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REVISTA DA ARMADA | 542
Etapas da consciência situacional.
pirâmide de evolução com quatro competências não técnicas CONSCIÊNCIA SITUACIONAL E A EQUIPA
fundamentais para o BRM: consciência situacional, tomada de
decisão, comunicação e liderança. Existe um provérbio africano que nos diz “Se quer ir rápido,
Na base desta pirâmide, encontra-se a consciência situacional vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo”. E quando se fala em
(do inglês situaƟ onal awareness). À semelhança do segundo consciência situacional, temos também de pensar em grupo... Na
patamar desta pirâmide, a tomada de decisão, esta é uma com- grande maioria das realidades, não trabalhamos sozinhos, mas
petência cogniƟ va que, basicamente, nos permite saber o que sim em equipa e, por isso, é fundamental pensar-se também na
existe à nossa volta. Neste segundo arƟ go, o foco será esta cons- consciência situacional parƟ lhada responsável pelo sucesso da
ciência e a importância que ela pode ter para o funcionamento equipa. Num navio, fazemos parte de uma equipa e são os nos-
das equipas que operam no mar. sos contributos individuais que, juntos e unifi cados, permitem
que essa equipa funcione e contribua com o seu desempenho
para a missão do navio. Apenas com todos os elementos a par-
CONSCIÊNCIA SITUACIONAL: Ɵ lhar de uma mentalidade comum, é que se conseguem aƟ ngir
“DIZ-ME ONDE ESTÁS, DIR-TE-EI O QUE TE os objeƟ vos defi nidos para a sua equipa. E se, individualmente,
PODE ACONTECER” o nível de consciência situacional está na base de tudo, o mesmo
acontece ao nível da equipa.
Navegar, junto à costa ou em alto mar, implica ter sempre os O nível de consciência situacional individual, e a soma dos
senƟ dos alerta. É através deles que percebemos onde estamos, níveis de todos os elementos da equipa, dará origem à consciên-
o que temos de fazer para chegar onde queremos e que obstá- cia situacional total ou parƟ lhada. É esta consciência situacional
culos podemos encontrar no caminho. São também esses senƟ - parƟ lhada que permite ao Ofi cial de Quarto à Ponte decidir afas-
dos que nos permitem perceber como está a nossa equipa, que tar-se de um contacto. É esta consciência situacional parƟ lhada
descanso ela precisa e que treino é preciso fazer para melhorar que permite ao Ofi cial de Ação TáƟ ca do centro de operações de
o nível de desempenho. E o que nos permite conseguir ter todos uma fragata escolher a melhor táƟ ca para enfrentar a ameaça
estes dados? O nosso nível de consciência situacional. iminente. E é esta mesma consciência situacional parƟ lhada que,
Se procurarmos uma defi nição de consciência situacional, ire- nos nossos tempos livres, nos diz como se deve movimentar uma
mos encontrar várias possíveis. Uma das mais aceites foi apre- equipa de voleibol em campo para marcar o ponto no set deci-
sentada, em 1995, por Mika Endsley, engenheira da United Sta- sivo!
tes Air Force: a consciência situacional de cada um compreende A consciência situacional parƟ lhada nem sempre é fácil de
“a perceção dos elementos do ambiente num dado volume de alcançar e defi ciências nesse nível de consciência são, quase
espaço e tempo, a compreensão dos seus signifi cados e a proje- sempre, as causadoras de decisões mal tomadas ou de informa-
ção dos seus estados no futuro próximo”. No fundo, e pensando ção mal comunicada. É por isso fundamental desenvolver a capa-
num navio, falar-se de consciência situacional é conhecermos o cidade de aquisição de consciência situacional antes de qualquer
nosso navio e como ele se comporta, conhecermos a equipa que uma outra competência, seja ela técnica ou não técnica. Sem a
está connosco e sabermos o que se passa fora do nosso navio, consciência situacional não seremos capazes de perceber onde
para que consigamos defi nir o rumo que iremos seguir, anteci- estamos, com quem estamos e como estamos, pilares funda-
pando situações que possam vir a acontecer. Com isto, temos as mentais para conseguirmos agir em qualquer situação.
três etapas em que se divide o processo do ganho de consciência
situacional por cada um de nós: recolha de informação, interpre- Sandra Campaniço Cavaleiro
tação dessa informação e antecipação de estados futuros. 1TEN TSN-QUI
Estas três etapas acontecem de forma sequencial e são as falhas
em cada uma delas que podem comprometer a imagem que cada
um de nós constrói da situação em que se encontra. Se não se con- No próximo arƟ go…
seguir recolher toda a informação necessária ou se não se conseguir
interpretar o que ela signifi ca, porque ela é escassa ou excessiva, Saber onde estamos e que problemas podemos encontrar são
não será possível compreender a situação em que nos encontra- a base para pensarmos em diferentes soluções para esses pro-
mos. Essas falhas, por mais pequenas e imperceơ veis que possam blemas, escolhermos a que consideramos mais adequada e
ser, impedem-nos de antever situações futuras e, assim, iniciarem revermos depois os resultados obƟ dos. No fundo, a consciên-
uma cadeia de erro cujas consequências apenas podem ser deteta- cia situacional conduz-nos à tomada de decisão, o “segundo
das tarde demais... E é assim que os acidentes acontecem. patamar” da pirâmide de competências não técnicas e do
Pensando, por exemplo, na equipa que está na ponte do navio BRM. O próximo arƟ go abordará a tomada de decisão e a sua
ou no centro de operações de uma fragata... será que a consciên- importância para o sucesso de qualquer equipa.
cia situacional termina em cada indivíduo?
JULHO 2019 11

