Page 32 - Revista da Armada
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ACADEMIA DE MARINHA

Em 19 de maio teve lugar uma sessão solene, no âmbito das co-       que os portugueses conheciam melhor o Atlântico Sul e o Novo
    memorações do Dia da Marinha, presidida pelo Chefe do Esta-     Mundo do que os castelhanos. Duarte Pacheco Pereira tinha as-
do-Maior da Armada, Almirante Macieira Fragoso.                     sim informações que foram determinantes para a definição dos
                                                                    limites do meridiano de Tordesilhas. “Em suma,” disse o acadé-
   Após agradecer a presença do Almirante CEMA, o Presidente        mico Oliveira Martins no final da sua comunicação, “a chegada
Vieira Matias dirigiu um cumprimento aos académicos oradores,       à Índia, decidida por D. Manuel, perante a resistência dos seus
que iriam dar nas suas intervenções uma dupla perspetiva da         conselheiros (como refere João de Barros, e Camões represen-
chegada à India, o antes e o depois.                                ta no Velho do Restelo), corresponde a um sério, longo e muito
                                                                    fundamentado programa de acção, centrado no saber todo de
   Conforme disse o Almirante Vieira Matias, o Dia da Marinha       experiências feito”.
celebra não só a chegada de Vasco da Gama à India, mas a consu-
mação da epopeia, em vez da expetativa que sempre rodeia uma          “Portugal no seu imaginário – do passado ao futuro. Uma visão
partida para o mar oceano. “A epopeia foi o produto, o resultado,   de marinheiro”, foi o título da segunda comunicação, apresenta-
de uma longa, persistente e bem planeada e organizada missão        da pelo académico João Pires Neves.
que teve na sua base o desenvolvimento das ciências náuticas,
do saber, do conhecimento e da sua aplicação prática, através         Seguindo uma “lógica de interpretação de natureza mais estra-
de um processo de gestão que ainda hoje pode constituir modelo      tégica e destacando, para o efeito, três momentos que parecem
para administradores ambiciosos”.                                   cruciais na história”, o orador abordou o tema “na perspetiva de
                                                                    cidadão e de marinheiro, no desenvolvimento e na perenidade
   “A epopeia que celebramos deve constituir para nós um enor-      da Nação portuguesa: o passado, o presente e o futuro”.
me motivo de orgulho, um modelo para a nossa atitude perante
os valores nacionais, e um exemplo para a nossa vida futura.”         Na primeira parte da sua intervenção, o almirante Pires Neves
(…) “Nós, os Portugueses, amanhã, de novo, chegaremos à In-         analisou o nosso passado histórico, tornado “relevante com o ‘ci-
dia”, disse o Presidente Vieira Matias no final das suas palavras.  clo da expansão e da Índia’, e que “só foi possível pelo modo deli-
                                                                    beradamente organizado, como Portugal, nessa época, concebeu,
   A sessão prosseguiu com a apresentação da comunicação “Das       estruturou e utilizou o seu poder”. Ao depender quase exclusiva-
razões de Zurara à chegada à India”, pelo académico Guilherme       mente da expansão marítima e daquilo que ela, como negócio,
d’Oliveira Martins.                                                 proporcionava – especiarias, ouro e escravos – “tornou-se num dos
                                                                    mais prestigiados Estados Europeus do século XVI”.
   “A Viagem de Vasco da Gama de descoberta do caminho ma-
rítimo para a Índia foi longamente preparada. Quando lemos as         Na segunda parte da comunicação o académico analisou o pe-
cinco razões de Gomes Eanes de Zurara constantes da Crónica         ríodo que se seguiu às guerras de África e seus traumas, à desco-
dos Feitos da Guiné, verificamos haver um conhecimento da im-       lonização, ao fenómeno da emigração e ao apelo da prosperidade
portância do Mar Arábico e da suposta situação do Reino do Pres-    europeia, e ao novo desafio que então foi lançado aos portugueses.
te João”, disse o orador. A conquista de Constantinopla pelo Im-
pério Otomano (1453) e a queda do Império Romano do Oriente           Prevaleceu a opção europeia e a atração pelos “Grandes Espa-
incentivou as viagens na Costa de África pelos portugueses. Não     ços”, que de resto já se manifestara em 1949 com a integração na
havia uma alternativa entre Ceuta e o Norte de África e as na-      NATO, depois em 1960 com a adesão à EFTA e, em 1972, com a
vegações para além do Bojador, mas sim uma evidente comple-         assinatura de acordos comerciais com a CEE. Portugal abandona-
mentaridade. O académico frisou que “a descoberta de recursos       va a política do “orgulhosamente sós”.
no Golfo da Guiné (malagueta e outras especiarias, ouro e escra-
vos) iria permitir a sustentação de uma longa e incerta empresa       “Depois desta caminhada pelo passado e pelo presente portu-
até à passagem do Cabo da Boa Esperança”, e que D. João II pre-     guês, a grande conclusão que nos fica, é de um Portugal, sempre
parou cuidadosamente a partir de 1488 a chegada à Índia, ten-       condicionado pelo exterior e em luta constante pela sua sobre-
do-se passado do “tempo de coruja ao tempo de falcão”, acres-       vivência, tida por um objetivo maior, que tudo passou a coman-
centando que Pero da Covilhã e Afonso de Paiva fizeram parte        dar, desde a Política à Estratégia, desde os fins aos meios”, disse
daquela preparação. A morte do Príncipe herdeiro D. Afonso, a       o académico Pires Neves a terminar, após o que foi encerrada a
chegada de Colombo às Caraíbas, e a preparação do Tratado de        sessão solene.
Tordesilhas iriam dominar a misteriosa interrupção das navega-
ções no Atlântico Sul. A negociação de Tordesilhas demonstrou                                                 Colaboração da ACADEMIA DE MARINHA

                                                                    Foto 1SAR A Ferreira Dias

32 JUNHO 2015
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