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REVISTA DA ARMADA | 545
MARINHA
Portanto o gnómon, que por vezes aƟ ngia como indicado na fi gura. Note-se que as em 7 dias e as horas do dia em doze partes,
elevadas dimensões, passou a fazer parte horas correspondentes a determinadas que Ɵ nham necessariamente duração dife-
da paisagem de muitas cidades da Mesopo- alturas do Sol variavam de dia para dia, de rente ao longo do ano, devido à variação
tâmia, China, Índia, Grécia anƟ ga e nas civi- acordo com a variação da declinação solar da declinação do Sol.
lizações Inca, Azteca e Maia (Fig. 1). Note-se ao longo do ano. De facto, este disposiƟ vo, ConƟ nuando com esta pequena resenha
que na China, para limitar os perniciosos que projetava a sombra do sol através de histórica, assinalemos o uso no Egipto,
efeitos da penumbra ao redor da projeção uma barra horizontal, sobre uma superİ cie ainda no século V a.C., de relógios de
da sombra do Sol proveniente do topo do também horizontal, media a altura do Sol e sol portáteis, cujas caracterísƟ cas já evi-
obelisco (ou gnómon), optaram por colocar não o seu ângulo horário, que, como vere- denciam importante evolução. Além das
um aro circular nesse mesmo topo, pelo mos em seguida, será o que se pretende de linhas horárias, também Ɵ nham colunas
que a projeção da luz do astro era bem defi - um relógio de sol. que as intersetavam, que eram calculadas
nida e de maior rigor. As informações originariamente obƟ das de acordo com a variação da declinação
Contudo no anƟ go Egipto, o Faraó Thut- pela sombra do astro-rei para um obser- ao longo do ano. A Figura 3 esclarece o
mosis III (1501-1448) levava nas suas via- vador num determinado lugar da Terra assunto. Note-se que tanto este como o
gens um relógio de sol portáƟ l que, embora Ɵ nham essencialmente funções de calen- anterior relógio egípcio portáƟ l deverão
uƟ lizando o princípio do gnómon, Ɵ nha uma darização, dada a variação do compri- operar-se orientando o lado produtor de
forma muito diferente. É este Ɵ po de relógio mento ou direção da projeção da sombra, sombra na direção do sol.
considerado o mais anƟ go do mundo. de dia para dia, de acordo com a variação Outros Ɵ pos de relógios de sol foram
Era consƟ tuído por uma peça em pedra da declinação do Sol. PermiƟ a determinar desenvolvidos, especialmente no período
em forma de L, com cerca de 30 cenơ - o momento da máxima altura do Sol, ou o da Grécia anƟ ga, tendo em seguida sido
metros de comprimento, tendo nela jus- meio-dia local, e em consequência a dire- muito usados durante o período do Império
taposta, perpendicularmente, uma outra ção Norte-Sul, as datas do solsơ cio e do Romano. Da ocupação Romana da Penín-
peça do mesmo material. Na peça que se equinócio, a inclinação da eclípƟ ca, etc. sula Ibérica restam os poucos vesơ gios de
colocava horizontalmente, como a Figura É também importante notar que, já relógios de sol existentes em Portugal.
2 mostra, eram gravadas linhas, de acordo desde antes do século VI a.C., na Meso- Foram os árabes os verdadeiros herdei-
com a variação da altura do Sol. potâmia, os Caldeus defi niram a zona do ros e conƟ nuadores das ciências anƟ gas,
O instrumento era colocado na hori- céu que conƟ nha as órbitas aparentes do incluindo, naturalmente, a gnomónica grega,
zontal, orientado de modo a que a haste Sol e dos planetas (o zodíaco), o qual divi- deixando-nos no período entre os séculos IX
fi casse na direção oposta ao sol (segundo diam em 12 partes, assim como também e XIV nada menos do que 15 obras sobre
o azimute do astro naquele momento), em doze meses dividiam o ano, a semana esta disciplina.
Terá sido Ali Abdul Hassan, um erudito
Sol marroquino do século XIII, autor de uma
Sol
dessas 15 obras, quem introduziu a defi ni-
Ɵ va evolução do relógio de sol, aquela em
que o gnómon passou a ser orientado no
senƟ do da linha dos polos (portanto, per-
pendicular ao Equador celeste), o que per-
miƟ u o desenho de relógios de sol verda-
deiramente rigorosos e astronomicamente
corretos.
Tendo a cultura islâmica estado presente
Fig. 1. Princípio do gnómon. Note-se que, dado o elevado diâmetro aparente do Sol, a sombra projetada pelo topo na Península Ibérica por mais de sete sécu-
agudo do obelisco da esquerda é mal defi nida, devido às zonas de penumbra. Na China (à direita), optou-se por los, a ela devemos a introdução em Portu-
“obrigar” os raios solares a passarem por um aro circular, provocando no solo uma imagem bem defi nida. Este gal da “gnomónica moderna”, que originou
mesmo princípio foi usado no Ocidente na balesƟ lha, quando usada de costas ao Sol.
a existência no nosso país de inúmeros
relógios de sol, que têm sido estudados
e divulgados por muitas enƟ dades, talvez
Sol
infl uenciados pelas ações do Grupo de
Amigos dos Relógios de Sol.
O PRINCÍPIO DE
n
altura FUNCIONAMENTO DOS
RELÓGIOS DE SOL
sombra Na direção do vertical do astro
Fio de Vamos em seguida, muito brevemente,
prumo
dar alguns elementos teórico-práƟ cos
Fig. 2. Relógio de sol egípcio do tempo de Thutmosis III (séc. XV a.C), o mais anƟ go relógio de sol conhecido. sobre os princípios de funcionamento dos
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