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REVISTA DA ARMADA | 542


              ESTÓRIAS                                                                                          50



              ESTAÇÃO RADIONAVAL DA HORTA


              A OUTRA FACE



                 Estação Radionaval da Horta, embora tenha iniciado a sua aƟ -
              A  vidade em 30 de julho de 1928, só começou a tomar consciên-
              cia da sua existência na década de trinta do século passado.
               Estava à vista da casa onde nasci em 1931 e, durante a noite,
              não só via as luzes no topo dos mastros das suas antenas como,
              nas noites calmas de Verão, ouvia o barulho dos motores que pro-
              duziam energia elétrica. Na minha casa, nessa altura, usavam-se
              apenas candeeiros a petróleo.
               Do pessoal da Armada, com família, ali em comissão de serviço,
              alguns foram meus vizinhos, por não terem alojamento próprio
              nas residências da estação.
               Viviam com a família, dispersos pela freguesia das AngúsƟ as  e   Estação Radionaval da Horta
              outras, em casas alugadas, e alguns até em partes de casas, pois no
              tempo não era vulgar a existência de casas desabitadas para alugar.  O quadro do pessoal da Estação Radionaval da Horta chegou a
               Os solteiros faziam amizade com a vizinhança, alguns casaram na   aƟ ngir 86 elementos, no período da II Guerra Mundial, o que foi
              Ilha do Faial, consƟ tuíram família e por lá fi caram. Os mais jovens   bastante favorável ao comércio local.
              Ɵ nham uma conduta social irrepreensível, pelo que eram bem acei-  Um caso de generosidade do pessoal da Estação foi aceitar como
              tes nos clubes que frequentavam na cidade da Horta.  hóspede permanente na messe o Guilherme Teixeira, mais conhe-
               Frequentavam o café Volga, ali em frente ao Largo do Infante,   cido por Balhé, pois pronunciava mal o nome, fi gura ơ pica das Angús-
              criando boas relações com jovens mais ou menos da sua idade.   Ɵ as, que acompanhava o cabo do rancho da Estação nas compras ao
              Alguns  fi zeram amizade com os alunos externos e internos do   mercado local. Andava fardado e tudo, e julgo que até por lá dormia.
              Liceu da Horta e concluíram o quinto ano do Liceu.   O Balhé era irmão do Joaquim Teixeira, mais conhecido por Joaquim
               Outros, quando estava muito calor, frequentavam o Café Interna-  Semilhas, alcunha herdada do pai que era natural da Ilha da Madeira.
              cional, que do passeio exterior fazia esplanada com mesas e cadei-  O Joaquim jogava futebol no AtléƟ co, foi cedido ao Benfi ca, jogou na
              ras à volta, abrigadas com guarda-sóis, onde se sentavam os clientes,   seleção A de Portugal e foi o 1º Internacional Português Açoriano.
              mormente senhoras que passavam ali as tardes fazendo malhas ou   A ERNH foi o mais importante centro de comunicações da Mari-
              rendas, enquanto os maridos no interior conversavam ou jogavam   nha no AtlânƟ co Norte, durante a II Guerra Mundial, enquanto a
              ao dominó enquanto bebericavam a bica! O pessoal da Radionaval   Base Naval Inglesa permaneceu no Porto da Horta.
              sentava-se na esplanada, para beber um refresco e, como é próprio,   Quando em 1957/59 esƟ ve em comissão de serviço na Ilha do
              conversavam sobre os mais variados assuntos, ou seja, não fi cavam   Corvo, várias vezes acompanhei os meteorologistas na leitura dos
              mudos, era gente nova. Esta situação chegou à gerência do Café, por   aparelhos de observação, feita rigorosamente de hora a hora. Ela-
              incomodarem as senhoras, mas estas obƟ veram como resposta que   boravam uma mensagem em código, com grupos de cinco algaris-
              deles não podia prescindir, mas sim delas!           mos, que era transmiƟ da pelos observadores por TSF, pelo sistema
               Outros deram o seu contributo como jogadores nos Clubes de   Morse. A mensagem era transmiƟ da para a Estação Radionaval das
              Futebol. Estou a recordar-me dos cabos telegrafi stas Matos e Dur-  Flores, passava pela Estação Radionaval da Horta e dali até ao Centro
              val, que jogavam no AngúsƟ as AtléƟ co Clube da Horta.  de Previsão em Santa Maria, que elaborava a previsão para todo o
               Mais tarde o Matos coxeava, pois parƟ u uma perna ao jogar   Arquipélago.
              futebol, foi monitor na escola de telegrafi stas em Vila Franca de   Naquela época não havia telefones nem comunicações radiotele-
              Xira e em 1980, já 1TEN, foi Delegado MaríƟ mo nas Lajes do Pico.   fónicas com o exterior, na Ilha do Corvo.
              Contou-me ele que, já ofi cial, foi a uma festa de fi m de curso,   A Instalação Radiotelegráfi ca do Corvo, no síƟ o chamado Topo de
              estava sentado com outros ofi ciais, e lá encontrou um militar, já   Baixo, iniciou o serviço ao público em 1910.
              sargento, a quem Ɵ nha ministrado o curso de telegrafi sta e per-  Quando cheguei à Delegação MaríƟ ma de São Roque do Pico, era
              guntou-lhe: – É pá, tu não me conheces? O sargento olhou para   muito solicitado pelos Comandantes dos navios, que escalavam o
              ele e respondeu: – Conheci um Matos sargento-monitor, mas   porto do Cais do Pico, para os informar sobre a mensagem com
              coxeava! O Matos disse-lhe: Ó meu F… da P… como é que podes   o Meteo  do Corvo. Telefonava para ERNH e o telegrafi sta de ser-
              saber se eu coxeio se estou sentado?                 viço, atenciosamente, informava o primeiro e o terceiro grupos da
               O Durval, que na altura tocava saxofone na Filarmónica União   mensagem, que me davam a direção e força do vento, a pressão
              Faialense, das AngúsƟ as, foi colocado no Posto Radionaval de   atmosférica e a nebulosidade.
              Angra na Ilha Terceira e por ali fi cou depois de se reformar.  No dia 7 de janeiro de 2013 a Estação Radionaval da Horta foi desa-
               Quando a equipa do AngúsƟ as AtléƟ co Clube, representante dos   Ɵ vada, após 84 anos na Ilha do Faial. Deixou ao Povo da Cidade da
              Açores à Taça de Portugal, se deslocou à Madeira para jogar com o   Horta, especialmente ao das AngúsƟ as, muitas e gratas recordações.
              MaríƟ mo, os afi cionados deslocavam-se à Radionaval para, por genƟ -
              leza do pessoal da Estação, através de comunicação TSF com a Radio-              Francisco Andrade de Medeiros
              naval do Funchal, conseguirem informação do resultado do jogo.                        (Cabo de mar reformado)


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