Page 35 - Revista da Armada
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oi com o título de “Pedras que Falam do Mar” que, nos finais Não excluindo a possibilidade de que algumas das casas dos mes-
de 1986, o Coronel Valdez dos Santos efectuou uma comuni- tres/proprietários estivessem igualmente assinaladas com tabuletas,
cação, na Academia de Marinha, na qual apresentou uma rela- tal como sucedia com as dos restantes ofícios, afigura-se-me que o
F ção das representações de navios que, no decurso das suas recurso a representações mais perduráveis no tempo se possa jus-
deambulações pela cidade de Lisboa, fora encontrando. tificar pelo facto de se tratarem de casas de habitação e não locais
Tal relação, que o seu autor considerava incompleta, constituiu, de trabalho, isto para além de passarem a constituir uma memória
ao que julgo saber, a primeira tentativa de inventariação das muitas aquando do fim da actividade ou do falecimento do mestre/proprietá-
representações de navios existentes na capital, nela se incluindo, a rio que lhe dera origem, tal como parece ser o caso, nos dias de hoje,
meu ver, três tipos distintos. em Vila do Conde e na Póvoa de Varzim, casos estes que conheço
O primeiro tipo afigura-se-me estar directamente relacionado com mas que admito possam existir também noutras localidades.
a autarquia e nele se incluem as representações existentes nos cha- O argumento utilizado pelo coronel Valdez dos Santos para rejeitar
farizes, nos marcos de delimitação da autarquia e nas propriedades a possibilidade destas representações serem indicativas das mora-
municipais, sendo algumas destas representações caracterizadas das dos mestres/proprietários foi de que as casas e os locais onde
pela existência dos dois corvos da tradição poisados à popa e à proa estas se encontram não se coadunarem com o estatuto de armado-
dos navios, como acontece, por exemplo, no nº 42 da rua dos Anjos. res; tal argumento é, quanto a mim, bastante discutível pois parte do
O segundo tipo de representações mais não parecem ser do que pressuposto de que os armadores de então tinham o estatuto que
motivos ornamentais das construções onde se encontram instala- hoje detêm. Ora, grande número dos navios do comércio nos sécu-
das, como sucede, por exemplo, na Calçada da Tapada, no Largo dos los passados eram propriedade dos respectivos mestres, frequente-
Mastros, no liceu Gil Vicente e na rua da Padaria. mente em parceria com outros tripulantes e, ou, com comerciantes.
O terceiro tipo, constituído por pequenas esculturas, insculturas e Por outro lado, o custo de um navio estava longe de ser inacessível a
azulejos pintados, estes isoladamente ou em painéis, de navios e um mestre com alguns anos de actividade e nada mais natural para
para cuja existência existem variadas hipóteses, hipóteses essas que um proprietário, neste caso de um navio, do que pretender estar o
o citado académico, com argumentação diversa, rejeitou sem apre- mais próximo possível da sua propriedade.
sentar qualquer interpretação para a sua existência. Ao contrário do que sucedeu com o citado autor, não considero
Também na Revista da Armada foi referida a existência deste possível poder inferir, com base nas representações existentes, qual
terceiro grupo objecto de divulgação sem que, no entanto, fosse o tipo de navio representado, bem como as suas características.
igualmente apresentada qualquer hipótese justificativa para a sua Pese embora não me parecer haver, entre as que conheço, duas
existência. representações idênticas, estou em crer que então, como agora por
Tenho para mim que tais representações mais não são do que a vezes ainda acontece, o artista deu mais asas à sua imaginação do
sinalização das moradas dos mestres/proprietários dos navios do que se preocupou com a realidade, veja-se p.e. a lápide da rua Pos-
comércio, hipótese esta que se me afigura a mais plausível entre as sidónio da Silva, em que, para se representar uma carranca, surge
várias formuladas e isto porque: gravada uma cara de uma pessoa, ou então a orientação das ban-
– Na sua quase totalidade estas representações encontram-se deiras e flâmulas dos navios, geralmente orientadas em oposição à
situadas na zona ribeirinha perto dos locais onde se situavam, ao direcção do vento.
tempo, os fundeadouros/varadouros das embarcações e bem assim Algumas destas representações aparecem com datas dos séc. XVIII
as habitações dos mareantes (Alcântara, Boavista, Alfama); e XIX, o que confere a esta prática uma longevidade significativa,
– A inexistência de números de polícia nas portas das casas levava afastando, desde logo, a possibilidade de se tratar de uma qualquer
a que, como é sabido, os locais de trabalho dos diversos ofícios tives- moda passageira. Algumas das representações não datadas aparen-
sem de ser assinalados de forma especial, de que o recurso a tabu- tam, pelo seu aspecto, ser possivelmente de períodos anteriores.
letas e a apresentação de objectos característicos dos ofícios em A Revista da Armada ao publicar estas representações, sejam elas
causa, afixados nas portas, eram os mais usuais; identificativas das moradas dos mestres ou não, para além de dar a
– A necessidade da sinalização das casas dos mestres dos navios, conhecer um tipo de património relativamente desconhecido, poderá
na circunstância os alcaides das galés reais, foi sentida tão cedo também contribuir para a sua preservação, a qual parece bastante
como no reinado de D. João I, o qual estabeleceu a obrigatoriedade ameaçada .
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de que as respectivas casas estivessem devidamente assinaladas; Cdmt. E. Gomes
– A sinalização das casas dos mestres/armadores, com navios
Na pesquisa efectuada já em 2019, verifiquei que cerca de uma dezena destas
esculpidos em pedras, está referenciada, pelo menos num caso, em 1 representações, que havia referenciado em 1987, tinham desaparecido, isto para
Viana do Castelo e, em vários outros casos, na Holanda. além de algumas outras apresentarem claros vestígios de actos de vandalismo.

