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REVISTA DA ARMADA | 498 13
ESTÓRIAS
VIAGENS SALGADAS
SAGRES
Mais uma vez na Sagres, agora no caminho de Cabral. Ter- uma guarnição pouco treinada. É claro que tempo para treino
ras de Santa Cruz. Baía de Guanabara, provavelmente não faltou durante a viagem.
onde se situa a cidade mais bonita do mundo. Aí imperavam
na altura Wilson Simonal e Seu Jair Rodrigues - Jair de Todos O Director de Instrução dos cadetes da Escola Naval que com
os Sambas. connosco realizou esta viagem era uma personalidade muito pres-
tigiada na Armada, inteligente e dotada dum sentido de humor ex-
Os alíseos marcaram de novo encontro connosco. tremamente mordaz. Era a primeira vez que embarcava num na-
Depois de refazer a aguada no Mindelo, lá singrámos para vio à vela e não perdia uma oportunidade de assistir às manobras
a zona das calmarias, com os olhos atentos nos “paspalhões”, de pano do navio. Durante uma delas, o vento não era muito forte
que de quando em vez nos punham quase o pano às costas. e o comandante havia dado ordem para se largar todo o pano.
Toda a gente ansiava por lançar o motor, mas o “velho cas-
murro” teimava em manter singraduras de duas milhas. Lá Depois desta manobra estar praticamente concluída, o nosso
descobriu umas bufas tiradas da cartola que nos puseram camarada com o ar de quem nada percebia do assunto e utili-
fora, regressando a velocidades simpáticas que nos deram a zando uma linguagem altamente imprópria em termos marinhei-
oportunidade de gastar dois dias, antes de entrar a Baía de rões, perguntou ao comandante se se “enrolásse as pontas” da
Guanabara, a lavar a cara ao navio. Pranchas no costado e cha- vela grande o navio não andaria mais.
ta na água e lá se pintou o costado e até a linha de água.
Depois, a entrada naquela baía de encantar com um vento De pronto lhe respondeu o “lobo do mar” que não e que lhe
de feição que nos permitiu largar todo o pano. A embarcação iria de imediato demonstrar isso, tendo dado ordens ao Mestre,
dos pilotos só nos agarrou muito perto do fundeadouro onde para a manobra de ferrar o punho amurado ao vento do “Papa
inicialmente ficámos. Figos”. Pouco tempo passado e o navio aumentava a sua veloci-
Mais tarde atracámos na Praça Mauá, onde meio Brasil nos dade em cerca de nó e meio, deixando o comandante um pouco
visitou. Era a primeira vez que a Sagres voltava ao Brasil com perturbado, sem atinar com resposta para o sucedido. Foi então
aquele nome. Antes,”se chamava dji Guanabara”. que o camarada director de instrução comentou, com o seu tom
Foi uma viagem sofrida, porque morosa e feita em condi- jocoso e mordaz, de que não percebia nada de vela mas sabia
ções que não foram as melhores. umas coisas de cálculo vectorial.
O navio foi aprestado um pouco à pressa para estar no Brasil
aquando da visita do Chefe do Governo Português (Presidente E assim navegámos pelas águas turbulentas da convivência
do Conselho), Prof. Marcelo Caetano em 1969. institucional, até à “cidadje” maravilhosa.
Havia trabalhos aprazados de mastros e mastaréus que fo-
ram apressados, uma andaina nova que não chegou a tempo, Ferreira Júnior
CMG
Nota: Extracto do livro “Terra-Mar-e-Guerra”
N.R. O artigo não respeita o novo acordo ortográfico.
26 JULHO 2015

