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REVISTA DA ARMADA | 498

o skipper do veleiro Bravura, que tinha     do, que se mostraram muito agradecidos           A Baptista pôde então reduzir máqui-
caído a bordo e apresentava um ferimen-     pelo apoio dado pela Marinha Portuguesa.       nas, e continuar a enfrentar o mar que
to grave na cabeça e tinha o braço direi-                                                  estava muito alteroso em direção a Ponta
to partido. O veleiro Bravura navegava de     Estávamos 933 milhas a SW de Ponta           Delgada.
Cabo Verde para as Caraíbas, com mais       Delgada, começámos então uma marato-
dois tripulantes a bordo.                   na para levar o nosso paciente até às 350        Chegámos no dia 29 de novembro às
                                            milhas de Ponta Delgada, local em que se-      17h00, com 60 toneladas de combustível
  A Baptista largou do porto de Ponta       ria extraído de bordo por um EH 101 da         e 40 toneladas de água; nunca o navio ti-
Delgada às 05h21, para uma das suas         Força Aérea Portuguesa (FAP).                  nha estado tão leve…
missões mais importantes, salvar uma
vida humana, a uma distância de 3.700         Durante o trânsito, o nosso amigo Ro-          No dia 1 de dezembro fomos visitar o
km de terra.                                land foi acompanhado permanentemente           Roland ao Hospital Divino Espírito Santo,
                                            quer, pelo médico, quer pela enfermeira        em Ponta Delgada; acompanhado pela
  Pela longa distância a percorrer, cerca   do navio. Quando lhe dei as boas vindas        sua esposa Lisa, ainda estava incrédulo
de 2000 milhas, o primeiro desafio com      a bordo, mostrou-se espantado ao saber         com o que tinha acontecido…
que nos deparámos foi planear a gestão      que tínhamos vindo de tão longe para o
das 192 toneladas de combustivel e 80 to-   vir buscar, disse-lhe que essa era a nossa       Depois de uns dias em Ponta Delgada, re-
neladas de água (o navio tinha o sistema    missão e que a Marinha Portuguesa tudo         gressou a casa, na Califórnia, onde vive fe-
de produção de água doce inoperacional);    faria para salvar a sua vida, daí a dois dias  liz com a sua familia. Hoje, Roland mantém
assim, arrancámos a uma velocidade de 17    iria estar no Hospital em Ponta Delgada na     contacto connosco, pondo-nos sempre a
nós e em regime de água fechada, abrindo    companhia da sua esposa.                       par dos progressos da sua recuperação.
a água apenas durante três períodos diári-
os de 20 minutos para que a guarnição pu-     Durante a sua estadia a bordo recebeu        CONCLUSÃO
desse fazer a sua higiene pessoal.          diariamente várias visitas da guarnição,
                                            que o foram sempre animando.                     Ao efetuar uma evacuação médica tão
  A gestão da aguada foi sempre uma                                                        longe de terra, em condições meteoroló-
preocupação. A partir do dia 25 de no-        Com o agravar das condições meteoro-         gicas tão adversas, o navio e a sua guarni-
vembro, novas medidas foram tomadas,        lógicas, mares de 7 metros e ventos de 45      ção tinham sido levados ao limite, tínha-
implementando-se um regime de água          nós chegámos ao local da extração no dia       mos percorrido cerca de 2000 milhas, o
fechada mais restrito, com a abertura da    28 de novembro às 09h16.                       equivalente a ir de Lisboa a Paris e voltar.
água em dois periodos de 20 minutos, e
as refeições passaram a ser feitas com o      O EH101 estava acompanhado por um              No final, ficámos muito orgulhosos por
mínimo de palamenta possível. Diaria-       C130 que tinha vindo do Montijo para           termos salvo o Roland, e com o sentimen-
mente reuni com o meu engenheiro de         direcionar o Merlin para a nossa posi-         to de missão cumprida, algo que guarda-
máquinas, para controlarmos o consumo       ção, pois este estava à distância máxi-        remos para sempre nas nossas vidas.
de combustível e fazer a gestão dos tan-    ma de operação, não havendo margem
ques para que o navio nunca perdesse a      para erros.                                                                             Colaboração do
sua estabilidade.                                                                               COMANDO DO NRP BAPTISTA DE ANDRADE
                                              Às 10h00, vimos o Roland ser içado pelo
  Com o decorrer das horas íamos sendo      helicóptero, com destino a Ponta Delgada,
informados pelo MRCC Delgada do agra-       onde chegaria por volta das 13h00.
vamento das condições do ferido; aumen-
támos gradualmente o regime de máqui-
nas para a velocidade máxima, passando
a navegar a 20 nós, tirando partido do mar
na popa.

  Dia 26 de novembro, por volta das
12h00, estabelecemos comunicações com
o iate Bravura, às 13h00 iniciámos a eva-
cuação médica; se durante os dias anteri-
ores contámos com boas condições mete-
orológicas, ao chegar ao local deparámo-
nos com mares de 4 metros e ventos de
35 nós.

  A equipa médica dirigiu-se para bordo
do iate Bravura, contando com a preciosa
ajuda da equipa de fuzileiros embarcada
na Baptista. Às 14h55 tínhamos o ferido a
bordo, deixámos no iate alimentação e ga-
sóleo, bens fundamentais para que o Bra-
vura continuasse viagem até ao seu desti-
no nas Caraíbas.

  Este gesto deu um grande ânimo aos
dois tripulantes que permaneceram a bor-

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