Page 33 - Revista da Armada
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LIVRO

“À MESA COM A MARINHA"

                                                                                     Fotos SAJ FZ Horta Pereira

A20 de maio, e em cerimónia presidida pelo Almirante CEMA/AMN,        continuando a desenvolver-se no séc. XX. Os interessantes, e
    foi apresentado ao público, no Pavilhão das Galeotas do Museu de  quiçá, raros menus que ilustram o livro “À Mesa com a Mari-
Marinha, o livro “À Mesa com a Marinha. Vol. I – Marinha Real Portu-  nha”, dão-nos claros exemplos dos primórdios da representa-
guesa”, da autoria do Dr. Paulo Santos, Membro Correspondente da      ção protocolar da Marinha.
Academia de Marinha.
                                                                        Nos capítulos finais, o livro relata a vida a bordo dos Yach-
  O livro de 140 páginas, profusamente ilustrado com cerca de         ts Reais, e em torno das suas mesas. Navios muito especiais,
150 imagens, dá conta dum tema de particular interesse para           foram, para além de laboratórios oceanográficos, verdadeiras
a Marinha: a questão da alimentação na Armada, ao longo da            “Embaixadas” da Cultura e das Artes ligadas ao mar. Na relação
nossa imemorial História Marítima.                                    da Família Real Portuguesa com o mar, destacam-se, com gran-
                                                                      de evidência, os bem conhecidos talentos artísticos do Rei D.
  Assim, um dos temas centrais do livro prende-se com a               Carlos e, porventura, a sua menos conhecida vocação de ilus-
imensa preocupação com que as questões da alimentação,                trador, de que são testemunha a composição gráfica e pictórica
da conservação dos alimentos, da nutrição das guarnições              dos seus extraordinários Menus de Bordo, peças que desenha-
foram alvo nos navios da Armada. De facto, as doenças oca-            va com entusiasmo e que gentilmente costumava oferecer aos
sionadas por desequilíbrios ou carências alimentares ou vi-           seus convidados.
tamínicas chegavam, por exemplo, a dizimar mais de metade
das guarnições dos nossos navios. A matéria foi regulamen-              Os documentos e as peças de coleção apresentados no livro
tada cedo em Portugal, por volta de 1720, e depois sucessi-           (menus, baixelas, palamenta), muitos deles totalmente inédi-
vamente reformada em meados do séc. XIX, por forma a ado-             tos, dão ao leitor uma ideia do extraordinário património mate-
tar tabelas alimentares que permitissem erradicar os males            rial e imaterial ligado à alimentação e à vida a bordo, do qual a
que assolavam não só a nossa, mas todas as grandes Mari-              Marinha Portuguesa é ainda hoje o fiel depositário e guardião
nhas oceânicas do mundo (de que é exemplo o terrível “Mal             (Museu de Marinha, Fragata D. Fernando II e Glória, Arquivo
de Luanda”, como era conhecido entre os nossos marinhei-              Geral da Marinha, ETNA, Museu do Fuzileiro).
ros o funesto escorbuto).
                                                                        O livro “À Mesa com a Marinha. Vol. I - Marinha Real Portu-
  Outro tema de particular interesse abordado pelo autor, re-         guesa” evoca, assim, uma história secular e, porventura, uma
mete para o que se pode qualificar de “Representação, Pro-            arte da qual a Marinha muito se orgulha: a sua tradição de bem
tocolo e Diplomacia Naval do Estado”, tendência que se de-            receber, na senda de uma consolidada e muito antiga arte pro-
senhou, na Marinha de Guerra Portuguesa, a partir de finais           tocolar de representação diplomática, que tão útil tem sido
do séc. XVIII, para claramente triunfar em finais do séc. XIX e       para Portugal.

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