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REVISTA DA ARMADA | 545


              NOVAS HISTÓRIAS DA BOTICA                                                                        80



              A solidão, a poesia e o silêncio…


              Durante uma semana, quase sem falar, avançaram como sonâmbulos por um universo de angúsƟ a, iluminados apenas pelo ténue
              fulgor de insetos luminosos (…) não podiam regressar porque a vereda que iam abrindo tornava-se a fechar em pouco tempo (…)
                                                                                       In Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez


                 hamem-me tolo, mas sempre conheci a solidão. Conheço-a   do poder a todo o custo, que para alguns – descobrimos naquelas
              Cmelhor do que a minha outra companheira de infância, a   circunstâncias – preenche todo o ser.
              poesia… As duas completam-se sem grande arte, no interior da   Durante a noite, levanto-me e escrevo. Escrevo sobre a raiva,
              minha alma. Quando ouço a voz da primeira, por vezes apenas   o medo, mas sobretudo sobre a esperança… Também eu, nestas
              um sussurro na  fl oresta densa das muitas emoções que nos   alturas, me agarro ao “ténue fulgor dos insetos luminosos”… Preo-
              preenchem a correria do dia a  dia, chamo pela outra. O fruto   cupa-me sobretudo o facto de que as veredas que esforçadamente
              da obra destes gémeos desiguais chama-se escrita. Sim, desta   se vão abrindo, repeƟ damente se tornam a fechar em pouco
              escrita como a que se segue, silenciosa, que normalmente   tempo, enredadas numa fl oresta densa de ordens e contraordens,
              guardo para mim...”                                 opiniões e ideias, juízos e impressões… todas resultando em per-
               Tal como na citação acima, também eu Ɵ ve uma semana muito   versas certezas. Estas certezas têm resultado no falhanço, rotundo
              diİ cil, traído por pessoas que defendi. Fiquei cansado de outros,   e evidente, de um processo de Reforma que não parece ser do
                                                                                            agrado de ninguém…
                                                                                             Preocupo-me especialmente
                                                                                            com os mais jovens na Saúde
                                                                                            Naval. Sim, aqueles que no
                                                                                            início da sua vida ainda acre-
                                                                                            ditam, ainda têm esperança.
                                                                                            Gostaria muito de lhes fornecer
                                                                                            um caminho, uma orientação.
                                                                                            Dizer-lhes que vão poder fazer
                                                                                            isto e aquilo, que a carreira mili-
                                                                                            tar deles será “assim e assado”,
                                                                                            que clinicamente vão poder ter
                                                                                            saƟ sfação nisto e naquilo… Hoje
                                                                                            não consigo, a úlƟ ma  semana
                                                                                            calou-me, de tanta turbulência,
                                                                                            tanta ausência de dignidade,
                                                                                            tanta solidão…
                                                                                             É um fardo pesado este que
                                                                                            carrego, servir de farol para
                                                                                            outros, quando tudo à volta está
                                                                                            envolto num nevoeiro espesso,
                                                                                            indisƟ nto de esperança. Talvez
                                                                                            tenha sido só uma má semana,
                                                                                            em que sinto que não pude fazer
                                                                                            qualquer diferença. Ora, fazer a
                                                                                            diferença foi sempre o que pro-
                                                                                            curei fazer na vida, em todas as
              que não compreendem o senƟ r naval, nem os códigos que ele   circunstâncias… Mesmo naquele arƟ go em 2003 (há 16 anos), onde
              tem. Fora ainda fui agredido por vozes melhor aplicadas num   afi rmei que o Hospital da Marinha precisaria de uma forte evolução
              qualquer mercado de produtos baratos, de plásƟ co, procurando   técnica senão seria encerrado, pois seria apenas mais um. Enganei-
              defender o direito de alguns ao Céu e aceitando, sem piedade,   -me aí também, afi nal parece que o Hospital da Marinha vai conƟ -
              que outros labutem numa escuridão vazia de esperança… Afi -  nuar bem aberto… como Vila Galé Apolónia…
              nal, os outros (nós mesmos) cometeram o supremo pecado de   Aos meus  fi éis leitores peço desculpa. Não sei escrever sem
              não pertencer ao grupo dos deuses alados, a quem, por direito   senƟ mentos, sem estados de alma (na verdade também não
              divino, tudo é permiƟ do.                           gosto de ler ninguém que escreva sem senƟ r…), nem a dignidade
               À noite tomo um banho, na esperança de que a água me limpe   da Revista da Armada mereceria menos. Talvez seja o momento
              os senƟ mentos, mas não deixo de senƟ r a solidão, especialmente   de retornar ao Silêncio, que tanto aprecio, para escrever sobre
              porque outros ainda, que já usaram os nossos sapatos, parecem   outros senƟ mentos, que, sem mendigar por perdão, sempre pro-
              agora ter esquecido a sua genéƟ ca, a essência do seu ser. São as   curei emprestar a estas palavras…
              piores dores, porque geram um senƟ mento de falsidade e des-
              confi ança, seguidos de uma profunda tristeza, ligada à procura                                      Doc


                                                                                                     NOVEMBRO 2019  29
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