Page 282 - Revista da Armada
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VIGIA DA HISTÓRIA 2
Os Sinos de bordo
Os Sinos de bordo
ra norma que os jesuítas que, no séc. XVI, seguiam embarcados “ ... Logo aos dois ou três dias, depois da nossa partida, se começou
para a Índia relatassem, por escrito, aos seus superiores e com- a dizer as ladaínhas , as quais se disseram todos os dias, ainda que
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Epanheiros na Ordem, a forma como decorrera a viagem com es- chovesse e fizesse sol, senão aos sábados, por se dizer a Salvé dos Ma-
pecial ênfase nas actividades que haviam desenvolvido tanto as mate- rinheiros , a qual estes costumam dizer nesta viagem; assim se pôs
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riais como as espirituais. um dos sinos que vinha, para S. Paulo , com que tangia a missa , a
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Foi na leitura de uma dessas cartas que, estou em crer ter encontrado pregação e as ladainhas e a doutrina.. E puseram-no ao pé do mastro
a origem para a existência, desde então, do sino a bordo dos navios. grande e também as Avé-Marias .... também se ensinava a doutrina aos
Em 1562 saiu para a Índia, a 15 e 16 de Março, uma Armada consti- meninos e pretos que vinham na nau ainda que era trabalho ajuntá-los
tuída pelas naus “S. Martinho”, “Capitania”, “S. Vicente”, “Esperança”, pela nau porque, ainda que tangesse o sino e a campainha era neces-
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“Tigre” e “Rainha dos Anjos”. Nessa Armada seguiam embarcados 8 sário i-los buscar...”
jesuítas assim distribuídos, na Capitania o padre Tonda e os irmãos Quer pela ausência de qualquer outra referência anterior, quer tam-
Gonçalo Vaz e António Fernandes, na nau “Rainha dos Anjos” o pa- bém pelo carácter de novidade como o facto é relatado, parece ser esta
dre Fernão da Cunha e o irmão Miguel Bretão e na nau “S. Vicente” os a primeira vez que se terá usado a bordo um sino utilizado, então de
irmãos Manuel Lobo, Bastião Gonçalves e Vicentio. forma idêntica à que se utilizava, em terra nas igrejas.
Desta viagem são conhecidas cartas de Fernão da Cunha, Bastião A coincidência de a bordo daquela nau seguirem sinos e a observa-
Gonçalves e António Fernandes sendo que a carta deste último é aque- ção quanto à utilidade que teriam nalguns actos da vida a bordo esta-
la que, por agora, nos interessa. rão, quase certamente, na origem da sua instalação a bordo dos navios,
Tendo chegado a Goa no dia 4 de Setembro desse ano e desem- passando a constituir uma peça de equipamento fundamental. A sua
barcado dois depois, logo a 15, escrevia o irmão António Fernandes utilização ainda hoje mantém o objectivo inicial de aviso.
uma carta para o Reino relatando alguns dos factos ocorridos na via- Z
gem, como o avistamento de terra, as condições de tempo (calmarias Com. E. Gomes
e tempestades), a passagem do Equador e do Cabo da Boa Esperança, Notas:
os acidentes, as rixas, os doentes e o seu tratamento, os passageiros, (1) As ladainhas eram, ao tempo, uma forte tradição dos portugueses, a bordo eram
entre os quais seguiam mulheres, totalmente isoladas dos homens normalmente rezadas, ao anoitecer, pelos tripulantes e passageiros, sendo, por vezes,
e a propósito das quais relata um episódio trágico ocorrido em Mo- cantadas e acompanhadas com música.
(2) A Salvé dos Marinheiros ocorria aos sábados, depois do anoitecer, compondo-se da
çambique. Estando as mulheres instaladas na varanda do leme, um oração do Salvé acompanhada de orações compostas pelos marinheiros. A cerimónia
mancebo, de que não ficou registado o nome, que as pretendia ver, era organizada e dirigida habitualmente pelo piloto, terminando usualmente ao som
resolveu lançar-se à água para, nadando, se chegar próximo da va- de trombetas.
randa onde se encontravam, quis o acaso que fosse atacado por um (3) Igreja de Goa construída em 1543 e onde, inicialmente, se encontrava o sarcófago de
tubarão que, ao arrancar-lhe uma perna e parte de um braço, lhe pro- S. Francisco Xavier até à sua transferência para a Igreja do Bom Jesus.
(4) Por aquele período a bordo das naus a missa não incluía a consagração do pão e do
vocou a morte. vinho pelo que as missas eram designadas por missas secas.
No que se refere à actividade espiritual o autor deixou-nos o seguin- (5) Está muito documentado o uso a bordo, em datas anteriores, de campainhas pelos
te relato: padres como forma de convocação para as diversas actividades religiosas.
Na Rota dos Faróis dos Açores
Na Rota dos Faróis dos Açores
ntre 14 e 28 de Maio realizou-se a 5ª edição da actividade re- CALM Agostinho Ramos da Silva deu aos escuteiros a honra da sua
gional “O Mar que Nos Une” que contou com a participação visita a bordo. O primeiro farol a ser visitado foi o Farol da Ferraria
Ede 55 escuteiros, marítimos e terrestres, de todas as ilhas dos (na ilha de São Miguel). Rumo a Santa Maria o veleiro passou pelo
Açores, excepto o Corvo, tendo 9 destes desempenhado funções de Farol das Formigas onde apesar de não termos desembarcado pu-
oficiais no veleiro navio-escola inglês demos contemplá-lo. Na ilha de Santa
“Stavros Niarchos”. Maria visitou-se o Farol de Gonçalo Ve-
Neste ano, a mística adoptada foi “Na lho. Já desembarcados na Terceira, e em
Rota dos Faróis” em que os nossos escu- pleno Dia da Marinha, visitou-se o Fa-
teiros tomaram o Farol como símbolo de rol das Contendas. Nesta ilha realizou-
esperança e a sua luz como bom cami- se a cerimónia principal da actividade e
nho a seguir. Tiveram ainda a oportuni- que contou com a presença do coman-
dade de visitar diversos faróis de várias dante João Gonçalves, capitão do porto
ilhas dos Açores onde os faroleiros locais da Praia da Vitória, que no dia seguinte
receberam os participantes desta activi- foi recebido a bordo do veleiro Stavros
dade com grande simpatia, amabilidade acompanhado por vários faroleiros da
e competência. Estes explicaram não só mesma ilha. No segundo cruzeiro visi-
a função mas também o funcionamento tou-se o Farol dos Capelinhos, na ilha
do farol. Os escuteiros aprenderam que do Faial, e que, apesar de inactivo tem
cada farol tem determinadas características que o tornam único no grande valor histórico nos Açores.
mundo para que este seja facilmente identificado por qualquer em- É de louvar e agradecer o apoio da Marinha de Guerra Portuguesa,
barcação que por ele passe e demonstraram também grande curiosi- que sempre colaborou com os escuteiros marítimos, especialmente
dade acerca da vida dos faroleiros e funções desempenhadas por es- na actividade “O Mar que Nos Une”.
tes, nomeadamente o cuidado que têm na impecável manutenção do Z
farol. Durante a permanência do veleiro no Porto de Ponta Delgada o Ana Machado e Rayanne Silva
28 AGOSTO 2008 U REVISTA DA ARMADA