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REVISTA DA ARMADA | 545
ESTÓRIAS 53
O EMBARQUE DE UM “INTRUSO”
2ª Parte – A ação de Surveillance
Foto Carlos Rodrigues
o quarto dia rumámos de novo ao sul, passámos o Cabo Raso (iv) perceber a importância das cartas de navegação (recordaram-
Ae a serra da Arrábida e fomos atracar ao cais da Marinha em -me os tempos em que, no Cuando-Cubango – onde trabalhei com
Troia, onde recebemos um grupo de jovens fuzileiros com os os militares do DFE aquartelado em Vila Nova da Armada – e nos
seus ơ picos botes Zebro que, na fase fi nal do seu curso, iriam ser quartéis-generais de Luanda e do Luso, aquando do serviço militar,
desembarcados numa praia em Pinheiro da Cruz e daí iniciariam estava familiarizado com as cartas do vasto território de Angola);
uma marcha até à Escola, em Vale de Zebro. e (v) assisƟ r ao desempenho profi ssional da guarnição aquando
Porque tudo pode acontecer, chega a informação que dois navios dum alerta real num dos geradores do navio e de exercícios (simu-
da Marinha de Guerra russa estão em navegação ao longo da lações) de fogo a bordo e avaria no leme.
nossa costa. Vamos estar, assim, envolvidos numa missão NATO de Já fundeado em Sesimbra, a lancha de fi scalização Pégaso abas-
surveillance, acompanhando a progressão dum deles, o destroyer tece-nos com pão fresco e traz-nos o novo imediato, o 1TEN David,
VALM Kulakov, da classe Udaloy – navios construídos nos úlƟ mos e duas praças que estavam de baixa e de férias. Está assim com-
anos da Guerra Fria, deslocando 8.700 toneladas, dotados dos pleta a guarnição do patrulha. Deixamos Sesimbra rumo ao norte,
mais sofi sƟ cados Ɵ pos de armas existentes no arsenal da marinha nuns económicos catorze nós.
russa –, que segue a velocidade lenta no senƟ do norte-sul. Haverá ainda tempo para, em colaboração com a FAP, fazer bus-
Já bem perto do Cabo de S. Vicente, um avião C-295M, da BA6 do cas (infruơ feras) no senƟ do de localizar um tripulante de um car-
MonƟ jo, surge nos céus, passa sobre nós e, após contacto visual com gueiro da companhia “MSC” que terá caído ao mar e fi scalizar algu-
o navio russo, afasta-se a caminho de casa. Ao séƟ mo dia da minha mas boias de sinalização, dada a sua importância para a segurança
presença a bordo, dada a posição geográfi ca, deixa de haver inte- da navegação. Nessa noite, no jantar de despedida na câmara dos
resse em manter o acompanhamento ao VALM Kulakov, pelo que ofi ciais, abro um Porto de 2013 levado expressamente de Lisboa,
iniciámos a viagem rumo ao norte, para fundear em Sesimbra. para recordar não só a data da entrada ao serviço do navio que me
Nesse trajeto cruzámo-nos com o LST Ourage que, depois de acolheu e que foi a minha casa durante oito memoráveis dias, mas,
muitos anos ao serviço da Armada francesa, ia a reboque para um fundamentalmente, para agradecer a todos os homens e mulheres
eventual desƟ no fi nal num sucateiro no Oriente. Havíamo-nos já que Ɵ ve o privilégio de conhecer e com quem aprendi muito.
cruzado com imponentes navios mercantes como o porta-conten- Manhã cedo aí estão as gaivotas, irmãs de Fernão Capelo, a anun-
tores MSC Sasha e o cargueiro WEC Mondriaan, prova cabal de que ciar-nos que a terra está próxima. Eis Viana do Castelo, tendo como
o mar é uma via de crucial importância para o comércio mundial e pano de fundo o Mosteiro da Senhora da Agonia – uma fotogra-
as águas portuguesas têm um valor acrescido para o Ocidente, o fi a que marcará um tempo que quero que seja inesquecível. Des-
que impõe à nossa Armada possuir meios modernos que as con- peço-me da Marinha e das suas gentes, já com essas medonhas
trolem e fi scalizem. saudades que tantos poetas da nossa terra evocaram ao longo de
Durante a minha permanência a bordo Ɵ ve a oportunidade de: (i) muitos séculos.
almoçar na messe dos sargentos (“onde a Marinha está, o manjar A todos vós, homens e mulheres do Figueira da Foz, o meu mais
é do melhor que há”); (ii) conhecer expressões que são património profundo agradecimento pelo que me ensinaram numa missão
dos marinheiros, casos de “bordada”, “mestre do navio” (sargento que é sempre graƟ fi cante – servirem a pátria e dela tão pouco
quando atracado), “ofi cial de quarto”, “plantão” (cabo ou mari- receberem. Bem hajam, e que as ondas do Adamastor, ao passa-
nheiro) e muitas outras; (iii) conversar com todos os elementos da rem por vós, digam bem alto: “nestes não cabe o medo pois são
guarnição para conhecer melhor o que é a dura vida de um mari- marinheiros de Portugal”.
nheiro e as saudades que têm dos seus familiares, em especial dos
fi lhos muito novos (logo que a net e as comunicações funcionam, é Manuel José Rafael de Jesus Alves
uma alegria ver todos a contactarem ansiosamente os seus lares); Procurador da República Adjunto (jubilado)
28 NOVEMBRO 2019

