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REVISTA DA ARMADA | 542


              GESTÃO DOS FLUXOS MIGRATÓRIOS

              IRREGULARES E CONTROLO


              DE FRONTEIRAS NA EUROPA



              1ª Parte



              INTRODUÇÃO                                          mantenham inalteradas as condições de instabilidade políƟ ca nos
                                                                  países do Médio Oriente e do Norte de África, a par da persistên-
               Apesar da redução drásƟ ca de chegadas de migrantes irregulares   cia de assimetrias socioeconómicas profundas e níveis de desen-
              à Europa, mantém-se a crise de refugiados internacional que desde   volvimento humano que separam a Europa da realidade africana.
              2015 deixou a União Europeia (UE) à deriva na procura de um con-  Assim, o grande desafi o da UE nas próximas décadas consiste em
              senso relaƟ vo às soluções para este drama humanitário. Temendo   encontrar respostas adequadas para lidar com conjunturas em
              cada vez mais as ameaças terroristas e com o aumento das aƟ tu-  rápida mutação e onde coexistem realidades diversas. A curto
              des xenófobas, esta crise quesƟ ona os valores básicos da UE no que   prazo, a prioridade é, inegavelmente, lidar com a atual crise migra-
              concerne ao respeito e salvaguarda dos direitos humanos, conse-  tória no Mediterrâneo e este esforço tem-se centrado na dimen-
              quentemente o princípio de proteção internacional, e a liberdade   são da gestão de fronteiras. No entanto, para além da segurança
              de circulação, princípio essencial à construção do espaço Schengen.  da UE, está em causa a segurança humana destes migrantes, que
               A fronteira mediterrânea da UE foi idenƟ fi cada, em 2015, como   facilmente se envolvem em redes de tráfi co ou contrabando de
              a fronteira mais letal do mundo. Todos os dias milhares de pes-  pessoas com o intuito de chegar à Europa.
              soas arriscam as suas vidas em rotas por terra e mar para entrar   Este arƟ go propõe analisar as dinâmicas dos fl uxos migratórios
              na Europa, esƟ mando-se que em 2017, cerca de 2295 pessoas    no Mediterrâneo, tentando compreender de que forma as medi-
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              perderam a vida nesta travessia. Só em 2015 a FRONTEX registou   das de controlo de fronteiras pela EU alteraram estes fl uxos.
              quase 2 milhões de cruzamentos ilegais nas fronteiras externas   Para este efeito, foram selecionadas as séries de dados relaƟ vas
              dos Estados Membros, um número seis vezes superior ao regis-  ao número total de chegadas (migrantes irregulares), tendo como
              tado no ano anterior (que  Ɵ nha já sido um ano com números   fonte a FRONTEX , no intervalo entre 1 de janeiro de 2014 e 24 de
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              bastante elevados). Durante esse ano, a maior pressão sobre as   setembro de 2018.
              fronteiras externas da UE registou-se na rota do Mediterrâneo
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              Oriental , com entradas na Grécia através da Turquia. É de notar   GESTÃO DOS FLUXOS E CONTROLO
              a redução drásƟ ca nessa rota, a parƟ r de 2016, mantendo-se sig-
              nifi caƟ vo o número de deteções na rota do Mediterrâneo Central   DE FRONTEIRAS
              (com entrada em Itália). Constata-se assim que a adoção de um   A mobilidade humana é intrínseca à história do homem e
              pacote de medidas urgentes por parte da UE entre abril e maio de   desempenha um papel de relevo na defi nição das sociedades. No
              2015, após o trágico naufrágio junto à costa de Lampedusa (Itália)   entanto, este fenómeno de caráter transnacional, envolvendo paí-
              que viƟ mou mais de 700 pessoas, não se traduziu numa alteração   ses de origem, trânsito e desƟ no, torna-se complexo devido à sua
              imediata ou redução signifi caƟ va, como sucedeu no Mediterrâneo   imprevisibilidade e natureza interestadual. Desta forma, apesar
              Oriental após o acordo entre a UE e a Turquia.      da complexidade e dos desafi os que se apresentam, aumenta a
               As tragédias humanitárias no Mediterrâneo a que se assiste com   necessidade de gestão das migrações.
              frequência, viƟ mando um crescente número de pessoas, quesƟ o-  Nas úlƟ mas décadas, o regime de fronteiras foi redefi nido atra-
              nam as medidas implementadas e a capacidade da UE para gerir   vés de diferentes processos. IdenƟ fi cam-se três tendências: o pro-
              os fl uxos migratórios que têm como desƟ no os seus Estados Mem-  cesso de “densifi cação”, através do qual as fronteiras adquirem um
              bros. Afi gura-se que estes fl uxos não diminuam no futuro, caso se   signifi cado simbólico; a “desterritorialização” de fronteiras, através






















              Figura 1 - Operações no Mediterrâneo Central


              12   JULHO 2019
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