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REVISTA DA ARMADA | 545

              forma muito breve, em que consistem essas ameaças, referindo,   Fragata Corte-Real a efetuar escolta a navio mercante do programa alimentar
              quando aplicável, os impactos em Portugal.            Mundial da ONU com desƟ no à Somália, protegendo-o da pirataria maríƟ ma.

              Pirataria e assalto à mão armada
               A pirataria maríƟ ma e o assalto à mão armada ameaçam afe-
              tar o regular fl uxo do transporte por mar, sendo parƟ cularmente
              preocupantes em zonas como o Golfo da Guiné, o Golfo de Áden,
              a costa da Somália, o estreito de Malaca ou o estreito de Sin-
              gapura. Este fl agelo mundial não pode deixar de consƟ tuir uma
              grande preocupação para Portugal, até porque o registo interna-
              cional de navios da Madeira é já o terceiro maior registo da UE,
              em número de navios e em tonelagem, contando com mais de
              650 navios de comércio.

              Atos terroristas
               Até agora, os atos terroristas em ambiente maríƟ mo não têm
              Ɵ do a mesma frequência, nem as mesmas consequências, que   apresenta desafi os de monta no quadro da segurança maríƟ ma,
              os ataques perpetrados em terra. Porém, importa ter presente   nomeadamente no que respeita à salvaguarda da vida humana
              o impacto, potencialmente devastador, que poderá ter um ato   no mar e à busca e salvamento maríƟ mo.
              terrorista contra um superpetroleiro ou contra um navio de cru-
              zeiro, com mais de 5000 passageiros e cerca de 3000 tripulantes   Pesca ilegal, não declarada e não regulamentada
              a bordo. Até porque a história já regista ataques terroristas bem-  A pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada ameaça,
              -sucedidos, entre outros, ao contratorpedeiro americano  Cole   não só a sustentabilidade dos oceanos e a biodiversidade, como
              (2000), ao superpetroleiro francês Limburg (2002), ao navio fi li-  também a viabilidade económica das populações ribeirinhas e
              pino SuperFerry 14 (2004) e ao petroleiro japonês M Star (2010).   a própria segurança alimentar. Embora a dimensão dessas aƟ -
              Além disso, os terroristas que atacaram Bombaim, em 2008, che-  vidades ilícitas seja – pela sua própria natureza – diİ cil de esƟ -
              garam à cidade por mar, o que evidencia outra possibilidade de   mar, o relatório de 2016 da Food and Agriculture OrganizaƟ on,
              aproveitamento do ambiente maríƟ mo para atos terroristas, a   das Nações Unidas, refere que podem representar cerca de 26
              que importa acrescentar, também, o risco de ataques terroristas   milhões de toneladas por ano, correspondentes a mais de 15%
              a infraestruturas portuárias ou plataformas petrolíferas.   das capturas de peixe anuais.

              Tráfi co ilícito de armas de destruição maciça       Danos intencionais e ilegais ao ambiente marítimo
               A proliferação de armamento explora todas as formas de trans-  Os danos ao ambiente maríƟ mo incluem a poluição do mar,
              porte possíveis, designadamente por via maríƟ ma, como mos-  que é um problema parƟ cularmente importante, pois cerca de
              traram, entre outras, as situações: do navio So San, que trans-  metade da produção mundial de petróleo circula por via marí-
              portava mísseis para o Iémen (2002); do navio BBC China, que   Ɵ ma. Boa parte desse tráfego maríƟ mo ocorre junto à costa e,
              levava componentes para o fabrico de armas nucleares para a   em muitos casos, em pontos focais, como estreitos ou canais.
              Líbia (2003); do navio norte-coreano Kang Nam I, que transpor-  Esse facto, aliado à crescente dimensão dos petroleiros, poten-
              tava armas para Myanmar, tendo regressado à Coreia do Norte   ciam os riscos de incidentes e acidentes geradores de poluição,
              para evitar ser abordado (2009); e do navio mercante Light, sus-  parƟ cularmente em espaços maríƟ mos como os portugueses,
              peito de transportar componentes para mísseis para Myanmar e   caracterizados por elevada densidade de tráfego. Não é, por
              que recusou a abordagem pelo USS McCampbell, mas foi forçado   isso, de estranhar que dos vinte maiores derrames de petróleo
              a regressar à Coreia do Norte (2011).               em todo o mundo, quatro tenham ocorrido na costa ocidental da
                                                                  Península Ibérica: Jacob Maersk, em Leixões, em 1975 (88 000
              Tráfi co ilícito de narcóticos                       tons.); Urquiola, na Corunha, em 1976 (100 000 tons.); Aegean
               O tráfi co de narcóƟ cos consƟ tui uma ameaça ao tecido econó-  Sea, na Corunha, em 1992 (74 000 tons.); e PresƟ ge, na costa da
              mico-social e, inclusive, ao próprio Estado, uƟ lizando cada vez   Galiza, em 2002 (63 000 tons.).
              mais as rotas maríƟ mas, como forma de colocar os estupefa-
              cientes nos seus mercados de desƟ no, esƟ mando-se que cerca   Todas estas ameaças têm um elevado potencial de materializa-
              de 70% da quanƟ dade total de drogas capturadas decorra de   ção nos espaços maríƟ mos nacionais ou sobre o crescente número
              apreensões no mar ou após transporte por via maríƟ ma. Natural-  de navios mercantes com bandeira portuguesa. Isso obriga a um
              mente, a localização de Portugal coloca o nosso país numa posi-  esforço de vigilância permanente e a uma atuação constante e
              ção central na luta contra o narcotráfi co, especialmente daquele   proaƟ va, no senƟ do de promover a segurança maríƟ ma, defen-
              que tem origem na América do Sul e (usando, em muitos casos,   dendo os interesses nacionais e contribuindo para a estabilidade
              países africanos como placa giratória) tem como desƟ no fi nal a   global, a sustentabilidade dos oceanos e a biodiversidade.
              Europa.                                               Em resumo, a economia do mar e a segurança maríƟ ma são
                                                                  indissociáveis, o que signifi ca que o invesƟ mento na segurança
              Contrabando e tráfi co de pessoas pelo mar           dos mares corresponde a um invesƟ mento estratégico na dina-
               O contrabando e o tráfi co de pessoas pelo mar são problemas   mização e na alavancagem da economia do mar e, consequen-
              sérios que afetam, parƟ cularmente, os países da Europa meri-  temente, num futuro mais próspero para os portugueses e para
              dional, por serem o desƟ no almejado por milhares de pessoas   Portugal.
              oriundas de África e do Médio Oriente. Importa referir que esses
              problemas se manifestam em paralelo com a migração irregular                              Sardinha Monteiro
              por mar, que possui uma natureza diferente, mas que também                                         CMG


                                                                                                     NOVEMBRO 2019  5
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