Page 30 - Revista da Armada
P. 30

HIERARQUIA DA MARINHA                                                                                                    2

Não se sabe ao certo a data do apa-                ALMIRANTE                                     bique, que existem no Arquivo Histórico
          recimento desta palavra ligada à                                                       Ultramarino duas petições para o cargo de
          hierarquia da marinha. Segundo         régio refere-se às competências do almiran-     almirante, datadas de 1608 e 1646. Porém,
a tradição, terá sido D. Afonso Henriques        te sobre os alcaides, arrais e petintais.       é sabido que, no reinado dos Filipes, come-
quem, pela primeira vez, concedeu o título                                                       çou a dar-se aos oficiais generais da mari-
de almirante a D. Fuas Roupinho. Porém,             O título de almirante acabou por defi-       nha, a mesma designação que tinham os do
desconhece-se a que função corresponderia        nhar na posse dos descendentes de Pezagno,      exército. Exemplo disso é o facto da recon-
e se há alguma fonte documental que apoie        essencialmente porque a obtenção e o aper-      quista da cidade da Baía ter sido feita em
esta lenda.                                      feiçoamento dos conhecimentos técnicos e        1625 por uma esquadra espanhola e outra
                                                 científicos necessários ao desempenho das       portuguesa, com 20 e 17 navios respectiva-
   Segundo o Dicionário Etimológico da           mais altas funções de comando nas ma-           mente, sendo cada uma delas comandada
Língua Portuguesa, de José Pedro Macha-          rinhas, requerem hábitos de estudo e de         por um capitão-general.
do, o termo almirante deriva do árabe al mir     trabalho que não fluem por via hereditária.
(forma vulgar de “amir”, que significa “che-     Nestas circunstâncias, com o decorrer dos          As designações próprias dos exércitos
fe” ou “dirigente”) com o sufixo românico        tempos, a designação de almirante foi desa-     mantiveram-se na hierarquia da marinha
“ante”. Embora haja concordância quanto à        parecendo da hierarquia da marinha, sendo       durante muitos anos, até que, a 22 de Fe-
presença do vocábulo “amir”, o mesmo não         suplantada pela denominação de capitão          vereiro de 1797, o príncipe Regente D. João
se verifica quanto à explicação do sufixo,       mor da frota ou da armada.                      decretou que os tenentes-generais com
para o qual subsistem diferentes opiniões.                                                       exercício em marinha seriam denominados
                                                    No auge da expansão marítima houve           vice-almirantes e que ao posto de almirante
   As Ordenações Afonsinas referem que o         a preocupação de fazer reviver o título e a     teriam acesso os antigos vice-almirantes. De
primeiro almirante de Portugal foi o geno-       função de almirante, D. Manuel I concedeu       então para cá o termo almirante permane-
vês Emmanuel Pezagno, nomeado em 1317            a Vasco da Gama a dignidade de “Almiran-        ceu ininterruptamente associado a vários
por D. Dinis. Porém, como notou Silva Mar-       te dos Mares da Índia”, a que correspon-        postos da hierarquia e a algumas designa-
ques em Descobrimentos Portugueses, a tal        diam “honras, preeminências, liberdades,        ções honoríficas da marinha.
afirmação pode contrapor-se um documen-          poder, jurisdição, rendas, foros e direitos”
to datado de 6 de Fevereiro de 1288, ano         especiais. Contudo, este título privativo da                           António Silva Ribeiro
da coroação daquele monarca, que alude           descendência de Vasco da Gama, também
Domingo Martins como “dicto almirante”.          acabou por fenecer pelas razões atrás aludi-                                                   CALM
Dez anos mais tarde um outro documento           das.

                                                    Maria de Lurdes Freitas Ferraz refere,
                                                 em Documentação Histórica de Moçam-

VIGIA DA HISTÓRIA                                                                                29

                                       COMBATE À PIRATARIA
Numa altura em que a pirataria no
          mar está na ordem do dia afigura-      baridade causou grande horror na cidade         sendo seu inimigo, os matasse.
          -se de interessar relatar um episódio  de Lisboa, correu célere pois, pouco mais          Não consta que o povo de Lisboa, tão hor-
                                                 de um mês decorrido, quatro dos piratas já
                                                                                                 rorizado com o crime cometido, ficasse igual-
ocorrido entre nós.                              haviam sido presos, eram eles os espanhóis mente horrorizado com a barbárie da pena já
A 2 de Junho de 1780 largou de Lisboa o João Paulo Monge, António Joaquim Mon- que os três condenados foram arrastados por
navio sueco Patrioten de que era capitão J. ge seu irmão e José Cerqueira e o português cavalos até à praça do Desembarque, junto
Paulsen. Na noite da saída e já fora da barra, Plácido Fernandes Maciel. Os restantes três à Ribeira Nova, onde foram enforcados, as
foi o navio assaltado por sete homens arma- piratas, o português João Martins Polido e os suas cabeças foram depois colocadas em pos-
dos que mataram todos os passageiros e tri- espanhóis Inácio Dias e Diogo Félix Lavado tes altos junto à praia e os corpos esquarteja-
pulantes que encontraram.                        encontravam-se foragidos em parte desco- dos e espalhados desde o local da forca até
Do massacre escaparam o mestre e o seu nhecida.                                                  ao cais de Belém, onde deveriam permanecer
filho que se esconderam e um marinheiro          Tão rápido quanto as averiguações as- até serem consumidos pelo tempo.
que se lançou ao mar e foi recolhido por uma sim decorreu o julgamento dos piratas que,
embarcação quando nadava para terra.             a 14 de Agosto de 1781, viram executadas
Após o saque, os piratas fizeram dois as respectivas sentenças, os irmãos Monge o                Com.E.Gomes

rombos no navio com o propósito de o afun- português Maciel foram condenados à morte Nota: Não se pense que este foi um episódio isolado
dar tentando, assim, esconder o seu crime.       só escapando José Cerqueira que entretanto pois, em 12 de Agosto de 1749, o Cônsul de Inglaterra
   Quis o Destino, porém, que mesmo na-          falecera na prisão.                             comunicava a condenação de 4 marinheiros portu-
quelas condições viesse o navio a encalhar          Quanto aos três foragidos deveriam ser       gueses por acto semelhante contra o navio americano
junto ao Cabo Espichel onde veio a ser en-                                                       Venus de Nova York.
contrado.                                        alertadas as autoridades do Reino para que
                                                 fossem presos e executada a sentença de         Fonte: Gazeta de Lisboa de 30 de Junho de 1780
   A averiguação do caso, que pela bar-          morte ou para que qualquer pessoa do povo, não  e 18 de Agosto de 1781
                                                                                                 List of State Papers Vol. II

30 FEVEREIRO 2011 • REVISTA DA ARMADA
   25   26   27   28   29   30   31   32   33   34   35