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NOVAS HISTÓRIAS DA BOTICA (17)
Aos homens perfeitos…
Felicidade é a certeza de que a nossa vida Eu, um simples homem aprendi na vida, na me- Ocorreu-me a propósito da definição de Fe-
não está se passando inutilmente dicina e nos navios que para assegurar a segurança licidade de Erico VerÃssimo, que a Felicidade do
são precisas redundâncias, nos vários sistemas. As paÃs a que pertencemos se deveria descrever do
Erico VerÃssimo, Olhai os LÃrios do Campo redundâncias não são caminhos inúteis. São formas seguinte modo:
de salvar vidas quando as vias principais – por mais
Sou muitas vezes (por vezes acredito que ve- seguras que pareçam – falham… Num navio inglês – A Felicidade de Portugal deve definir-se pela
zes demais…) confrontado com as minhas em que brevemente embarquei (uma fragata), fiquei certeza que os polÃticos não vão passando pelo
próprias escolhas. Noutras vezes são outros muito agradado quando o Imediato, a propósito de poder inutilmente
que, nesta guerra sem quartel em que vivemos, me estratégias de limitação de avarias, sacou de um li-
confrontam com elas. Assim admito que o mesmo vro em que estavam os registos de todos os meios DevÃamos, como povo, exigir pelo menos um
se passa com todos nós exceto com alguns seres usados pela Royal Navy no combate a incêndios e sentido pedido de desculpas, como exigimos a
extraordinários, para os quais a vida esteve sem- começou por enumerar aqueles que foram inefica- quem nos empurra na rua, a quem não nos res-
pre recheada de certezas e raramente, se alguma zes e o porquê da ineficácia. Para cada estratégia peita na estrada, a quem nas pequenas trivialida-
vez, se enganam… haviam alternativas e havia alguém responsável pela des não nos mostrou a deferência que merecemos
escolha considerada melhor, em cada ocasião… como seres humanos… No presente momen-
Essas escolhas aplicam-se na vida pessoal, mas to, essas desculpas eram nossas por direito. Se-
também na vida de uma região e até de um paÃs. Não foi, portanto, com surpresa que vi na BBC riam um ponto de partida para a paz que muitos
Ora na nossa nação é – acredito profundamente – (e depois na nossa televisão) um polÃtico inglês a desejam. Dariam outra face a homens de fatos
chegado o tempo de confrontar as escolhas. Parti- pedir desculpa ao eleitorado por ter faltado ao pro- azuis, cheios de notÃcias amargas, só possÃveis
cularmente confrontar as escolhas que muitos po- metido na campanha eleitoral. Parece que poste- no filme de horror que agora preenche o nosso
lÃticos e os partidos (que se mantiveram ao longo riormente foi ridicularizado, mas, ainda assim, o imaginário…
das últimas décadas) fizeram por nós. Olhar para o ato ficou…E acredito que tal como o Imediato su-
passado é, ou deveria ser, uma forma de preparar o pracitado ganhou a cultura de responsabilização… Não gosto de homens perfeitos. Prefiro aqueles
futuro… É com esta forma de pensar que crescem que se enganam, que gostariam de ter – pelo me-
os grandes homens, que se solidificam laços fami- No nosso paÃs, ao contrário, ainda não vi um nos algumas vezes na vida – seguido outros cami-
liares e se tornam consistentes os paÃses… qualquer polÃtico ou partido polÃtico pedir descul- nhos. Gosto de homens que pedem perdão. Gosto
pa. Nunca vi alguém afirmar pura e simplesmente de homens que vendam esperança, verdade, cami-
Acontece que na discussão pública da tragédia o engano que agora condena muitos ao sofrimento, nhos e alternativas, em vez de desespero. Tenho a
económica que nos rodeia, da angústia que aflige especialmente o sofrimento daqueles que menos certeza de que homens assim não passariam por
a maioria e da única certeza que atinge Portugal ao se “souberam defenderâ€, nos anos de vacas gor- nós inutilmente… É um paradiÂgma que teremos
momento (…e que se poderia resumir na maior das das. Ninguém que teve poder nos últimos 20 anos que, definitivamente, exigir…
incertezas…), nunca se discutem as opções do pas- foi capaz de pedir desculpa aos portugueses. Os
sado recente. Nunca se discutem as linhas econó- dirigentes vão-se sucedendo nos vários partidos E, é claro, desculpe lá o leitor anónimo mais este
micas que nos levaram ao descalabro em que agora e, assim como que por artes mágicas, temos que desconchavado desabafo, deste português preocu-
nos encontramos, sustentadas então por economis- passar uma esponja em relação às ações daqueles pado… Na verdade fui criado com a noção de que
tas de renome, também eles cheios de certezas que que os antecederam (que representavam as mes- era sempre, sempre preciso assumir responsabili-
ascendiam nalguns casos ao estatuto de dogmas… mas cores, ideias e, por vezes, usavam os mesmos dades do passado para melhor construir o futuro…
As culpas são quase sempre do omnipresente “Ex- exatos chavões vazios…) Diga o leitor de sua justiça…
terior†(fantasma mÃtico, qual Bojador inimputável).
î¨
Doc
Alpoim Calvão – Honra e Dever
Perante grande assistência, decorreu na Socie-
dade de Geografia de Lisboa no dia 11 de ou- tigação fosse encarada não como uma biografia, mas
tubro, o lançamento do livro “Alpoim Calvão
– Honra e Deverâ€, da autoria de Rui Hortelão, LuÃs como uma quase biografia, porque ainda se sentia
Sanches de Baêna e Abel Melo e Sousa, editado pela
Caminhos Romanos. longe do fim e que fosse integrado um civil no grupo
O evento foi aberto pelo Almirante Nuno Viei- de trabalho – por entender que isso contribuiria para
ra Matias que classificou a presente obra como um
contributo para a memória futura, dado ser basea- aumentar o sentido crÃtico.
da em factos reais e objetivos, o que permitirá com
maior incidência à juventude tirar as ilações que a Sobre este livro afirmaria o seu apresentador – Pro-
história fornece.
fessor Doutor Rui de Azevedo Teixeira – em determi-
De facto, o Comandante Guilherme Almor de Al-
poim Calvão é um dos protagonistas da História de nado passo: «Sendo uma obra de autor colectivo, Ã
Portugal das últimas décadas, pouco havendo escrito
sobre ele, além do que o próprio publicou no calor dos partida faria torcer o nariz ao leitor mais exigente. Par-
acontecimentos mais significativos em que participou.
ticularmente ao académico que tem a experiência da
O Comandante Calvão acedeu à iniciativa de dois
dos autores que, como ele, foram oficiais de Marinha estopada que pode ser, e normalmente é, ler, analisar
e fuzileiros, mas impondo três condições: que tudo o
que fosse escrito estivesse documentado; que a inves- e classificar um trabalho de grupo. Advindo, aliás, daÃ
a piada segundo a qual o camelo é um cavalo dese-
nhado por um grupo de trabalho. Mas não é esse o
caso presente. Bem pelo contrário. Este livro não tem
bossas. Os co-autores potenciaram-se mutuamente e a
obra surgiu…vitoriosa, francamente vitoriosa. Em boa
verdade, teria sido muito difÃcil a um só autor concluir
com sucesso um livro com o fôlego deste». î¨
Abel Melo e Sousa
CFR REF
Revista da Armada • NOVEMBRO 2012 29

