Page 5 - Revista da Armada
P. 5

Lisboa foi desde sempre a capital do Império, sede de um po-     século XV, transformou-se em capital de um império ultrama-
   der político e de um conjunto de estruturas que apoiaram e    rino sem paralelo na época, ponto de chegada e partida dos
viveram das riquezas do comércio marítimo em que Portugal        navios que sulcaram todos os oceanos. Da praia do Restelo,
se envolveu desde o século XV. D. Manuel I foi o rei mercador,   D. Manuel viu partir os navios de Vasco da Gama em direcção
que mandou construir o paço real da Ribeira, onde se instalou    à Índia e ali os viu chegar dois anos depois com a notícia de
para estar mais perto do que era a alma da nação: os navios que  uma missão cumprida.
chegavam e partiam, as especiarias, os feitores, os marinheiros
e capitães, o cheiro da maresia e o formigueiro do Tejo, prenhe    Lisboa foi essencialmente uma cidade de mercadores,
de embarcações num vaivém permanente.                            onde o rei construiu a sua residência sobre os armazéns de
                                                                 especiaria e outros produtos vindos da Índia. Viveu para as
   A cidade foi o coração de um país que se estendeu até ao Ex-  armadas, sofreu a angústia da partida das armadas e a ale-
tremo Oriente. Ali nasceram e cresceram a Ribeira das Naus,      gria das chegadas gloriosas, nem sempre com as melhores
as taracenas, as fundições, os artesãos, a alfândega, a Casa da  notícias. Banhada pelas águas do Tejo, em cujos recantos e
Índia e os bairros de mercadores e de marinheiros. Cais do Car-  esteiros se albergaram estaleiros, fabricos e toda uma pa-
vão, Praia da Galé, Terreiro do Trigo, Jardim do Tabaco são os   nóplia de meios que apoiaram o comércio marítimo e as na-
restos de uma Lisboa que acordava todos os dias virada para      vegações oceânicas. Foi a cabeça desse sistema complexo
o rio, vivendo em cada manhã a sua hora marítima, tal e qual     e vasto de pequenos núcleos populacionais que se desen-
a imaginou e descreveu Fernando Pessoa/Álvaro de Campos.         volveram à volta do estuário, completando-se mutuamente,
                                                                 protegidos pela hidrografia de quaisquer ameaças vindas de
   Mas a cidade do período manuelino mergulha as suas raízes     fora da barra.
em tempos mais antigos, assumindo-se como determinante da
independência nacional, desde os tempos de D. Afonso Henri-        Talvez que a sua maior provação tenha surgido com o ter-
ques. Conquistada em 1147, a praça de Lisboa permitiu o domí-    ramoto de 1755, que quase a destruiu por completo. Mas re-
nio da barra do Tejo e, com ela, o predomínio sobre o Oceano     cuperou pela mão empreendedora do Marquês de Pombal e
Ocidental, que foi o principal elemento estruturante da iden-    reconstruiu a Baixa, onde ficou a Ribeira das Naus (o Arsenal)
tidade diferenciada que exige a independência em relação ao      e as instalações da nossa Marinha – uma Marinha que nasceu
vizinho castelhano.                                              e cresceu neste berço do Tejo.

   Com o porto de Lisboa se abriram as portas para uma activi-     Os anos trinta, do século XX, levaram dali os navios, o Arse-
dade marítima crescente. As cidades, como os países, desen-      nal e a Escola Naval, que se mudaram para o Alfeite. Assim o
volvem-se de acordo com as condições de cada época e com         impunham os meios navais modernos, e assim o reclamava a
a forma como as suas gentes enfrentam os desafios propor-        própria cidade que já não suportava o núcleo industrial pesa-
cionados. E Lisboa cresceu com o abrigo que dava aos navios      do no centro da baixa. Foi outro Terreiro do Paço que emer-
que iam e vinham. Durante a primeira dinastia portuguesa,        giu desta alteração, hoje reestruturada para devolver o rio aos
aprendeu a albergar os mercadores que viajavam entre o Me-       lisboetas e às suas visitas. Um espaço novo, onde a Marinha
diterrâneo e o Norte da Europa, e fez disso fortuna suficiente   reactivou algumas das suas instalações históricas (caldeirinha
para querer ser independente, quando o rei de Castela recla-     e doca) e se afirma como referência fundamental a relembrar
mou os seus direitos em 1383. E, a partir do último quartel do   os muitos séculos ao serviço de Portugal.

                                                                                                                   J. Semedo de Matos
                                                                                                                                    CFR FZ

                                                                 N.R. O autor não adota o novo acordo ortográfico
                                                                 Foto SCH L Almeida Carvalho

                                                                                                                   JUNHO 2015  5
   1   2   3   4   5   6   7   8   9   10