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ESTÓRIAS 50
ESTAÇÃO RADIONAVAL DA HORTA
A OUTRA FACE
Estação Radionaval da Horta, embora tenha iniciado a sua aƟ -
A vidade em 30 de julho de 1928, só começou a tomar consciên-
cia da sua existência na década de trinta do século passado.
Estava à vista da casa onde nasci em 1931 e, durante a noite,
não só via as luzes no topo dos mastros das suas antenas como,
nas noites calmas de Verão, ouvia o barulho dos motores que pro-
duziam energia elétrica. Na minha casa, nessa altura, usavam-se
apenas candeeiros a petróleo.
Do pessoal da Armada, com família, ali em comissão de serviço,
alguns foram meus vizinhos, por não terem alojamento próprio
nas residências da estação.
Viviam com a família, dispersos pela freguesia das AngúsƟ as e Estação Radionaval da Horta
outras, em casas alugadas, e alguns até em partes de casas, pois no
tempo não era vulgar a existência de casas desabitadas para alugar. O quadro do pessoal da Estação Radionaval da Horta chegou a
Os solteiros faziam amizade com a vizinhança, alguns casaram na aƟ ngir 86 elementos, no período da II Guerra Mundial, o que foi
Ilha do Faial, consƟ tuíram família e por lá fi caram. Os mais jovens bastante favorável ao comércio local.
Ɵ nham uma conduta social irrepreensível, pelo que eram bem acei- Um caso de generosidade do pessoal da Estação foi aceitar como
tes nos clubes que frequentavam na cidade da Horta. hóspede permanente na messe o Guilherme Teixeira, mais conhe-
Frequentavam o café Volga, ali em frente ao Largo do Infante, cido por Balhé, pois pronunciava mal o nome, fi gura ơ pica das Angús-
criando boas relações com jovens mais ou menos da sua idade. Ɵ as, que acompanhava o cabo do rancho da Estação nas compras ao
Alguns fi zeram amizade com os alunos externos e internos do mercado local. Andava fardado e tudo, e julgo que até por lá dormia.
Liceu da Horta e concluíram o quinto ano do Liceu. O Balhé era irmão do Joaquim Teixeira, mais conhecido por Joaquim
Outros, quando estava muito calor, frequentavam o Café Interna- Semilhas, alcunha herdada do pai que era natural da Ilha da Madeira.
cional, que do passeio exterior fazia esplanada com mesas e cadei- O Joaquim jogava futebol no AtléƟ co, foi cedido ao Benfi ca, jogou na
ras à volta, abrigadas com guarda-sóis, onde se sentavam os clientes, seleção A de Portugal e foi o 1º Internacional Português Açoriano.
mormente senhoras que passavam ali as tardes fazendo malhas ou A ERNH foi o mais importante centro de comunicações da Mari-
rendas, enquanto os maridos no interior conversavam ou jogavam nha no AtlânƟ co Norte, durante a II Guerra Mundial, enquanto a
ao dominó enquanto bebericavam a bica! O pessoal da Radionaval Base Naval Inglesa permaneceu no Porto da Horta.
sentava-se na esplanada, para beber um refresco e, como é próprio, Quando em 1957/59 esƟ ve em comissão de serviço na Ilha do
conversavam sobre os mais variados assuntos, ou seja, não fi cavam Corvo, várias vezes acompanhei os meteorologistas na leitura dos
mudos, era gente nova. Esta situação chegou à gerência do Café, por aparelhos de observação, feita rigorosamente de hora a hora. Ela-
incomodarem as senhoras, mas estas obƟ veram como resposta que boravam uma mensagem em código, com grupos de cinco algaris-
deles não podia prescindir, mas sim delas! mos, que era transmiƟ da pelos observadores por TSF, pelo sistema
Outros deram o seu contributo como jogadores nos Clubes de Morse. A mensagem era transmiƟ da para a Estação Radionaval das
Futebol. Estou a recordar-me dos cabos telegrafi stas Matos e Dur- Flores, passava pela Estação Radionaval da Horta e dali até ao Centro
val, que jogavam no AngúsƟ as AtléƟ co Clube da Horta. de Previsão em Santa Maria, que elaborava a previsão para todo o
Mais tarde o Matos coxeava, pois parƟ u uma perna ao jogar Arquipélago.
futebol, foi monitor na escola de telegrafi stas em Vila Franca de Naquela época não havia telefones nem comunicações radiotele-
Xira e em 1980, já 1TEN, foi Delegado MaríƟ mo nas Lajes do Pico. fónicas com o exterior, na Ilha do Corvo.
Contou-me ele que, já ofi cial, foi a uma festa de fi m de curso, A Instalação Radiotelegráfi ca do Corvo, no síƟ o chamado Topo de
estava sentado com outros ofi ciais, e lá encontrou um militar, já Baixo, iniciou o serviço ao público em 1910.
sargento, a quem Ɵ nha ministrado o curso de telegrafi sta e per- Quando cheguei à Delegação MaríƟ ma de São Roque do Pico, era
guntou-lhe: – É pá, tu não me conheces? O sargento olhou para muito solicitado pelos Comandantes dos navios, que escalavam o
ele e respondeu: – Conheci um Matos sargento-monitor, mas porto do Cais do Pico, para os informar sobre a mensagem com
coxeava! O Matos disse-lhe: Ó meu F… da P… como é que podes o Meteo do Corvo. Telefonava para ERNH e o telegrafi sta de ser-
saber se eu coxeio se estou sentado? viço, atenciosamente, informava o primeiro e o terceiro grupos da
O Durval, que na altura tocava saxofone na Filarmónica União mensagem, que me davam a direção e força do vento, a pressão
Faialense, das AngúsƟ as, foi colocado no Posto Radionaval de atmosférica e a nebulosidade.
Angra na Ilha Terceira e por ali fi cou depois de se reformar. No dia 7 de janeiro de 2013 a Estação Radionaval da Horta foi desa-
Quando a equipa do AngúsƟ as AtléƟ co Clube, representante dos Ɵ vada, após 84 anos na Ilha do Faial. Deixou ao Povo da Cidade da
Açores à Taça de Portugal, se deslocou à Madeira para jogar com o Horta, especialmente ao das AngúsƟ as, muitas e gratas recordações.
MaríƟ mo, os afi cionados deslocavam-se à Radionaval para, por genƟ -
leza do pessoal da Estação, através de comunicação TSF com a Radio- Francisco Andrade de Medeiros
naval do Funchal, conseguirem informação do resultado do jogo. (Cabo de mar reformado)
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