramente é PacÃfico
Os direitos de cada um constituem
acalorada fonte de discussão en- mundial. Basta ver quantos produtos ele- Não permitiu uma reestruturação econó-
tre nós e, genericamente, no mun- trónicos, em nossa casa, são feitos naquele mica que nos defenda da situação atual.
do ocidental. Foi na Europa Ocidental (… paÃs, e que se cuidem os fabricantes euro- Não aumentou (muito pelo contrário) a
eu prefiro o epitáfio de Europa Atlântica) peus de automóveis, pois também aà a Eu- confiança nos nossos polÃticos e apesar de
que se definiu a segurança social, con- ropa se deve preparar para perder terreno. o paÃs se ter desenvolvido isso deveu-se a
cebida como uma almofada para tempos dinheiro externo (e mesmo assim muito
difÃceis. Foi na Europa, ainda, que se de- Vem este pequeno introito a propósito mal aproveitado…). Pode-se afirmar (sem
finiram marcos de bem-estar como uma da redução real (galopante) dos nossos sa- grande ofensa), que não somos, como paÃs,
Saúde Pública, suportada pelas contribui- lários. De certo modo é um acordar para muito consistentes e que perdemos uma
ções de todos. a realidade. Ora, alguém, não percebeu oportunidade histórica (que muitos outros
que toda esta deslocalização de tecnolo- povos gostariam de ter tido)…
Nos paÃses orientais, na orla do PacÃfico, gia teria sérios custos…a génese da crise
ao contrário, poucos se preocuparam com na minha humilde opinião…A aceitação A menos que se anteveja um milagre não
pormenores como o apoio aos desempre- (natural para muitos de entre nós) de que parece que esta crise económica se resol-
gados, ou uma Saúde gratuita e universal. os chineses poderiam trabalhar ao preço va facilmente. A Europa está seca (exceto a
Ao contrário a industrialização foi sempre de feijões, mas nós europeus, estarÃamos Alemanha, o único paÃs que ainda produz
baseada na premissa mais simples: a do acima daquela condição, provou-se pro- em território próprio produtos que são am-
maior lucro…rápido e a qualquer custo. fundamente errada… bicionados ativamente pelo Mundo), não
Os trabalhadores aceitam qualquer traba- há colónias e São Sebastião foi perdido há
lho e estão dispostos a trabalhar por mui- Trata-se de uma outra forma de interpretar muito no Norte de Ãfrica…
to pouco e sem quaisquer regalias. Não a globalização: a da ascensão dos pobres e
existem regras de trabalho bem definidas o relativo empobrecimento dos ricos. Neste Talvez a solução para o Atlântico no seu
(que no Atlântico custaram inúmeras ho- equilÃbrio mesmo os mais céticos acharão todo seja tornar-se mais PacÃfico. Aceitar
ras de negociações e uma rÃgida legislação alguma justiça, pois é o trabalho árduo que alguns dos sacrifÃcios, exigir uma maior
laboral), não há horário de trabalho, não faz as nações e as pessoas…e ninguém, de distribuição da riqueza, sob o risco de fi-
há regalias sociais, recebe-se à semana boa-fé, deveria invejar os orientais por atin- carmos divididos entre os muito ricos e
(para facilitar o despedimento) e, em gran- girem o bem-estar a que a maioria de nós os extremamente pobres e acreditar que
de parte daqueles paÃses, não há tribunais tem (…ou tinha) como adquiridos… aparecerão polÃticos com a coragem para
de trabalho… trabalhar por Portugal…E, sim, não restam
Acredito que estamos num tempo his- agora dúvidas emigrar fará decididamente
Nos paÃses do PacÃfico produz-se, gra- tórico, que conduzirá a uma nova ordem parte do currÃculo de um grande número
ças aos baixos custos de produção, muito mundial. Ora estas mudanças são sempre de jovens…È a “Valise Samsonite†em vez
mais barato e a uma fração do preço do precedidas por perÃodos de grande convul- da “Valise en Carton†de outros tempos…
Atlântico. E, para maximizar o seu próprio são e sofrimento social. Como militares, só os portugueses são os mesmos….com
lucro, as empresas do Atlântico passaram admito daqui, teremos que estar particular- as mesmas razões para partir…
produzir quase tudo no PacÃfico. Não se mente atentos. Como disse recentemente
pense que estamos a falar de produtos de Adriano Moreira, que humildemente ouso Restam-nos sempre as grandes vozes do
baixa qualidade, não senhor, por detrás citar, quase sempre depois de estes perÃo passado, uma vez que Portugal nunca foi
de cada marca de qualidade do ociden- dos de crise houve uma guerra de con- pequeno na Alma, Camões, Eça de Quei-
te, de eletrónica, automóvel, vestuário de sequências gravosas…Foi depois de um roz e muitos outros testemunharam crises
luxo e até de muito material médico, há perÃodo semelhante e de uma Alemanha semelhantes no seu tempo. É a eles que re-
um dizer de letras pequenas que expõe o pobre e sem liderança, que Hitler ascen- corro quando o presente parece irracional
verdadeiro “Made in Chinaâ€. Quase tudo deu ao poder… e incompreensÃvel…
o que na Europa Atlântica agora se conso-
me é feito noutra região do Mundo. Nin- A nossa democracia, vista pela perspe- î¨
guém se parece preocupar aqui com as tiva de hoje, também parece ter falhado. Doc
condições de trabalho de lá, desde que o
preço compense… NOTÃCIA
Nasceram, assim, os dragões do Oriente, Prémio à Armada Espanhola O aluno premiado com o CMG
dos quais a China, pela dimensão gigantes- Manolo Cela Murais.
ca, ascendeu ao estatuto de potência mun- l O prémio de reciprocidade entre a Armada Espanhola
dial. O Atlântico, que para muitos estaria e a Marinha Portuguesa é atribuÃdo anualmente, desde
protegido pelos direitos da propriedade in- 1981, aos alunos da Escuela Naval Militar e da Escola
telectual (dos produtos que os orientais fa- Naval que tenham obtido as mais elevadas classificações
bricam em grande quantidade) esqueceu- (ou elevado empenho, se não for um aluno da classe de
-se de que no PacÃfico também se pensa, Marinha) nas cadeiras de Tática e Operações Navais.
também há ciência e também existe a ca-
pacidade de desenvolver marcas próprias. Este ano o prémio da Marinha Portuguesa foi atribuÃÂ
PaÃses outrora pobres e até de dimensão re- do ao alférez de Intendencia Jesús Javier Barcala San
duzida, como a Coreia do Sul, tecnologi- Román e consistiu num astrolábio que lhe foi entregue
camente dependentes do Ocidente, passa- numa cerimónia realizada a 14 de julho na Escuela NavaÂl
ram rapidamente ao estatuto de potências Militar, Marin, provÃncia de Pontevedra, integrada nas
económicas – com empresas de renome celebrações em honra da Nossa Senhora do Carmo, paÂ
droeira da Marinha espanhola.
30 SETEMBRO/OUTUBRO 2012 • Revista da Armada

