Page 29 - Revista da Armada
P. 29

NOVAS HISTÓRIAS DA BOTICA (17)

   Aos homens perfeitos…

  Felicidade é a certeza de que a nossa vida                Eu, um simples homem aprendi na vida, na me-          Ocorreu-me a propósito da definição de Fe-
não está se passando inutilmente                          dicina e nos navios que para assegurar a segurança    licidade de Erico Veríssimo, que a Felicidade do
                                                          são precisas redundâncias, nos vários sistemas. As    país a que pertencemos se deveria descrever do
               Erico Veríssimo, Olhai os Lírios do Campo  redundâncias não são caminhos inúteis. São formas     seguinte modo:
                                                          de salvar vidas quando as vias principais – por mais
Sou muitas vezes (por vezes acredito que ve-              seguras que pareçam – falham… Num navio inglês          – A Felicidade de Portugal deve definir-se pela
     zes demais…) confrontado com as minhas               em que brevemente embarquei (uma fragata), fiquei     certeza que os políticos não vão passando pelo
     próprias escolhas. Noutras vezes são outros          muito agradado quando o Imediato, a propósito de      poder inutilmente
que, nesta guerra sem quartel em que vivemos, me          estratégias de limitação de avarias, sacou de um li-
confrontam com elas. Assim admito que o mesmo             vro em que estavam os registos de todos os meios        Devíamos, como povo, exigir pelo menos um
se passa com todos nós exceto com alguns seres            usados pela Royal Navy no combate a incêndios e       sentido pedido de desculpas, como exigimos a
extraordinários, para os quais a vida esteve sem-         começou por enumerar aqueles que foram inefica-       quem nos empurra na rua, a quem não nos res-
pre recheada de certezas e raramente, se alguma           zes e o porquê da ineficácia. Para cada estratégia    peita na estrada, a quem nas pequenas trivialida-
vez, se enganam…                                          haviam alternativas e havia alguém responsável pela   des não nos mostrou a deferência que merecemos
                                                          escolha considerada melhor, em cada ocasião…          como seres humanos… No presente momen-
  Essas escolhas aplicam-se na vida pessoal, mas                                                                to, essas desculpas eram nossas por direito. Se-
também na vida de uma região e até de um país.              Não foi, portanto, com surpresa que vi na BBC       riam um ponto de partida para a paz que muitos
Ora na nossa nação é – acredito profundamente –           (e depois na nossa televisão) um político inglês a    desejam. Dariam outra face a homens de fatos
chegado o tempo de confrontar as escolhas. Parti-         pedir desculpa ao eleitorado por ter faltado ao pro-  azuis, cheios de notícias amargas, só possíveis
cularmente confrontar as escolhas que muitos po-          metido na campanha eleitoral. Parece que poste-       no filme de horror que agora preenche o nosso
líticos e os partidos (que se mantiveram ao longo         riormente foi ridicularizado, mas, ainda assim, o     imaginário…
das últimas décadas) fizeram por nós. Olhar para o        ato ficou…E acredito que tal como o Imediato su-
passado é, ou deveria ser, uma forma de preparar o        pracitado ganhou a cultura de responsabilização…        Não gosto de homens perfeitos. Prefiro aqueles
futuro… É com esta forma de pensar que crescem                                                                  que se enganam, que gostariam de ter – pelo me-
os grandes homens, que se solidificam laços fami-           No nosso país, ao contrário, ainda não vi um        nos algumas vezes na vida – seguido outros cami-
liares e se tornam consistentes os países…                qualquer político ou partido político pedir descul-   nhos. Gosto de homens que pedem perdão. Gosto
                                                          pa. Nunca vi alguém afirmar pura e simplesmente       de homens que vendam esperança, verdade, cami-
  Acontece que na discussão pública da tragédia           o engano que agora condena muitos ao sofrimento,      nhos e alternativas, em vez de desespero. Tenho a
económica que nos rodeia, da angústia que aflige          especialmente o sofrimento daqueles que menos         certeza de que homens assim não passariam por
a maioria e da única certeza que atinge Portugal ao       se “souberam defender”, nos anos de vacas gor-        nós inutilmente… É um paradi­gma que teremos
momento (…e que se poderia resumir na maior das           das. Ninguém que teve poder nos últimos 20 anos       que, definitivamente, exigir…
incertezas…), nunca se discutem as opções do pas-         foi capaz de pedir desculpa aos portugueses. Os
sado recente. Nunca se discutem as linhas econó-          dirigentes vão-se sucedendo nos vários partidos         E, é claro, desculpe lá o leitor anónimo mais este
micas que nos levaram ao descalabro em que agora          e, assim como que por artes mágicas, temos que        desconchavado desabafo, deste português preocu-
nos encontramos, sustentadas então por economis-          passar uma esponja em relação às ações daqueles       pado… Na verdade fui criado com a noção de que
tas de renome, também eles cheios de certezas que         que os antecederam (que representavam as mes-         era sempre, sempre preciso assumir responsabili-
ascendiam nalguns casos ao estatuto de dogmas…            mas cores, ideias e, por vezes, usavam os mesmos      dades do passado para melhor construir o futuro…
As culpas são quase sempre do omnipresente “Ex-           exatos chavões vazios…)                               Diga o leitor de sua justiça…
terior” (fantasma mítico, qual Bojador inimputável).
                                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                                  Doc

Alpoim Calvão – Honra e Dever
Perante grande assistência, decorreu na Socie-
      dade de Geografia de Lisboa no dia 11 de ou-                                                              tigação fosse encarada não como uma biografia, mas
      tubro, o lançamento do livro “Alpoim Calvão
– Honra e Dever”, da autoria de Rui Hortelão, Luís                                                              como uma quase biografia, porque ainda se sentia
Sanches de Baêna e Abel Melo e Sousa, editado pela
Caminhos Romanos.                                                                                               longe do fim e que fosse integrado um civil no grupo

  O evento foi aberto pelo Almirante Nuno Viei-                                                                 de trabalho – por entender que isso contribuiria para
ra Matias que classificou a presente obra como um
contributo para a memória futura, dado ser basea-                                                               aumentar o sentido crítico.
da em factos reais e objetivos, o que permitirá com
maior incidência à juventude tirar as ilações que a                                                             Sobre este livro afirmaria o seu apresentador – Pro-
história fornece.
                                                                                                                fessor Doutor Rui de Azevedo Teixeira – em determi-
  De facto, o Comandante Guilherme Almor de Al-
poim Calvão é um dos protagonistas da História de                                                               nado passo: «Sendo uma obra de autor colectivo, à
Portugal das últimas décadas, pouco havendo escrito
sobre ele, além do que o próprio publicou no calor dos                                                          partida faria torcer o nariz ao leitor mais exigente. Par-
acontecimentos mais significativos em que participou.
                                                                                                                ticularmente ao académico que tem a experiência da
  O Comandante Calvão acedeu à iniciativa de dois
dos autores que, como ele, foram oficiais de Marinha                                                            estopada que pode ser, e normalmente é, ler, analisar
e fuzileiros, mas impondo três condições: que tudo o
que fosse escrito estivesse documentado; que a inves-                                                           e classificar um trabalho de grupo. Advindo, aliás, daí

                                                                                                                a piada segundo a qual o camelo é um cavalo dese-

                                                                                                                nhado por um grupo de trabalho. Mas não é esse o

                                                                                                                caso presente. Bem pelo contrário. Este livro não tem

                                                                                                                bossas. Os co-autores potenciaram-se mutuamente e a

                                                                                                                obra surgiu…vitoriosa, francamente vitoriosa. Em boa

                                                                                                                verdade, teria sido muito difícil a um só autor concluir

                                                                                                                com sucesso um livro com o fôlego deste».  

                                                                                                                                             Abel Melo e Sousa
                                                                                                                                                           CFR REF

                                                                                                                Revista da Armada • NOVEMBRO 2012 29
   24   25   26   27   28   29   30   31   32   33   34