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REVISTA DA ARMADA | 542
GUERRA NAVAL: ÁGUA, FOGO E LOGOS
1ª Parte
ÁGUA E FOGO
imensa quanƟ dade de água que
A cobre a superİ cie da Terra consƟ tui a
caracterísƟ ca mais impressionante e mais
evidente do nosso planeta quando visto
do espaço. Por esta razão é muitas vezes
designado como “Planeta Azul”. A maior
parte da água pertence aos oceanos,
distribuindo-se a pequena percentagem
restante pelos lagos, rios, calotas glacia-
res e camadas subterrâneas . A origem
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das águas oceânicas conƟ nua envolta
em mistério, mas parece verosímil que
provenha na sua maior parte do vapor
libertado pelas rochas recém-formadas
durante o arrefecimento da Terra, para,
por fi m, se tornar num composto essen-
cial da atmosfera primordial do planeta.
Mais tarde, estando a superİ cie da Terra
sufi cientemente fria, o vapor caiu sob a
forma de chuva e formou os charcos e os
lagos que, fundindo-se, consƟ tuíram os comunicação, deu um salto de gigante no como propulsora de projéteis, a arƟ lharia
primeiros oceanos há cerca de quatro mil senƟ do da sua evolução cultural. As vias passou a ser um efi ciente meio de des-
milhões de anos . de comunicação através do meio líquido truição.
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Quando o Homem deixou de olhar os proporcionaram uma nova mobilidade às A uƟ lização da palavra “fogo” entrou
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cursos de água, rios e oceanos como bar- pessoas, ao transporte de produtos tran- no léxico naval muito cedo, mesmo antes
reiras e passou a encará-los como vias de sacionáveis e ainda às suas ideias . de a arƟ lharia fazer parte da panóplia
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Exemplos deste facto de armas de bordo. Foguear signifi cava
no mundo anƟ go: a civi- fazer sinais por meio de farol ou foga-
lização fenícia, que levou chos, lançando fogo à pólvora ; o Fogão
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o alfabeto e a sua cultura era o móvel de ferro onde se cozinhava
ao Mediterrâneo Ociden- a bordo, e o “fogo”, como incêndio, ou
tal; a civilização grega, seja, fogo incontrolado, era, e conƟ nua
que desenvolveu e legou a ser, um dos elementos mais temíveis
ao mundo os padrões de para quem anda no mar. No entanto, com
pensamento e a expres- o advento da arƟ lharia naval, a palavra
são matricial da nossa “fogo” ganhou outros signifi cados mais
civilização; e a civilização abrangentes e variados. Assim, passou a
Romana, que desenvolveu chamar-se “bocas-de-fogo” aos canhões;
os conceitos de ordem, lei “fazer fogo” ao ato de disparar; “rom-
e jusƟ ça e que, através da per fogo” ao ato de começar a disparar;
livre circulação terrestre “fogo!” à voz de comando de disparar;
e maríƟ ma dentro das “fogo de caça”, “fogo de través” e “fogo
fronteiras do império, se de reƟ rada” aos canhões que, respeƟ va-
consƟ tuiu como terreno mente, estavam posicionados para dispa-
férƟ l para a propagação rar pela proa e amuras, pelo través e pela
do crisƟ anismo. popa e alhetas .
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O fogo é um elemento O “brulote” era um navio carregado com
vital para o Homem e tem matérias infl amáveis que, derivando com
sido empregue de modo a corrente ou com o vento, era lançado
diversifi cado há bastante contra os navios inimigos. Outras vezes era
tempo. Na guerra naval rebocado, sendo-lhe deitado fogo quando
não sucedeu de modo encostado ao outro navio. Os seus efei-
diferente, e desde que tos eram normalmente devastadores e
foi descoberta a capaci- podiam mesmo ser decisivos para a vitória
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dade explosiva da pólvora de quem os uƟ lizava de modo efi caz .
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